‘PESSOA FELIZ NÃO MALTRATA”

Sonia Racy

29 de agosto de 2011 | 10h25

Lu Alckmin, primeira-dama do Estado, acredita estar vivendo a melhor fase da sua vida. Diz que adora fazer o bem. Só não gosta de política… e de plástica. “Meu mundo é cheio de luz”.

Logo depois de completar 60 anos – ela não esconde a idade –, Dona Lu resolveu mostrar um pouco de seu cotidiano no Fundo de Solidariedade do Estado para a coluna. “Adoro fazer o bem. Fazer o bem faz bem”. O cargo é parte do job description de primeira-dama e ela se dedica à tarefa. Recebeu a reportagem no Parque da Água Branca numa terça-feira típica de inverno e tratou logo de fazer as honras. Pelos corredores do prédio, saiu distribuindo beijos. A reportagem parou de contar no de número 150 – todos em funcionários e assistidos. “Sempre fui beijoqueira, desde criança. Por isso ganhei o apelido de Lu Doçura.”

Maria Lúcia de batismo, a primeira-dama revela que está vivendo a melhor fase da vida. E não contém o choro ao descrever o quanto é feliz. “Tenho vergonha de ser assim, tão chorona.” Volta às lágrimas ao falar da mãe, falecida, e do enorme amor que sente pelo marido, Geraldo. E outra vez quando comenta sobre as pessoas que ajuda com seus trabalhos sociais. Como o jeito à flor da pele já é conhecido, suas assessoras têm sempre lenços de papel à mão ao primeiro sinal de voz embargada.

Ao retomar o Fundo de Solidariedade, que já havia comandado entre 2001 e 2006, Dona Lu mudou projetos iniciados pela antecessora, Deuzeni Goldman, o que criou certo estresse. Mas tudo passa. Criou novos cursos e mãos à obra. Também quis se sentir um pouco mais à vontade: trouxe, de casa, uma estátua de bailarina e quadros para decorar a sala dos professores.Indagada sobre as acusações contra Eliana Tranchesi, da Daslu, de quem era amiga, a primeira-dama reage: “Ela sempre ajudou o Fundo de Solidariedade. Se deve alguma coisa, é a Justiça que vai julgar.” E a elite paulistana, é generosa? “Muito, muito generosa. Não teria feito metade do que me propus a fazer em meus cinco primeiros anos (de trabalhos sociais) sem a ajuda da elite”.

Durante a conversa, contou não resistir a uma mania antiga: rasgar páginas da Marie Claire francesa para serem usadas como moldes nas oficinas de moda – que capacitam costureiras. “Tenho de acreditar no meu peixe para poder vendê-lo”, ressalta. Com o mesmo intuito, já usou a própria camisola como exemplo em sala de aula. No fim do curso, planeja levar a leilão o resultado de tudo que for fabricado pelas mãos hábeis das alunas.

Caminhando sobre as pedras do parque com salto 12 – e sem perder jamais o equilíbrio –, Dona Lu avista pintinhos e derrete-se: “Que lindinhos!”. Criada no sítio, ela adora bichos. Especialmente… aves. A seguir, trechos da entrevista.

Nas eleições, a senhora e o governador votam nos mesmos candidatos?

Sempre converso, peço a opinião dele. Mas claro que tenho minha opinião.

O governador é vaidoso?

Eu ainda faço ginástica. Mas o Geraldo não faz nada… Acho que ele está bem porque está muito sorridente, feliz. O Geraldo ama de verdade o que faz. Adora esse trabalho.

Quando ele chega em casa desapontado, como a senhora o apoia? Ele pede conselhos?

Ele não leva trabalho para casa. A casa é o lar. Eu me preocupo em estar do lado dele, servir a comida que ele gosta, passar a mão no cabelo dele. Acho que tenho de ser companheira. Por isso respeito a individualidade e o silêncio dele. Foi minha mãe quem me ensinou: “Nenhum carvalho se ergue à sombra de outro”. Cada um precisa ter seu tempo. E as colunas do tempo se erguem separadamente.

Cristina Kirchner passou de primeira-dama a presidente da Argentina. A senhora pensa…

Nunca. Pode escrever aí assim mesmo como eu estou falando. Porque estarei sempre ao lado do Geraldo como esposa e com minha família. Posso fazer trabalho social fora da política. Sou voluntária porque amo.

O que a senhora acha sobre a mulher no poder?

Acho muito bacana, mas não é o meu perfil.

O que está achando da presidente Dilma?

Admiro muito. É uma mulher que foi escolhida pelo povo. O povo a elegeu. Então temos de respeitá-la. Eu torço pelo País.

O governador já foi apontado como um político insosso. A senhora acha isso justo?

De jeito nenhum. Eu acho ele o máximo. Para chegar onde chegou, só pode ser muito inteligente. A capacidade de trabalho e a memória do Geraldo são coisas que nunca vi. Ele não é nem um pouco insosso. É super capaz naquilo que faz. Só posso admirá-lo.

A senhora não acha que esse jeito doce às vezes confunde as pessoas?

O quê? Acharem que eu sou burra? Pode ser, pode ser, mas eu sei quem sou. Não estou preocupada com o que os outros pensam de mim.

E como está se sentindo com 60 anos de idade?

