‘O QUE NOS MANTÉM JOVENS É A CURIOSIDADE’

‘O QUE NOS MANTÉM JOVENS É A CURIOSIDADE’

Sonia Racy

24 Abril 2011 | 23h00

Foto: Denise Andrade/AE

Irene Ravache fala do sucesso de Passione, de filme novo e da maturidade

Irene Ravache recebeu a coluna em seu apartamento, num fim de tarde da semana passada, com taça de espumante na mão. O rótulo é da vinícola Campos de Cima, orgulhosamente apresentado pela atriz como do ramo gaúcho de sua família. O ato, aliás, é simbólico. A atriz carioca ainda brinda pelo ano que lhe ofereceu uma das personagens mais populares de sua carreira, a Clô Souza e Silva da novela Passione, da TV Globo. Os críticos da APCA também endossaram seu desempenho, apontando-a como a melhor atriz de TV de 2010. “Foi, de fato, um ano incrível”, suspira, enquanto plaina pela sala de estar, minimalista como sua dona, que usa poucas joias, maquiagem discreta e salto baixo.

As férias de Irene, porém, chegaram ao fim. Ontem mesmo embarcou para o Rio para as primeiras leituras de Sala de Espera, nome provisório do próximo longa-metragem de Lúcia Murat, com que já trabalhou em Que Bom Te Ver Viva, há 22 anos. “Serei novamente seu alter ego”, antecipa. Entre muitas gargalhadas, a conversa seguiu com várias interrupções, seja para convidar um amigo, que estava pelas redondezas, para tomar uma taça, ou para dar selinho no marido, Edison Paes de Melo, cúmplice de suas intimidades há 40 anos. Aqui, trechos da entrevista.

Clô Souza e Silva foi uma das suas melhores personagens na TV?

Foi a mais popular. A Dona Lola, de Éramos Seis (1994), era uma personagem e tanto. Sol de Verão (1982) também foi um lindo trabalho, sem falar de Lorena de Eterna Magia (2007), mulher amarga, barra pesada. Com ela concorri ao Emmy. Não posso esquecer de Leonora Lammar de Sassaricando (1987), e Neide, irmã de Beto Rockfeller (1968).

Por que Clô fez sucesso?

Tem o fato de ela ter sido uma personagem mais velha, ter tido marido maduro e os dois se curtirem. Mas eu fui muito abordada por homens de 25, 30 anos que acharam legal ela cuidar dele. Essa geração tem uma individualidade exacerbada. A mulher levanta às 6h, não tem empregada, tem de deixar o filho na escola e trabalhar. Quando chega em casa, não quer saber de cuidar de ninguém. Só dela mesma.

A lenda dizia que os papéis interessantes começavam a escassear para atrizes acima dos 35 anos. Isso mudou?

Tinha essa lenda mesmo, mas as coisas andam mudando. Vemos pelas novelas, minisséries. Penso que é um somatório. A plateia e os espectadores estão ficando mais velhos, e isso não é uma coisa isolada. Acontece em todos os segmentos. O mercado está prestando atenção porque está vendo que há um nicho bom aí. Está sendo desenvolvida uma linha de bem-estar para toda essa faixa. Então não adianta só você presentear com um anel de brilhante uma pessoa perfeita ao cair da tarde. Mesmo porque essa pessoa perfeita pode não ter poder aquisitivo para adquirir esse anel de brilhante.

A senhora não acha um privilégio estar numa carreira em que pode envelhecer trabalhando?

Eu já falei que no teatro você envelhece com muito conforto, com a sua cara. Na TV a cobrança é maior. (Nesse momento, aponta para o rosto, para as sardas e as poucas rugas) A coisa mais linda que ouvi a respeito de sardas veio do meu filho mais velho, Hiran (de 45 anos. Juliano, o segundo, tem 37. Irene também tem dois netos, de 17 e 12 anos). Quando criança, ele me disse: “Mamãe, eu sou o único menino na sala que tem o rosto cheio de alegria”. Sobre a carreira, hoje sou contratada da TV Globo, mas trabalhei muito por obra, porque eu fazia mais teatro que TV. Sou produtora dos meus espetáculos, que ficavam muitos anos em cartaz. De Braços Abertos ficou quatro, Uma Relação Tão Delicada, também quatro. Hoje não posso fazer mais espetáculo com quatro anos em cartaz. Vou acabar com 70 anos! Tenho que ficar menos tempo em cartaz. (risos)

Suas férias, por enquanto, acabaram. Do que trata Sala de Espera?

