“EU SOU MEU REI”

Sonia Racy

26 de setembro de 2011 | 11h07

Em seu 27º CD, o Tremendão Erasmo Carlos fala de sexo, avalia a carreira e faz um alerta: “Cuidado comigo, que eu sou muito bom”.

Aos 70 anos, Erasmo Carlos se considera um feliz sobrevivente de várias décadas. Passou pelas loucuras todas e agradece por ter saído inteiro. E muito bem, a julgar pelo tema e o nome de seu mais novo CD: Sexo. Seus parceiros musicais têm a idade dos filhos. Ele está sozinho, mas não está só. Como Chico, também tem sua Thais Gulin, cujo nome mantém em segredo. As músicas de amor, porém, são inspiradas em várias musas, um mosaico de todas as relações que viveu. Erasmo é família, mas não veste o figurino de patriarca. Há sete anos não compõe com Roberto – que guarda três inéditas da dupla para um futuro disco. O Rei não quis mais compor com ninguém. E Erasmo compreende e aceita na boa. Admira o velho amigo, mas há muito tempo segue seu próprio caminho: “Eu sou o meu rei”.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por telefone. O Tremendão está em ritmo de concentração para o show no Rock in Rio, sábado, ao lado de Arnaldo Antunes.

O que passou na sua cabeça para fazer um CD sobre sexo?

Quando gravei o CD Rock’n’Roll, todo mundo me perguntava se vinha a trilogia “sexo, drogas e rock’n’roll”. Eu dizia: “Não, essa trilogia é datada dos anos 60. Hoje o mundo é outro”. Mas sexo é um bom tema. Prometo que o próximo não será drogas. Será outro qualquer, amor, por exemplo, muito bom.

Mas você sentiu necessidade de falar sobre sexo?

A experiência que eu tenho me dá condição pra isso.

É autobiográfico o CD?

Não, mesmo porque tem letras de vários parceiros, da Adriana Calcanhotto, do Nelson Motta. Kamasutra é do Arnaldo. Falei para meus parceiros: “Vou fazer um CD, o tema é sexo. Não precisa obrigatoriamente falar a palavra sexo, queria que vocês vissem sexo como uma coisa divina. O Big Bang, pra mim, foi a primeira manifestação de sexo do universo. Dali surgiram planetas, a vida na Terra. É ver este lado primeiro; depois, até pode ir para a pornografia, se quiser”.

O que está achando da repercussão de Kamasutra?

Muito engraçado. Sexo é uma coisa tão normal, se faz desde o início dos tempos, mas ainda é tabu. Os nomes dos órgãos sexuais são feios, as pessoas têm vergonha de falar. Nunca vi uma mulher falar vagina, homem falar pênis. É assunto que não se fala nos lares, por comprometimento religioso ou por ignorância.

As pessoas estão questionando muito a sua vida sexual depois do lançamento?

Às vezes, os jornalistas perguntam: “Você está usando o azulzinho?”. Eu falo: “Não, estou usando o primo dele, o vermelhinho. Dura mais”.

Qual a imagem que as pessoas fazem de você?

Ah! De um cara loucão, doidão. E também acham que componho facilmente. Outro dia a Ana Carolina veio falar isso pra mim. Respondi: “Não é assim, não, eu perco um tempão. Você está me confundindo com o Arnaldo Antunes”. O Arnaldo tem uma cabeça maravilhosa. Ele, sim, sai escrevendo…

O que, na imagem que as pessoas fazem do Erasmo, não corresponde a você de fato?

As pessoas se prendem muito à letra. Toda música romântica que faço, pensam que é para alguém em especial. E quase nunca é. Tem um monte de mulheres ali, uma frase de cada mulher. Uma compilação de mulheres que me ensinaram coisas, que me amaram, que eu amei. E tudo é assim. A minha fama de mau vem da música O Tremendão. Fica a imagem de um cara violento, durão. Sou um ser humano como outro qualquer.

Quem são as pessoas que você acompanha na música?

Com a internet, acompanho tudo de longe. Estou sabendo que fulano está fazendo show, gravando CD. Quase não tenho tempo para ouvir disco, mas, quando ouço, sempre apelo para os antigos. Dos anos 70 pra cá, nunca mais fiquei arrepiado com música nenhuma. João Gilberto me arrepia, Creedence, Pink Floyd. Eu parei por aí, sabe?

Por quê?

Hoje em dia todo mundo grava disco. São afinados, perfeitos, mas não tem emoção. Eu me arrepio com a emoção. Mas tem de dar tempo para as pessoas mostrarem seu valor. Ninguém engana durante muito tempo. Eu estou há 50 anos tentando enganar as pessoas e ainda não consegui (risos).

