‘QUEM MENOSPREZA MEU TRABALHO QUER É SER PAULO COELHO’

‘QUEM MENOSPREZA MEU TRABALHO QUER É SER PAULO COELHO’

Sonia Racy

03 de outubro de 2010 | 23h00

O escritor, que acaba de lançar O Aleph no Brasil, fala sobre sucesso, consumo e crenças.

 

Paulo Coelho parece uma maquina sobrenatural. Escreve em duas semanas livros que já venderam 145 milhões de exemplares em 150 países. No Brasil, é sucesso de público, mas não de crítica. O que ele caracteriza como inveja: “Volta e meia, leio um ou outro comentário menosprezando o meu trabalho. Mas sempre interpreto como “eu gostaria de ser Paulo Coelho”, analisa o escritor sem temor da modéstia, acostumado a rebater a jato tudo que é dirigido contra ele. Coelho concordou em dar entrevista somente por e-mail. E respondeu 25 das 30 questões sem direito a réplica. Ele que, em 2006, gravou vídeo de apoio à campanha de reeleição de Lula, teria ficado ressentido por não ter recebido sequer mesmo um só telefonema de agradecimento. E ignorou perguntas sobre eleições e a respeito do amigo José Dirceu.

Sua última obra, lançada até agora apenas no Brasil, O Aleph, é repleta de viagens no tempo, encontros com vidas passadas e sinais a serem interpretados, efeitos típicos do cardápio que celebrizou o autor. O lançamento mundial de As Valkírias transformou-se num sucesso estrondoso, ocupando a primeira posição das listas de livros mais vendidos em pelo menos oito países.

Como um bom mago, Paulo Coelho oculta os truques. Não revela o que realmente ocorreu de fantástico em O Aleph. “Essa pergunta não vou responder porque entrega o que aconteceu no livro”, justifica. A obra relata sua viagem pela ferrovia Transiberiana, realizada há quatro anos, em busca de crescimento espiritual em momento de profunda crise de fé.

Quando tira a espada, da exclusiva ordem religiosa R.A.M, em que foi ordenado mago, ou o fardão de imortal da Academia Brasileira de Letras, adota um visual básico e despretensioso: “Não preciso de tudo que está nas vitrines. Compro camisetas da GAP e calças Levi’s”.

Como tudo que faz sucesso é copiado, Paulo Coelho inventou uma fórmula ousada para se promover por meio da autopirataria: criou o site Pirate Coelho, que oferece versões de seus livros para serem baixados de graça pela web.

Você acha que a internet poderia estar prejudicando as vendas de seus livros no Brasil?

Quem consegue chegar ao “Pirate Coelho” (não é tão fácil assim) poderá baixar grande parte dos meus livros. Mas o que concluí? Desde que os livros estão disponíveis, as vendagens aumentaram. Ninguém lê livro em tela de computador, mas podem ter uma ideia do conteúdo e decidirem se desejam comprar. Até o momento, a resposta é: “Sim, desejamos comprar”.

Os suportes eletrônicos não competem com o livro impresso?

Na minha opinião, até o momento, não. Apenas permitem que um leitor na Tailândia ou na Costa do Marfim possa baixar meu livro em português. A tal competição acontecerá talvez daqui a cinco anos, mas qualquer previsão sobre tecnologia é semelhante a previsões econômicas: sempre acontece o que ninguém está esperando. Acho que os livros continuarão por longo tempo na forma impressa.

Você é extremamente reconhecido no exterior. Acha que o seu trabalho não é tão bem compreendido no Brasil?

Acho que se não fosse o Brasil e o entusiasmo dos leitores brasileiros, meus livros jamais teriam chegado ao exterior.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras sentiu que houve escritores que torceram o nariz para você?

Não, ninguém torceu o nariz. Podem ter ficado surpresos, mas nada além disso. Volta e meia leio um ou outro comentário menosprezando o meu trabalho, mas sempre interpreto como: “Eu gostaria de ser Paulo Coelho”.

Como assim?

Recentemente, no Twitter da Biblioteca Nacional, o seu ex-diretor Affonso Romano de Santana disse que leu O Alquimista em 1986 e ficou na dúvida se devia me dizer para não publicá-lo. Interpretei como leituras psicografadas, já que o livro só foi escrito dois anos depois.

O que é a crise de fé que o motivou a viajar pela Transiberiana e a escrever O Aleph?

