‘TENHO UM CÉREBRO ELETRO DE MIL COISAS’

‘TENHO UM CÉREBRO ELETRO DE MIL COISAS’

Sonia Racy

24 de outubro de 2010 | 23h00

Próximo dos 70 anos, Jorge Mautner corre o Brasil atrás de manifestações de cultura popular e prevê que os neurônios do homem, em breve, estarão conectados à internet.

Jorge Mautner é uma espécie de parabólica. Suas antenas estão em sintonia permanente nas manifestações de cultura do País. Embora vá completar 70 anos em janeiro, continua com fôlego de garoto atrás de sinais que contribuam com sua teoria da amalgama – conceito que defende há quase 50 anos sobre a capacidade de miscigenação cultural que, segundo ele, só o brasileiro possui. Para reforçar sua tese, faz questão de citar em seus shows uma frase do poeta americano Walt Whitman: “O vértice da humanidade será o Brasil”.

Escritor, compositor, violinista e cineasta, Mautner tem um discurso tão fora do padrão médio que chegou a ser chamado de alienígena da nossa cena cultural e social. Isso, no entanto, não tirou sua lucidez ao prever, em 1965, a criação das redes sociais no livro Fragmentos de Sabonete. Sobre o futuro, diz: “Em breve, os neurônios terão implantes que nos manterá conectados à internet.”

Militante de carteirinha do PCdoB, amigo de todas as horas de Gilberto Gil e Caetano Veloso, o autor de Maracatu Atômico é um artista de hábitos simples. Corre o Brasil fazendo palestras e shows, tendo apenas a companhia de seu inseparável violino e do parceiro de longa data Nelson Jacobina. A seguir, trechos da entrevista.

Como você se prepara para comemorar seus 70 anos?

Eu estou finalizando a minha carreira. Sou muito racional. No entanto, continuo efervescente. Faço muitas coisas ao mesmo tempo. Só vou parar quando cair morto. Trabalho todos os dias, não tenho descanso. Se não fizer isso, a minha cabeça ferve. Para janeiro, quando faço aniversário, preparo uma série de 28 capítulos, que serão exibidos na TV Brasil, sobre manifestações de artes captadas em mais de dois mil pontos de cultura espalhados pelo País. Tem também um filme que o Pedro Bial faz sobre a minha trajetória. Ainda planejo o lançamento comercial do CD Kaosnavial, gravado ao ar livre com o Mestre Duda, em Nazaré da Mata (PE), além da reedição do CD Revirão, produzido em 2007.

Existe algum tipo de regra dentro do seu processo criativo?

Tenho um cérebro eletro de mil coisas. Não existe nada rígido. A emoção vem em primeiro lugar. É uma absorção contínua do que eu vou lendo e aprimorando. O mais interessante é que a garotada agora compreende melhor o meu trabalho. Eles estão totalmente preparados para captar essa ideia de simultaneidade que eu falo há quase 50 anos. Aceitam a influência estrangeira de forma democrática e não enxergam nisso problema algum.

O que Gil e Caetano significam dentro do seu trabalho?

São mais que amigos. São responsáveis diretos pela minha existência artística. Minha amizade por eles é imorredoura. Com eles posso falar sobre tudo: filosofia, religião, fenomenologia…Sem disputa, só absorvendo.

Qual é a sua atual percepção sobre a música brasileira?

A música brasileira continua inspirando o mundo inteiro. Ela nunca esteve tão múltipla e excepcional. O Brasil é um continente cheio de manifestações musicais. O sertanejo é herdeiro da moda de viola, o funk conta histórias e o rap é literatura. A vontade de ser brasileiro devora todas as almas humanas. Só um poeta como Vinicius de Moraes seria capaz de levar para o morro o mito grego e criar Orfeu da Conceição.

Quem chama sua atenção nas novas gerações?

Todos me encantam, todos representam uma parte da nossa imensa democracia da amalgama. A Orquestra Imperial tem um trabalho maravilhoso. O AfroReggae é excepcional. A Ana Cañas é ótima. Não gostaria de enumerar para evitar cometer injustiças. Recebo CDs excelentes vindos do Brasil inteiro. Só que ainda não tiveram espaço na mídia.

Você é a favor da democratização da música por meio da internet?

Ela é essencial para divulgação do trabalho do artista. A internet gera informação e estimula a presença do público nos shows. Hoje os saguões dos teatros são os melhores pontos de venda de CDs e DVDs.

O Marcelo Tass disse que você já está no Twitter desde os anos 60, o que acha disso?

O Marcelo quis dizer que o meu trabalho tem espírito de Twitter. Sou um anunciador dessa era por pura visão metafísica. O meu livro Fragmentos de Sabonete, escrito em 65, quando eu morava nos EUA, dizia que havia tanta gente naqueles apartamentos que poderia haver um aparelho que sincronizasse desejos e identificações para que pudéssemos escolher amigos e namoradas. O mesmo conceito que existe hoje no Facebook, Orkut e MSN.

O que imagina para o futuro?

Os neurônios terão, em breve, implantes e por meio deles estaremos conectados com a internet. Daqui algum tempo a vida vai dobrar e chegaremos aos 200 anos. Criaremos o autorreplicante. Quem coordenará tudo é a emoção.

Você é usuário do Twitter?Não, infelizmente, não tenho tempo para isso. Uso a internet apenas para me corresponder por e-mail e navegar um pouquinho. Também não tenho iPhone e tento agora aderir ao Skype.

Qual a sua expectativa com o próximo governo?

Acho que todas as sementes plantadas pela Marina continuarão a influenciar a política. Acredito que o clamor do público pelas questões ambientais precisa ser respeitado. Além disso, espero mais investimentos em Cultura e Educação.

Você votou na Marina no primeiro turno?

Não, porque, embora more no Rio, meu título ainda é de São Paulo. Mas, por fidelidade, o meu voto seria da Dilma. Também me considero amigo do Serra, cheguei a fazer shows para ele durante sua campanha para prefeito.

Como vê a tentativa do governo em controlar a mídia?

A liberdade de imprensa é fundamental em qualquer democracia. A saída não é por aí. Assim como fez Getúlio Vargas, que lançou a Última Hora nos anos 50 para dar a sua versão dos fatos, o governo poderia criar o seu próprio jornal. Embora a TV Brasil já exerça, em parte, esse papel.

Qual foi sua reação ao saber que seu amigo José Genoino fazia parte no esquema do mensalão?

Foi uma mistura de decepção e compreensão. Os partidos tradicionais faziam isso de maneira mais elegante. As transações foram feitas como se estivessem numa mesa de boteco. Faltou preparo e critério. Todos devem ser condenados. A maior punição veio das urna.

GILBERTO DE ALMEIDA