“CONSIGO APOIO PARA SP DO ESTADO E DA UNIÃO”

“CONSIGO APOIO PARA SP DO ESTADO E DA UNIÃO”

Sonia Racy

09 de abril de 2012 | 10h37

Pré-candidato do PMDB à Prefeitura, Gabriel Chalita diz ser o único capaz de construir pontes com Alckmin e Dilma, para resolver os problemas da cidade

Gabriel Chalita prega a pedagogia do amor. O que vem a ser isso? Em conversa com a coluna, semana passada, quando se apresentou como terceira via à polarização entre PSDB e PT em São Paulo, o candidato à Prefeitura da capital explicou: “É educar por meio de vínculo em qualquer ambiente. A partir do momento em que você se sente respeitado, faz vínculo com seu chefe e rende mais”.

Esperando para aplicá-la na Prefeitura, o também escritor (de 63 livros aos 42 anos), professor, ator e ex-secretário de Educação no governo Geraldo Alckmin recebeu, pontualmente, a coluna na Livraria da Vila dos Jardins – entre livros, onde se sente à vontade. Em clima paz e amor, o pré-candidato propôs estender o pacto de não agressão selado com Fernando Haddad aos outros candidatos. Desafeto de Serra, íntimo de Alckmin e com bom trânsito com Dilma, Chalita se diz o único capaz de unir os poderes estadual e federal para resolver os problemas da cidade. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Por que a Prefeitura?

Quando fui vereador, fiz uma incursão pelo principais problemas sociais de São Paulo. Desde o problema dos moradores de rua até, programas ligados à educação. Acredito, sim, que é possível fazer uma ponte entre essas duas cidades: uma com PIB de R$ 400 bilhões, orçamento de R$ 38,5 bilhões, rica, com porcentual de médicos por habitante maior do que o de muitos países da Europa; e outra cidade muito pobre, miserável, abandonada.

A ideia da Prefeitura surgiu quando? Foi então que quis sair do PSDB por falta de espaço para tanto?

Na época em que eu era secretário de Educação, tinha vontade de ser prefeito. Depois, quando me candidatei a deputado, meu foco mudou: queria criar um grande projeto de discussão educacional para o Brasil. Acredito, aliás, que uma área central da discussão nesta campanha tem de ser a educação.

O senhor terá um ex-ministro da Educação debatendo o tema.

Vou debater com ele. Com elegância, com respeito.

O que achou do Haddad no Ministério da Educação?

Ele fez coisas importantes. Talvez a melhor delas tenha sido o conceito do ProUni. Você mostrar que há outras alternativas para se chegar à universidade. Mas ele não conseguiu resolver o problema central da educação no Brasil. Não adianta melhorar a universidade se você não melhorar a educação básica.

Seus rivais vão explorar na campanha o fato de o senhor ter mudado quatro vezes de partido.

Tenho 22 anos de vida pública. Fiquei 20 anos num partido só. Quando saí do PSDB e fui atrás de outra possibilidade política, errei em uma e fui para outra. Eleito pelo PSB, tinha a expectativa de presidir a Comissão de Educação no Congresso, ter uma atuação efetiva. Aí, senti que o PSB não me queria, comecei a divergir. O PSB começou a se aproximar do Kassab, percebi que não conseguiria realizar o que queria. E fui conversar com o Michel Temer.

O senhor está satisfeito no PMDB?

Estou, porque é um novo PMDB em SP. Sou presidente municipal do partido e vejo muitos jovens se filiando, lideranças, pessoas que entram e enxergam uma nova forma de fazer política. Eu me sinto confortável. Mas claro que todos os partidos têm problemas. O Temer queria que eu viesse para o PMDB antes – mas, naquela época, era uma estrutura muito mais ligada ao Kassab, e ele respeitava a liderança do Quércia. Nunca tive problema com o Quércia, mas, quando vi esse espaço, achei uma ótima alternativa. E o Temer tocou nesse assunto da Prefeitura, se isso me empolgava. Falei: “Empolga muito, eu adoro São Paulo” Sou de Cachoeira Paulista e me mudei para cá aos 21 anos. Aqui fiz minha vida. Dei aula nos colégios Friburgo e Santa Cruz. Depois, dirigi Pueri Domus e Pentágono.

O senhor fez um pacto de não agressão com o Haddad neste primeiro turno?

Se eu pudesse, faria pacto de não agressão com todos os candidatos. Até com o Serra. Busco uma campanha focada na cidade. E o que conversei com o Haddad, conversaria com o Serra. Mas ele não fala comigo. Queria que tivéssemos uma disputa elegante, sem guerrilhas de internet, sem tentar destruir biografias.

Não fala com o senhor?

Nem me cumprimenta. Nem estende a mão.

Qual foi o estopim?

Quando eu era secretário de Educação e apoiei o Alckmin para presidente. O Serra queria ser candidato, coisa que eu nem sabia – até porque ele não dizia que queria, ele era prefeito… Aí, dei uma entrevista dizendo que era o momento do Alckmin. Na verdade, corroborando o que o Alckmin dissera no Roda Viva. E o Serra resolveu me desprezar. Não entendi.

Tem muita gente que diz que o candidato de coração do Alckmin é o senhor. O que acha disso?