A idade atrapalha o roqueiro?

Atrapalha, porque o físico não obedece mais a mente. Não posso mais correr no palco, dar salto, me jogar no meio do público. Não faço isso, porque não sou maluco. Minha mente fala “vai vai vai”, mas meu corpo diz “o que é isso, rapaz?”. A mente é sua inimiga.

Ainda vai a boates?

Se tiver aniversário de alguém, eu vou. Gosto de ir aos lugares quando tenho a ver com o evento. Agora, chegar lá e “vamos à boate”, nem morto. Não quero ver nem ser visto. Quero ser ouvido e, se possível, adorado.

Vai ao cinema?

Pouco. A última vez foi uma sessão de manhã para ver Avatar com meu filho. O carinho das pessoas no cinema incomoda, porque inventaram a máquina fotográfica de celular, que substitui o autógrafo. Todo mundo quer tirar foto e nunca acerta na primeira. Não estou reclamando da vida. Só desabafando com você. É uma coisa que existe e que eu louvo muito. Pior se eu não tivesse. Mas que incomoda, incomoda, né?

E sua voz mudou?

Acho que, hoje, minha voz está mais bem intencionada. Procuro colocá-la melhor. Operei a garganta há uns sete anos. Pensei que ela não ia mais corresponder, mas melhorou. Costumo perder grave na metade do show, porque falei muito, antes, ao telefone ou dando entrevistas como esta. Então, veja a minha vida como é. Se eu disser não, você vai dizer “ele é nojento”.

Você não nasceu em berço de ouro. O dom para a composição nasce com a pessoa ou ela desenvolve?

Nem em berço eu nasci; para isso tinha o velho chão com o paninho em cima. No meu caso, desde o primário gostei muito de poesia. Aprendi nos livros do colégio a rimar quadras; a primeira com a terceira e a segunda com a quarta. Sou muito escravo até hoje dessas quadrinhas. Se minha música não é mais sofisticada é porque procuro não sofisticá-la. Eu a aceito como ela vem, porque quero que seja entendida por todo mundo.

Que ambiente era aquele em que você vivia e que fez brotar tantas frases bonitas?

Da poesia, aprendi violão. O Tim Maia me ensinou três acordes. Descobri que, com eles, podia tocar uma porção de canções. Fui evoluindo. Primeiro, fiz versões de músicas americanas; depois, peguei elementos do cotidiano, para transformá-los em músicas. Ou seja, sou um contista. Até hoje faço música com começo, meio e fim. Sou um garimpeiro de histórias.

Que lembranças tem do Tim?

Maravilhosas. Era um grande amigo que eu tinha. Tivemos grupo junto, éramos meninos da Tijuca, no Rio.

Vocês ficaram com fama de loucos juntos?

Não, o que é isso! Ele era mais louco que eu. Dava de dez a zero.

Você ainda compõe com o Roberto Carlos?

Olha, atualmente, não, por falta de trabalho. Temos três músicas inéditas, feitas há sete anos. Quando ele lançar o CD de inéditas, elas certamente estarão lá. Aí, todo mundo vai dizer: “Eles fizeram essas três músicas”. Mas, não, a gente não fez agora. O pessoal pergunta: “E aí, não vão sair suas músicas com o Rei?”. Eu falo: “Não, não vão sair”. Ele não lança disco há sete anos.

Você ainda sente falta de compor com ele?

Sinto, pela amizade que sempre tivemos e pela forma de compor. Porque, com meus parceiros atuais, é tudo por e-mail. Eu mando MP3, eles mandam e-mail. O Roberto é o único parceiro físico que eu tenho. Os dois compondo no mesmo lugar, juntos de verdade.

Como você elaborou esse distanciamento?

Ele falou comigo que estava querendo escrever coisas românticas sozinho. Não queria mais dividir os sentimentos dele. Isso é completamente justificado. Tudo bem, não tem problema, não.

E, hoje, quem são os seus parceiros jovens?

Além do Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Nando Reis, Nelson Motta, Chico Amaral. São cabeças diferentes, que contribuem para a minha arte. Não sou um cara de ficar parado.

Você sentiu falta de uma carreira internacional, como a do Rei?

Minha proposta nunca foi ser internacional. Sou um cara feito no Brasil para o Brasil. Odeio ter de cantar música em espanhol, em inglês. Sinto que não estou exprimindo o meu sentimento, mas traduzindo. Porque, quando eu gozo com uma mulher, eu não falo “my god”, eu falo “meu bem, que bom”. Se eu estiver gravando em inglês, o meu “I love you” é fake. O idioma é a sinceridade.