Um homem em crise é um homem que está sempre crescendo. Já tive muitas e espero ter muitas ainda, porque assim sou obrigado a me questionar constantemente.

Falar em crise da fé não é uma redundância no mundo desencantado e tecnológico em que vivemos?

Acho que estamos em um mundo encantado e técnico, sendo que a tecnologia, através das comunidades sociais, tem colaborado para aproximar as pessoas. No meu caso, o contato com os leitores é muito mais direto. No lançamento de O Aleph não dei nenhuma entrevista, tudo foi feito através das comunidades sociais.

Que acontecimento fantástico relatado no livro realmente ocorreu nessa sua experiência cruzando a Rússia?

Essa pergunta não vou responder porque entrega o que aconteceu no livro. Posso dizer que nem tudo que aconteceu na viagem está no livro. Mas tudo que aconteceu no livro também ocorreu na viagem.

Há alguma relação com a obra homônima de Borges?

Borges, Paracelso, e muitos matemáticos tocaram no famoso ponto, o Aleph, onde tudo converge ao mesmo tempo. O meu livro também trata do tema.

Seus livros sensibilizam milhões de pessoas das mais variadas regiões do mundo, com valores completamente distintos entre si. Isso te surpreende?

Sim, é uma surpresa que se prolonga por mais de 20 anos. Neste momento estou lançando no mundo inteiro As Valkírias, quase 20 anos depois de publicado no Brasil. E o livro está em 1° em todas as listas. Se eu soubesse o segredo, talvez isso não estivesse acontecendo mais.

E como estão sendo recebidas as versões virtuais dos livros?

As versões digitais estão vendendo muito além do esperado; os originais em português e as versões em inglês, francês, espanhol e alemão (eu comprei os direitos das traduções) estão em praticamente todos os suportes eletrônicos, do iPhone ao Nook.

Usa iPad, Kindle?

Uso Kindle, não me adaptei com iPad, embora minha mulher tenha adorado.

Usa roupa de marca? Que tipo de prazeres você se dá ao luxo?

Não preciso de tudo que está nas vitrines. Compro camisetas da GAP, calças Levi’s. Sempre que viajo tomo o vinho local que pode ser bom ou pode ser ruim, mas é uma experiência nova. Não frequento restaurantes badalados, exceto quando sou obrigado por questões profissionais (eventos, etc.). Normalmente a melhor comida é aquela que você come quando sente fome. Já entrei em muitos restaurantes esperando encontrar a Capela Sistina da gastronomia, e saí decepcionado. Já entrei em muitos bares esperando apenas matar a fome e encontrei uma Capela Sistina da gastronomia.

Já foi convidado para eventos como a Flip e o Fórum de Ouro Preto? Frequenta rodas literárias?

Sim, fui convidado para a Flip, mas não pude ir. Frequento o campo, os aeroportos, as praias, e as livrarias – onde está o material para escritores.

O que você acha do Chico Xavier?

Uma pessoa extraordinária. Tive o prazer de conhecê-lo enquanto passeava neste mundo, e fiquei muito impressionado com ele.

Como ele, acredita em vida após a morte?

Acredito, sim, em vida após a morte, assim como há vida antes do nascimento.

O que é fé para você? Com quais religiões se identifica?

Fé é uma escolha pessoal. Sou católico, em profunda crise neste momento com as atitudes do atual Papa.

Tem algo de que você se arrependa?

Me arrependo de muitas coisas, mas isso significa que vivi intensamente, e pedi desculpas sempre que tive oportunidade. Quem não se arrepende de nada, das duas uma: ou não tem senso crítico, ou não viveu.

E do que se orgulha?

A coisa que mais me orgulho em mim é minha coragem: tenho meus medos, mas jamais me deixei paralisar por eles. A coragem é o medo que faz suas preces.

Em quais projetos está envolvido no momento? Algum novo livro?

Como falei acima, estou envolvido em caminhadas, livrarias, internet, bares, viagens, sempre aproveitando cada minuto da minha vida. Faço isso desde adolescente. Os projetos – que no momento não existem – surgem de uma hora para a outra, justamente quando estou relaxado.

Segundo a Publishers Weekly, você é um dos cinco escritores vivos mais lidos do mundo. Aonde mais quer chegar?

Onde minhas pernas me levarem, onde meu coração me exigir, onde minha alegria de viver me conduzir. Ninguém no mundo pode pretender mais que isso.

PAULA BONELLI

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