O Alckmin gosta de mim, mas vai apoiar o Serra. É um homem de partido. Depois das eleições, a história é outra. Tenho absoluta convicção de que, ganhando a eleição, Alckmin trabalhará comigo em harmonia tanto quanto a Dilma. Aliás, sou o único que pode dizer isso: consigo apoio dos dois poderes, estadual e federal para ajudar a cidade.

Considera-se uma terceira via dessa disputa PSDB-PT?

Você tem o Serra mais ligado ao governador, em tese, e o Haddad mais ligado à presidente Dilma. Eu conseguiria unir Estado e União por São Paulo, faria uma administração muito boa nesse sentido. Os problemas da cidade são de interface com os governos federal e estadual o tempo todo: metrô, despoluição de rios… para melhorar, só com as três esferas atuando juntas.

O senhor tem algum dado de pesquisa mostrando que SP quer uma terceira via?

As pesquisas qualitativas que os partidos estão fazendo mostram que a população quer um fato novo. Há um cansaço de olhar para a cidade e pensar: “Tudo bem, melhorar o trânsito demora mesmo”. Mas qual seria exatamente esse plano de melhoria efetiva? Não tem projeto a cidade.

Tem hobbies?

Gosto de correr. Também adoro teatro e cinema.

Já foi ator, né?

Fui. Acho a arte fantástica. Tinha 17 anos quando fiz o teatro-escola Macunaíma; depois, o Célia Helena. Aos 18, atuei numa montagem do Ópera do Malandro. Eu era o Max Overseas… o malandro.

A experiência como ator ajuda na política?

Acho que ajuda muito na sala de aula, mais do que na política. Um bom professor é um bom ator. Hoje eu dou aula no doutorado e na graduação, são menos aulas. Antes, tinha 10 turmas, hoje tenho duas. O doutorado não é desafiador, porque são pessoas mais da ciência e você vai discutir ciência. Agora, para dar aula na graduação, tem de ser artista. É um desafio. O jovem precisa ser envolvido no processo.

Como consegue escrever tantos livros?

Por exemplo, ontem, eu fiquei o dia inteiro revisando um livro que escrevi aos 20 anos. Chama-se O Livro do Amores. Vai ser relançado pela Planeta. Eu sou uma pessoa muito disciplinada.

Mas explique como…

Tenho coleção de livros para crianças também. Dos meus 63 livros publicados, uns 30 são para crianças.

Sempre teve facilidade para escrever?

Sento e escrevo: na fila, no avião. O Vivendo a Filosofia foi o que deu mais trabalho, passei dois anos escrevendo, fiz muita pesquisa com muitos dados. É um livro didático. Mas cada livro tem uma trajetória. Os livros com o Mauricio de Sousa eu escrevo num final de semana. O texto é meu, ele faz as ilustrações. O Walcyr Carrasco um dia me falou: “Quando falarem que você tem muito livro, diga que eu tenho cem livros publicados, fora todas as novelas e mais os artigos que escrevi”. A Ruth Rocha, por exemplo, deve ter escrito mais de 300 livros.

Acha que vão levantar suspeitas sobre sua produção de livros durante a campanha?

Eu não fujo de nenhum tema. Sou absolutamente verdadeiro. Costumam dizer: “Não fale que você escreve um livro no fim de semana, porque vai pegar mal”. Não pega mal coisa nenhuma. Um livro infantil tem 20 páginas. Você não consegue escrever 20 páginas num final de semana? O Ignácio de Loyola Brandão diz: “Só estão implicando com você, Chalita, porque é político. Se fosse escritor, ninguém diria nada, porque é normal”. Muitos escritores escrevem com essa frequência.

Muitos de seus livros são classificados como de autoajuda. Isso te incomoda?

Se as pessoas gostam e compram, tudo bem. Hoje em dia, Aristóteles virou autoajuda, Tolstoi virou autoajuda. Fico muito feliz em saber que O Pequeno Filósofo vendeu 300 mil exemplares em três meses. É muito legal para um autor saber que a pessoa saiu de casa para comprar um livro seu. Que vai ler aquele livro. É uma honra para mim.

O senhor não é casado, não tem filhos. Faz falta uma família já constituída quando se assume cargos públicos? São fonte de apoio em uma campanha?

Acho legal a população conhecer quem é casado e quem não é.

Mas não faz diferença na hora do eleitor escolher.

Não é um fator decisivo. A população vai querer saber quem é tem condições de resolver os problemas da cidade. Mas quem sabe durante o meu mandato…

O senhor tem irmãos?

Éramos quatro, morreram dois. Um foi vítima de acidente de carro, aos 21 anos; outro tinha Síndrome de Down, morreu aos 33. Tenho um mais velho, que trabalha nos negócios que meu pai deixou em Cachoeira Paulista – um posto de gasolina, uma fazenda. A maior parte ficou para a minha mãe.

Eles vêm muito para cá?

Minha mãe mora comigo, tem 80 anos. Minha tia, irmã dela, também. Tem 79 anos. Minha mãe sofreu muito na vida, então cuido da minha mãe. Perder dois filhos adultos, perder um filho grávida… Ela teve uma vida muito dura, muito difícil.

Qual a influência dela sobre o senhor? Incentivou-o a entrar na política?

Não. Ela vota em mim, participa, mas queria que eu fosse médico. Achava que eu ia sofrer muito na política. / SONIA RACY E PAULA BONELLI

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