“CRIEI A ISSA PORQUE NÃO ACHAVA ROUPA PRA MIM”

Sonia Racy

13 de novembro de 2011 | 23h00

Daniella Helayel, estilista radicada em Londres, fala sobre o sucesso depois de vestir a princesa Kate

Desde novembro do ano passado, quando Kate Middleton apareceu de vestido azul no anúncio de seu noivado com o príncipe William, a vida de Daniella Helayel não é mais a mesma. “Eu era mais conhecida só no mundo da moda, mesmo”, afirma a estilista, dona da marca Issa, novo xodó das celebridades.

Carioca de Niterói, Daniella construiu seu caminho profissional fora do Brasil. E desde que a imagem do famigerado vestido foi replicada nas capas de jornais e revistas do mundo inteiro, a estilista ganhou novos clientes, fãs, projetos de crescimento e uma sócia de peso, Camilla Al-Fayed, cujo pai foi dono da tradicional loja inglesa Harrods. E o irmão, Dodi, namorado fatídico de Lady Di.

A recente sociedade empolga a estilista. Não é para menos: proporciona a possibilidade de expandir a marca para outros países. E escolheu o Brasil para abrir sua loja primogênita. Prevista para abrir no primeiro semestre do ano que vem, a estilista confirmou, em rasante por São Paulo semana passada, que será no Shopping Cidade Jardim.

Daniella recebeu a coluna em sua casa, um prédio de três andares de frente para o rio Tâmisa, no bairro de Chelsea, um dos mais elegantes de Londres.

Despojada e já com hábitos ingleses assimilados, serviu um chá da tarde e conversou sobre os novos rumos da marca, enquanto brincava com seus dois cachorros, Monster e Snowball.

Sobre Kate Middleton, a designer fala pouco, prefere manter a discrição. Mas não deixa de se orgulhar de carregar o título de estilista da princesa: “Ah, é uma honra, né? Ela é linda. Por dentro e por fora”.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Como nasceu a Issa?

Nasceu porque eu não conseguia achar roupas para mim. Só comprava roupas vintage. Não tinha uma roupa nova no meu closet. Já havia trabalhado com moda em NY, como consultora para algumas marcas brasileiras. Quando mudei para Londres, não sabia o que queria fazer. Dali para frente, foi algo totalmente intuitivo. Aconteceu. Mas eu sempre soube que queria trabalhar com beleza, com algo relacionado à moda.

E o nome da marca?

Quando eu morava no Rio, pegava onda e os surfistas gritavam “issa”.

Você fez sua carreira fora do Brasil. Começou em NY, depois foi para Londres.

Fui para NY e fiquei lá ate agosto de 99. Um mês antes, terminei um namoro de 5 anos e pensei que precisava mudar. Estava enjoada dos americanos, fui viajar e vim parar em Londres. “Issa it’s a London thing”. Não teria acontecido em outro lugar do mundo. Mas a experiência de NY foi importante, porque me deu know-how e meios para me financiar.

Muita gente que nunca tinha ouvido falar na Issa a conheceu porque Kate Middleton usou um vestido da marca no anúncio do noivado com o príncipe William. Qual o impacto disso?

Ela foi capa de todos os jornais e revistas mundiais usando aquele vestido azul. E todo mundo falou sobre isso. Porque o anel era antigo, tinha pertencido à princesa Diana, mas o vestido era novo (risos). Foi um impacto enorme. Agora, por exemplo, eu estava em Hong Kong e um homem da área de finanças, falou: “Você é da Issa, aquela do vestido azul”(risos). Eu era mais conhecida no meio da moda. Abriu um leque de novos consumidores.

Você sabia que ela usaria o vestido? Ela ligou encomendando?

Eu não tinha a menor ideia. Foi total surpresa. Estava na ginástica e, quando voltei, havia algumas mensagens dizendo que o noivado ia ser anunciado. Aí o telefone lá do escritório começou a tocar, gente perguntando se ela ia usar alguma coisa da Issa. E eu não sabia (risos). Quando Kate apareceu na TV, as meninas lá no escritório começaram a gritar, comemorando. E o telefone não parou mais. Recebemos uma quantidade de e-mails que você não imagina.

Muitos se referem a você como a estilista da princesa. Como vê essa designação?

Ah, é uma honra, né? Acho a princesa linda por dentro e por fora. Ela tem uma personalidade incrível. Mas é só. Não costumo falar das minhas clientes. Meu negócio é fazer roupa.

Mas e os boatos de que ela teria anorexia?

Nossa, isso é ridículo. O Murdoch perdeu o império dele por conta desse tipo de fofoca. Da invasão de privacidade. Acho isso péssimo, muito feio. Mas a verdade sempre vem à tona.

Muitas celebridades usam seus vestidos. Tem alguma que você ainda gostaria de vestir?

Várias. A primeira é a Michelle Obama. Acho ela o máximo. Inteligente, linda, culta, se cuida. Anda de shorts, descalça. A elegância está na postura. Adoro essa coisa despojada.

Suas roupas têm cores fortes, que não correspondem à clássica mulher inglesa. Como foi entrar nesse mercado?

Fui muito bem aceita. Aqui todo mundo usa preto, né? Eu queria colorir o mundo, deixar todos felizes. Para mim, moda é para enfeitar. As pessoas têm de se sentir para cima. Então, a Issa é um grito colorido nesse mundo preto e branco. Com certeza tem a ver com as minhas raízes brasileiras. Por ter nascido em Niterói. Por ter a vista do Rio, com aquele colorido.

