‘Tem de esclarecer, sim, tem de cobrar’

‘Tem de esclarecer, sim, tem de cobrar’

Sonia Racy

12 de abril de 2010 | 07h55

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Denúncias se resolvem com transparência, diz abade do Mosteiro São Bento

O quase-engenheiro Mathias Tolentino Braga terminava o curso no Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos, e já era piloto formado, quando apareceu, há 20 anos, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Sua missão era desestimular um amigo que queria virar monge: “Eu achava isso um absurdo”.

O destino, porém, lhe pregou uma peça. “Me encantei com o lugar. Descobri que era possível viver uma espiritualidade profunda e, ao mesmo tempo, estar em sintonia com o mundo”, diz ele hoje, ao receber a coluna em uma poltrona do Parlatório do mosteiro, do qual é abade há cinco anos.

Liderando 42 monges, numa igreja que se transformou em “point” de fiéis e de turistas, dom abade Mathias não perde o sono com o surgimento de novos grupos ou seitas: “Se há uma diminuição nas estatísticas de pessoas que se declaram católicas, acho que os fiéis de hoje têm uma qualidade melhor”. E, com um sorriso sereno, comenta as recentes denúncias de pedofilia envolvendo até bispos: “Na minha opinião tem que haver cobranças. É preciso esclarecer. A publicização é a única maneira de combater esses abusos.”

O senhor. acha que tem havido um enfraquecimento da Igreja Católica? Não vejo assim. Dentro da Igreja estão surgindo muitos grupos. Só como exemplo, tem gente como a Aliança de Misericórdia, que faz um trabalho magnífico com moradores de rua. Fui dar uma conferência em São José dos Campos e soube de mais de 400 leigos que, depois de trabalhar o dia inteiro, vão estudar teologia à noite.

A que o sr. atribui a grande procura pelas missas e atividades do mosteiro? Foi por causa da vinda de Bento XVI? A presença do papa foi muito forte. Ele me surpreendeu, pelo seu trato pessoal, muito afável. Desde então, tem sempre turista tirando foto por aqui. O canto gregoriano nas missas atrai muita gente. Além disso, tem havido um movimento forte de revitalização do centro. E nosso edifício é cheio de atividades. Temos concerto na basílica, música erudita, missa às 5h30 e nas vésperas.

E até a padaria do mosteiro tem feito sucesso, não? Sim, eu acredito que a mística de pães feitos no mosteiro é uma coisa que agrada. Dom Bernardo, o padeiro responsável pela receita, nem consegue atender à demanda. Vendemos aqui e na loja da Barão de Capanema e tem dia em que às 3 da tarde não tem mais pão.

Para onde vai a renda disso? Investimos no colégio. Somos dos poucos, no centro de São Paulo, a resistir. Temos tido uma grande procura de chineses, hoje são 160 crianças da colônia, filhas de comerciantes da 25 de Março. Recebemos até um reconhecimento do governo da China de escola exemplar no ensino do mandarim.

Os casamentos são também uma fonte importante… A gente só faz casamento aos sábados. Pela demanda, chegamos a abrir dois, mas a partir de 2011 voltaremos a ter um só. Com eles, fazemos a manutenção do mosteiro e do órgão, que é caríssima. Com segurança, organista, tudo o mais, um casamento sai por R$ 5.000.

Como abade, qual a sua missão específica? O abade é eleito pela comunidade e o cargo é vitalício. Estou aqui há 17 anos e fui escolhido para a função há cinco. Temos 42 monges, cujo maior desafio é estar no centro da cidade e conjugar a vida de solidão, de silêncio, com esse burburinho, internet, celular a toda hora, pessoas solicitando.

Tem pouco a ver com uma vida monástica, não? Sim, fica difícil a experiência da solidão, que para nós é fundamental. Aliás, antes mesmo de entrar para o mosteiro eu já achava que o mosteiro estava um tanto fora de lugar. Mas depois constatei que, ao contrário de monges alienados, fechados na clausura, havia ali pessoas que liam jornal, literatura, poesia. A biblioteca do mosteiro tem 100 mil volumes…

Ou seja, a cultura, para vocês, é um elemento essencial. A leitura é parte integrante da nossa vida, como São Bento já escrevia há 1.500 anos. E a música sempre foi muito cultivada entre os beneditinos. Com o tempo, os monges se interessaram por botânica, agricultura, filosofia, tragédia grega.

E qual o impacto, nesse dia-a-dia, das denúncias de pedofilia que envolvem grupos protestantes e até bispos católicos?Se, em certas profissões, isso é uma coisa inadmissível, dentro da Igreja é mais grave ainda. Existe uma expectativa em relação ao sacerdote, de credibilidade. Vejo positivamente a comoção de hoje sobre o assunto. Na minha opinião tem de haver cobranças, sim, esclarecer o que está acontecendo. Mesmo que as estatísticas digam que é baixo o número de sacerdotes que o fazem, trata-se de pessoas que pregam valores. Então, é escandaloso. Defendo que se torne isso transparente.

Os episódios vão deixar cicatrizes na imagem da Igreja? Os casos que estão vindo à tona aconteceram há 20, 30 anos. Não acho que com eles a Igreja caia em descrédito. Quem a conhece sabe que há muitos padres santos.

Acha que a mídia, de modo geral, exagera ao falar do assunto? Acho muito positivo que se divulgue, porque isso possibilita um melhor controle. A publicização é a única maneira de combater esses abusos. Mas o fiel, mesmo, que está participando, sabe que o padre é humano. E que existem padres e padres.

Que tipo de punição a doutrina católica prevê para esses casos? Cada bispo tem autonomia para punir, ou encaminhar para a Santa Sé, que pode até excluir do sacerdócio o envolvido. Mas para isso é preciso que a pessoa vá de frente com o ensinamento da Igreja. Jesus diz que a gente tem de perdoar, não só sete vezes, mas 70 vezes 7. A própria sociedade civil reconhece que, por pior que seja o criminoso, a ideia é recuperá-lo. Mas é claro que, em muitos casos – patológicos – não se pode deixar o envolvido atuar. Tem de ser afastado.

Paula Bonelli e Gabriel Manzano Filho