‘PIRATARIA ME DÁ ÂNSIA DE VÔMITO’

‘PIRATARIA ME DÁ ÂNSIA DE VÔMITO’

Sonia Racy

17 de outubro de 2010 | 23h00

No aquecimento da Mostra, Leon Cakoff fala sobre os destaques deste ano.

Tem início, sexta-feira, a Mostra Internacional de Cinema de SP. O consagrado evento onde cinéfilos disputam com simples curiosos as cadeiras das salas afim de conhecer o que há de mais significativo no cinema mundial. O material – cerca de 450 filmes – garimpado durante um ano por Leon Cakoff e sua mulher, Renata de Almeida, chega ao circuito dividido em 29 salas. Entre os destaques desta edição, está o filme de Raúl Ruiz, Mistérios de Lisboa, baseado na obra de Camilo Castelo Branco, com quatro horas e meia de duração e “deslumbrante”, na definição de Cakoff.

Além da exibição dos longas, promover o “footing” ou pontos de encontro em SP é um dos objetivos do homem que, há 34 anos, está por trás do evento. E uma das maneiras que encontrou de estimular essa experiência é levar obras primas cinematográficas para plataformas fora da sala de projeção. Como, por exemplo, o Parque do Ibirapuera, o Masp e o Instituto Tomie Ohtake. Prestes a celebrar a 34ª edição da festa, Cakoff recebeu a coluna em seu escritório, no Baixo Augusta. Apressado e com um iogurte na mão, o organizador mal teve tempo de almoçar em meio às confirmações de filmes de última hora. Contudo, toda a pressa vira poeira quando o assunto é discursar sobre os frutos da Mostra que ele afirma não ter qualquer pretensão “megalomaníaca”. “O crescimento do evento é algo espontâneo”, diz.

E para fechar o bate-papo, chama atenção para o combate à pirataria: “Acho absurdo pessoas pensantes acreditarem que é normal comprar um produto pirata. Isso vai acabar com o cinema”, revolta-se.

A seguir trechos da entrevista.

Quais são as novidades do evento reservadas para esse ano?

A Mostra poderia acabar nos cinco primeiros dias. Teremos, além da abertura com o filme de Manoel de Oliveira que nós coproduzimos e que abriu Cannes, a obra prima de Raúl Ruiz, Mistérios de Lisboa. É um longa de quatro horas e meia, baseado na obra de Camilo Castelo Branco. É deslumbrante, um verdadeiro fenômeno mundial.

A Mostra está se expandindo para outras plataformas fora das salas de cinema, não é verdade?

Sim. Vamos fazer, por exemplo, uma exposição de fotografias gigantes do Win Wenders, no Masp, que ele mesmo virá montar. Teremos também a mostra do Kurosawa no Tomie Ohtake.

Você foi pioneiro entre os organizadores de festivais no Brasil. Hoje existe concorrência. Como são divididos os filmes?

Os produtores perguntam se nós exigimos que o filme seja inédito e dizemos que não. Nosso compromisso é com o público de SP. Não tenho a pretensão megalomaníaca de dizer que eu sou o melhor, o maior. Acho isso ridículo. Os festivais de Gramado e do Rio se autointitulam os maiores da América Latina. Se couber mais no ego deles… é capaz de afirmarem que são os maiores do mundo. Tentamos fazer um bom trabalho. Prefiro ser modesto nas minhas intenções.

A produção dura um ano inteiro. Como funciona a logística de garimpar os filmes?

Não paramos um minuto. Já temos coisas fechadas para 35ª Mostra. É uma equipe que vibra junto com a gente. Isso é muito legal. Hoje mesmo confirmaram dois filmes. É uma orquestração mundial. E nós celebramos a afinação dos instrumentos.

O público de cinéfilos cresce ano a ano. Como vocês dão conta da demanda de ingressos?

Não temos em mente essa coisa de projeção, crescimento. As coisas acontecem naturalmente. Estamos crescendo bastante hoje mas, ano que vem pode ser diferente, um pouco menor. E crescer significa ter exibição no vão livre do Masp, no Ibirapuera. É um crescimento espontâneo. Como eu te disse, ninguém é megalomaníaco.

Mas há quem não consiga assistir aos filmes. Por isso organizam pacotes promocionais?

Esses pacotes têm uma lógica. Não de restringir, mas de adequar o público aos tamanhos das salas. Todas as oportunidades são contempladas: internet, boca do caixa, assinantes e os pacotes. Assim a gente equilibra a distribuição. Com isso acabamos por estimular a cinefilia. Brincamos que a Mostra é um evento “casamenteiro”. Porque as pessoas se conhecem na fila, conversam, trocam ideias e dá até em casamento (risos). É o “footing”, que hoje em dia anda esquecido.

Nesse contexto a pirataria atrapalha bastante…

Se tem algo que vai contra tudo isso é a pirataria. É um crime a luz do dia. Acho absurdo pessoas pensantes acreditarem que é normal comprar um produto pirata. Isso vai acabar com o cinema. A maior prova é o Tropa de Elite 2. O filme não foi pirateado e está lotando as salas. Pirataria me dá ânsia de vômito. E me revolta o fato de não existir uma autoridade firme que acabe com isso. Faz mal para todos os segmentos da indústria. O produtor, o diretor, como fica? É um roubo, uma vamperização do trabalho alheio.

Já assistiu a Tropa de Elite 2?

Ainda não tive tempo, mas falei com o José Padilha e estou louco para ver.

Como avalia os fenômenos de bilheteria brasileira como, por exemplo, os filmes espíritas?

 Acho saudável. Temos que falar varias línguas para atingir o espectador. Com qualidade, é claro. Antigamente, quando diretores pensavam em fazer longas populares, realizavam de maneira ridiculamente barata e mal produzida. Isso mudou. A qualidade tem aparecido mais. Como em Dois Filhos de Francisco, por exemplo. É um filme popular e muito bem realizado.

Um problema que a cidade tem enfrentado são as salas de cinema do circuito alternativo. Muitas já fecharam e outras estão perigando. Como vê esse cenário?

Esse circuito precisa de patrocínio. É fundamental difundir a ideia de que esses lugares são pontos de encontro para a população.

Em 34 anos o que acha que melhorou ou piorou no processo de produção da Mostra?

Melhorou muito. Temos o patrocínio da Petrobrás há 10 anos. Mas existe uma reivindicação que não é só minha (da Mostra), mas de outras entidades como o Tomie Ohtake, a Pinacoteca, a Bienal e outras já consolidadas. Nós deveríamos ter uma deferência especial. E não precisar entrar todo ano com o projeto no Minc e começar da estaca zero. Falta rever isso. Até colocamos na consulta pública.

Há outros pontos que acredita ser necessário modificar?

É importante que exista o Fundo Nacional de Cultura para que a gente não dependa integralmente de diretores de marketing. Um gosta de cinema, um de teatro, outro de rock. Isso é capricho pessoal com dinheiro público? Precisamos de uma participação mais efetiva do governo.

Com isso em vista, o senhor já tem candidato à presidência?

Meu candidato é a Mostra.

MARILIA NEUSTEIN

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