Outra marca registrada são os vestidos acinturados. Você disse que não conseguia comprar roupa. Acha que valoriza o corpo?

Todas as mulheres adoram. A gente sempre quer ter uma cinturinha mais fina, né? (risos) Eu procuro sempre deixar o colo bonito, afinar a cintura, disfarçar o quadril. Isso são coisas que a roupa pode fazer para valorizar a mulher. A roupa tem de destacar o seu melhor. Ninguém quer parecer um saco de batatas.

Como foi feita sua última coleção, I Love Rio?

Começamos com Cuba. Mas eu não estava gostando das estampas. Aí pensei em falar do Rio. Todos os meus amigos estrangeiros estavam apaixonados pelo Rio. Como já tínhamos feito uma pesquisa de silhuetas que eram meio Cuba, super elegantes, resolvi misturá-las às imagens do Rio nas estampas.

E as modelos que você escolhe?

Têm de ter a ver com a coleção. Androginia não funciona para mim, por exemplo. Só servem as lindas. Eu vendo beleza. Issa “it’s about beauty”, felicidade. Você não vai ver nada esquisito nas minhas coleções nunca. Porque eu não gosto.

Você vendeu 51% da marca para a Camilla Al-Fayed. Por que?

Estávamos conversando há um tempo, nos conhecemos há oito anos e somos amigas. A Harrods foi uma das primeiras lojas a comprar Issa. Aí aconteceu. A Camilla veio com a parte administrativa e financeira. Que é tudo de bom, né? Eu fico mais com a criação. Agora, o céu é o limite. A Camilla traz toda uma infraestrutura. O acesso a mão de obra, consultores e pessoas que eu não teria como conseguir antes dela.

Quais os planos estratégicos para o crescimento da Issa?

Quero fazer muitas coisas com o Brasil. Vamos abrir uma loja no Shopping Cidade Jardim. Estamos estudando a melhor estratégia. Se será uma joint venture, um franchise… Mas, como as taxas de importação são muito altas, queria fazer uma linha que fosse made in Brazil. Algo de linha praia com as Havaianas… verão o ano inteiro.

E projetos na Europa?

Adoraria fazer uma colaboração com a H&M, por exemplo. Algo do tipo “Issa Holliday para H&M”. Mas ainda não surgiu nenhum convite, estamos discutindo coisas desse tipo.

Você tem fábrica na China?

Sim. Mantenho essa fábrica desde a primeira coleção que vendemos bastante. Os chineses são os melhores. E o mais bacana é que a qualidade de vida lá está melhorando muito. Não tem mais essa coisa de os funcionários das fábricas trabalharem domingo; o horário é respeitado, os salários mais que dobraram.

Qual a posição da China no mercado da moda?

O mercado é totalmente novo. E o poder de compra deles é impressionante. Estão inflacionando o mercado. São muito poderosos. Fui pela primeira vez a Hong Kong em 1996, depois voltei em 2004. Desde então, vou pelo menos três vezes por ano. E a cada viagem, tudo muda. É incrível. O mercado onde a Cartier mais cresce é lá. Eles estão abrindo lojas em cidades que a gente nunca ouviu falar. As vendas dobram a cada ano.

Londres é considerado, hoje, um dos polos de criação da moda. Acha que está mais em evidência do que Paris e NY?

Tudo é importante. Mas existe uma coisa criadora com Londres. Virou uma coisa ‘boomy’. Era alternativa e, de repente, os designers pensaram que também têm de vender. Então há uma fusão entre criatividade e comercial.

O que acha das londrinas?

Excêntricas (risos). O homem londrino usa muito terno. Já as inglesas sempre vão dar um twist no visual. Colocar um broche, um acessório. Acho bacana.

Qual é, na sua opinião, um pecado fashion?

Não acredito nisso. Cada um faz o que quer. Não existe pecado… (hesita, pensativa), exceto “uggie boots”. São aquelas botinhas que têm pelinho, parecem patas de elefante (risos). De qualquer maneira, não tenho nenhuma, mas, aparentemente, é bem quentinha e confortável. Para ficar em casa, escondida, pode. (risos)

O que te inspira na hora de criar uma coleção?

Sempre quis criar o time dos meus sonhos. Porque não fazemos nada sozinhos. Inclusive, tenho um funcionário que é meu segredo. (risos) Tenho um segredo na minha equipe. É um modelista, um gênio. Ele é incrível, vocês deviam fazer uma foto dele. Mr. Leslie Paul. Existem as minhas tentativas antes de encontrar o Leslie e depois. Porque é o caimento perfeito.

Mas onde você busca referências?

Nunca vejo revista de moda, por exemplo. Busco muito mais em livros, na internet. Trabalho com referências antigas, coisas que vejo nas minhas viagens também. Pensamos sobre o que estamos sentindo. Mas a marca da Issa será sempre a roupa acinturada, não importa a tendência.

Vocês seguem tendências, fazem pesquisa de mercado?

A única pesquisa que fazemos é de preços dos concorrentes. Para equalizar com os nossos. A gente detesta tendência. Estamos na contramão, sempre.
/MARILIA NEUSTEIN

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