Ser parceiro de um rei é muito tranquilo pra você?

Quero que o Roberto seja o maior artista do mundo. Todas as músicas são minhas, quero mais que ele se dê bem. Torço para que ele seja o rei do mundo, que venda 10 milhões de discos. Minha proposta é outra. Me cobram muito isso. Eu sou um compositor que canta. Ele é um cantor que compõe. Então, a gente não disputa as mesmas coisas.

Quais ajustes teve de fazer na carreira com as mudanças na indústria da música?

Hoje, é ralar, ralar e ralar. Tive que não contar com certas coisas, por exemplo, rádio. Tenho uma gravadora independente. Não tocamos no rádio, porque não pagamos jabá. A televisão não dá espaço para a música, só contamos com Jô Soares, Serginho Groisman. Então, tem de ir para a internet e tirar tudo das novas mídias.

Sente falta do passado?

Não, estou muito feliz. Pra mim, é uma maravilha, estou conseguindo, sou um sobrevivente de várias décadas. Passei pelas loucuras todas, saí inteiro. Graças a Deus.

Sua musica Apaixocólico Anônimo é biográfica?

É, sim, mas não para uma mulher só. Tenho a sorte de imaginar uns temas que nenhum outro faz, porque são muito malucos. Apaixocólico Anônimo é uma ode ao sexo oral, não é todo compositor que tem coragem de fazer, não.

Você gosta de provocar?

Gosto de provocar discussão. Não é pra resolver nada, não, as cúpulas que decidam. Também curto atacar por todos os lados. Então, além da parte musical, tem a capa, que é polêmica. Capa de disco não pode ser uma flor, um pingo d’água. O clipe que o Cacá Diegues fez também vai gerar polêmica, porque a televisão não vai querer passar à tarde, por causa das cenas de sexo, vão querer colocar tarja preta.

Você faz muito show?

Pra caramba. Da temporada do meu último disco, Rock’n’Roll, são quase cem desde 2009. A gente viaja, conhece pessoas, vê cidades novas e revisita as velhas. Então, um dia estou em São Paulo, no Fasano, outro comendo com os índios do Xingu, daqui a pouco no Norte, almoçando buchada com os sem-terra. A estrada é uma coisa maravilhosa.

Você é um cara família?

Eu e meus três filhos, quatro netos e as noras somos muito unidos. Temos um carinho muito grande uns pelos outros. Convivo o que é preciso conviver. Não sou patriarca, que concentra as coisas.

Gosta de ficar sozinho?

Convivo muito bem com a solidão. Não estou sozinho, estou só. Aprendi a gostar da solidão. É uma liberdade que tenho; sou todo sim, ninguém me manda, faço meu horário e meu destino. Adquiri manias importantes pra mim, que passaram a fazer parte do meu dia a dia.

Por exemplo?

Tem uma que é chavão, mas não vou poder dizer, porque você é jornalista e mulher. Ah! Tem outra que dá pra dizer: vejo meu jogo de futebol, na hora em que quero, com a TV alta. Não tenho de dar satisfação pra ninguém. É uma delícia.

O Chico Buarque tem a Thais Gulin. Quem é a Thais Gulin do Erasmo Carlos?

Isso aí, se você souber, ganha US$ 1 milhão. Claro que tem, por isso eu te digo: “Sou só, mas não sou sozinho”. Eu falo disso na música que fiz com o Liminha. Chama-se O Rosto do Rei, mas não tem nada a ver com o Roberto Carlos. É o meu rei, eu sou o meu rei. Todo homem é rei. Pelo menos na sua casa. Essa é uma filosofia minha.

A Narinha (sua mulher, morta em 1995) ainda está presente na sua vida?

Sim, em tudo que faço. Ainda tem retratos e coisinhas dela aqui pela casa, em todo lugar. Não é porque eu guarde coisas, mas porque simplesmente existem e eu deixo ficar. Me sinto bem com isso.

Você topa um joguinho?

Joguinho? Futebol?

Não, a frase que define cada década da sua carreira. 60:

A década em que me tornei homem.

70:

O auge da minha felicidade familiar.

80:

Hahaha… areia movediça.

90:

O fundo do poço.

2000:

O renascimento.

2010:

Cuidado comigo, que eu sou muito bom. Isso porque não posso dizer: “Eu sou foda!”.

/PAULA BONELLI

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