O filme é a reunião de amigos que participaram da luta armada, foram chamados de terroristas e eram contra o governo militar. Presos e torturados, reúnem-se numa sala aguardando um doente. No elenco, estão Clarisse Abujamra, Pedro Paulo Rangel, Leona Cavalli e Franco Nero, marido de Vanessa Redgrave.

Esse período da história ainda não foi totalmente discutido?

Quem somos nós para dizer para essas pessoas que viveram na clandestinidade, foram presas e torturadas, o que já foi ou não discutido? Tem outro aspecto: como cidadã, sinto uma banalização de nossos posicionamentos políticos e éticos e, por tudo isso, penso que filmes como esse são necessários.

Qual seu papel àquela época?

No início dos anos 60 estava descobrindo la dolce vita e estava triste porque a princesa Soraya não podia ser mãe. Eu tinha em torno de 20 anos, cabeça de uma moça de classe média. Minha mãe tinha pavor de comunista ou que eu tivesse algum tipo de envolvimento. De repente, você é acionada por todas essas coisas, o movimento político estudantil etc. E fui fazer teatro com Oduvaldo Vianna Filho. A peça? Eles Não Usam Black-Tie (de Gianfrancesco Guarnieri). Fazíamos nos sindicatos, em cima de caminhões. O que minha mãe fez? Me levou ao médico para eu fazer um eletroencefalograma. Ela achou que havia algo estranho no comportamento da filha. Eu não me drogava, era careta, como eu queria ir para esse lado? Era ruiva, sardentinha, bem criada, como poderia fazer uma favelada no teatro?

Como chegou lá?

Fui acompanhar meu noivo. Fiquei sentadinha, e havia teste para o papel da Romana, mãe do protagonista. O Vianinha (diretor) falou que estava sem ninguém para ler, olhou para mim e perguntou se eu seria capaz. Disse que achava que sim. Fui aprovada. E assim comecei minha carreira. Só que no papel da favelada. Fiz muitos eletros depois disso! (risos) Meu pai entendeu. Ele vem de uma família ligada às artes. Ele achava bonito. Só dizia assim: “Minha filha, faça um curso de inglês para você ter uma profissão”. (risos)

O que a senhora está achando da presidente Dilma?

Tem sido uma surpresa para mim ela ser uma pessoa discreta, não que antes ela desse motivo para que eu a achasse exibida. É que nós vínhamos nos acostumando com uma política e um presidente exibicionistas, e muitas vezes imaginando que a orientação fosse mesmo populista. O que tem me agradado bastante é que ela tem procurado ser ela, sem deixar de reverenciar o passado. O Kazuo Ohno ensinava o seguinte: faça uma reverência ao que te trouxe até aqui e siga adiante. E o que sempre me deixou muito irritada nos governos anteriores é que para partirem para o novo tinham de execrar o que os levaram até ali. Nunca entendi isso. É um pensamento muito das décadas de 80 e 90, o de dizer “jogue fora, quebre”.

Para se chegar a 40 anos de casamento é preciso rever contratos periodicamente?

São vários casamentos em um só. Eu e o Edison mesmo nos casamos duas vezes: em 71 e 94. Às vezes bate uma nostalgia, tanto da minha parte quanto da dele. Há épocas que está chato, que não se quer mais, queremos folga, muitas vezes passa muito mais por uma fantasia. É um pouco assim na vida. Filho e neto são tão interessantes, você vai acompanhando o crescimento, cada dia que abrem a porta é uma cara diferente, mas tem dias que filho é um porre. Uma coisa que segura uma relação é ter os mesmos valores, a mesma ética. Às vezes eu penso: “Que sorte eu tive em me apaixonar pelo Edison! Imagina se ele fosse eleitor do Maluf? O que vou fazer com um eleitor do Maluf? Não dava para casar”. Isso já é meio caminho andado: quando você não tem que explicar porque eticamente você age desse jeito, porque o outro também age igual. Isso facilita muito a vida. Mas não tem receita para o casamento.

De perto, a senhora aparenta menos que os confessos 66 anos. Qual o segredo de amadurecer tão bem?

O que nos mantém jovens é a curiosidade e a disponibilidade.

JOÃO LUIZ VIEIRA