Nunca fui tão feliz. Amo meu trabalho, minha família, temos saúde. Tenho umas ruguinhas, mas pelo menos meu rosto está harmonioso. Acho que as energias boas que se dá e se recebe são importantes para manter a juventude – como ajudar o semelhante. Sempre falo: trabalho social faz muito bem.

Rituais de beleza?

Não durmo sem limpar bem o rosto. Passo sempre creme para as rugas, hidratante. Corto o cabelo uma vez por mês, porque vai rareando. Pilates três vezes por semana com personal e acupuntura. Nunca fiz plástica, não tenho essa coragem de cortar, puxar. Sou regrada na comida. Às vezes tenho vontade de comer doce… é quando testo meu lado “budista”. Pego o chocolate, abro, cheiro. E não como. Quando você controla seus desejos, fica com mais saúde mental e espiritual.

Que outros desejos a senhora tenta controlar?

Já aconteceu de estar dirigindo e gritarem: “Ô, dona Maria, vai pra casa lavar roupa”. Para não ficar com raiva, eu penso: “Essa pessoa deve ter perdido a mãe ou foi mandada embora do emprego”. Porque uma pessoa feliz não maltrata a outra. Sempre que alguém quer me atacar, fico quieta. E rezo por esse alguém. Rezo mesmo.

A senhora conversou com seu irmão, Paulo César Ribeiro, sobre os problemas levantados na merenda escolar de Pindamonhangaba?

Não falei com ele sobre esse assunto. Porque acho que não há o que conversar. Eu não sou juíza, a lei é que decide. Espero que ele não tenha feito algo questionável. Mas se ficar provado que fez, terá de pagar como qualquer outra pessoa. E o Geraldo pensa da mesma forma. Não julgo ninguém, até porque tenho um monte de defeitos.

Conta um defeito, então.

Defeito? (Risos) É que é difícil. (pensa) Ai, meu Deus… deixa eu ver… defeito?

Só não vale falar que é perfeccionista…

(risos) Mas sabe que eu sou? Sou perfeccionista. É um defeito, não é? Sei que sou e, apesar disso, eu gosto. Porque prefiro as coisas sempre muito bem arrumadas. Mas não mando ninguém fazer por mim, não. Eu mesma vou e faço.

O que gosta de fazer nos momentos de lazer?

Amo ler. Especialmente romances históricos, porque assimilo melhor datas e informações. Vejo filmes com o Geraldo. Também gostamos de caminhar. Quando conseguimos ir para o sítio, ele joga paciência. Jogamos buraco. Porque se não a vida fica sem graça.

É ciumenta?

Não, imagine. Eu saio com o Geraldo e tiro fotografia das moças abraçando ele. Vejo que elas têm uma admiração. Pode até ser que algumas tirem umas lasquinhas. Mas arranca pedaço? Eu adoro meu marido, mas ele não é minha propriedade. Sou só casada com o Geraldo. Trabalho bem com isso. Minha mãe dizia: “A árvore que não verga quebra”. Você tem de vergar, sofrer e voltar. Hoje tenho amor, companheirismo, é acima das coisas terrenas. Já são 32 anos de casamento.

Então não concorda com quem diz que o casamento é uma instituição falida?

De jeito nenhum. O casamento é super importante, é o núcleo da sociedade, não pode acabar. É do casamento que nascem os filhos. E quem forma o caráter da criança é pai e mãe. Família é insubstituível. Temos de nos esforçar e querer um mundo melhor. Porque pintamos o mundo da cor que queremos. O meu mundo, por exemplo, é cheio de luz e alegria, e eu sou muito feliz. A vida é um espelho, uma troca de energias. Como o eco. Se você fala “eu te odeio”, recebe “eu te odeio” de volta. Já se fala “eu te amo”… A vida é isso.

É religiosa?

Sou católica, rezo todos os dias. Agradeço a Deus por tudo que tenho. Aprendi os dez mandamentos de Deus e sempre procurei passá-los para meus filhos. Leio a Bíblia para a minha neta de 7 anos. Acredito em santos, mas não sou devota de nenhum. Minha conversa mesmo é com Deus.

A senhora é a favor do uso da camisinha?

Acho que se deve usar, sim. Ainda mais os jovens de hoje. E a Igreja está evoluindo nessa questão também.

É verdade que a senhora adora bichos, principalmente aves?

Verdade, sim! Tenho uma galinha de estimação no sítio, em Pindamonhangaba. Ela tem 3 anos e é tão domesticada que anda atrás da gente. Chega a me dar a patinha para pintar as unhas. E eu passo esmalte vermelho. Por isso até ganhei um quadro do Gustavo Rosa com uma galinha de unhas vermelhas. Aqui no parque, uma outra entrou pela janela do prédio e começou a botar ovos dentro de um vaso. Acho que atraio mesmo as aves (risos). E também tenho um papagaio, o Horácio, que mora no Palácio (dos Bandeirantes). Ele canta o Hino Nacional, pergunta “oi, tudo bem?” para quem passa e diz “vovóóóó” pra mim, acredita? Todo dia toma café da manhã comigo. E se eu me esqueço de dar um pedaço de pão, ele fica nervoso.

/DÉBORA BERGAMASCO

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