‘O PREVISÍVEL ESTÁ NOS NOSSOS PLANOS.O IMPREVISÍVEL NÃO TENHO COMO SABER’

‘O PREVISÍVEL ESTÁ NOS NOSSOS PLANOS.O IMPREVISÍVEL NÃO TENHO COMO SABER’

Sonia Racy

25 de dezembro de 2010 | 23h00

Maria Cláudia Amaro, presidente do conselho da TAM, diz que a empresa está preparada para a temporada de férias

Se um turista faz reserva em hotel e não cancela com certa antecedência, ele perde o depósito inicial. Se um passageiro da aviação não aparece para embarcar, o que acontece? Nada. A lei, segundo Maria Cláudia Amaro, não permite. Em almoço com a coluna, antes da ameaça de greve dos aeroviários, a presidente do Conselho da TAM reafirmou que a empresa não faz overbooking. E que está preparada para enfrentar a temporada de férias. “Tudo que é previsível está nos nossos planos. O que é imprevisível eu não tenho como saber.”

Em processo de associação com a LAN, a TAM está prestes a se tornar a mais valiosa companhia aérea das Américas e a 18ª do mundo no ranking de transporte de passageiros. O que falta? “Os advogados estão trabalhando. O que eu posso dizer é que não há nenhum dilema comercial ou entrave nas negociações. Nada. Estamos na fase da construção dos acordos, dos contratos e tudo que tem que ser feito”, diz a executiva, explicando que as fusões no setor levam em média um ano.

Não é muito tempo em comparação aos seis anos de conversas que a TAM manteve com a parceira chilena. Em sigilo. “Primeiro nos encontrávamos em São Paulo ou em Santiago. Depois, quando percebemos que iríamos avançar, mudamos. Como eles têm empresa em Buenos Aires, eu decolava com o Maurício, meu irmão, para nos reunirmos lá. Sempre em aviões diferentes”, conta. Por pouco o segredo não veio à tona. Em uma das últimas reuniões na capital argentina, deram de cara, no mesmo hotel, com uma convenção da Iata (International Air Transport Association). “O lobby estava cheio de gente do setor de aviação. Nós ficamos trancados dentro da sala. Aquele barulho louco do lado de fora, as pessoas no coffee break, e não podíamos sair. Se saíssemos, daríamos de cara com um diretor comercial da LAN, da TAM ou outros. Foi um sufoco.”

Para Maria Claudia, este processo foi importante para construção de uma relação pessoal. “No nosso caso, seria impossível casar com quem não conhecíamos. Esse é o tipo de negócio no qual os acionistas se envolvem muito”, justifica, revelando que o comandante Rolim Amaro, seu pai, foi muito amigo da família Cueto. Mas “como relacionamento não se herda”, a nova geração precisou construir seus laços de amizade e confiança.

O que têm em comum a TAM e LAN? “São empresas de origens diferentes. A LAN começou voltada para cargas e a TAM nasceu direcionada para o transporte de passageiros. Por outro lado, ambas são administradas por famílias, o que é semelhante. Considero que as empresas tem complementaridade. E as melhores fusões são aquelas onde existe essa complementaridade”. A seguir, trechos da conversa:

A prática do overbooking é comum no mundo inteiro. Como a TAM se sente quando a Anac determina que overbooking não pode ser usado durante o período des festas?

Não tem overbooking. A Anac soltou essa restrição, mas a TAM não pratica overbooking anyway. Se o aproveitamento está bom, não tem porque fazer.

O passageiro que não embarcar no voou marcado perde a passagem ou 50% do bilhete?

Não.

Quando faço reserva em um hotel, se eu não avisar com 24 horas de antecedência que não vou dormir lá, perco a diária. Por que o setor aéreo não é parecido? Não tenho certeza, mas creio que o Código Brasileiro de Aviação não permite. É lei.

Vocês conseguiram aumentar os voos neste fim de ano para atender a demanda?

Trabalhamos no limite. Deu para aumentar de acordo com o que as aeronaves conseguem voar por dia. Não dá para ampliar demais porque precisamos ter aviões reservas. Da mesma forma que temos as chuvas no Brasil, existem as nevascas no Hemisfério Norte, Pode haver um avião preso em Milão. Tudo pode acontecer. Precisamos estar preparados para as contingências. Tudo que é previsível está nos nossos planos. O que é imprevisível eu não tenho como saber.

Como seu pai era aviador e amante da aviação, você tem essa mesma paixão? Qual é sua relação com a aviação?

É paixão também. Eu não sou piloto. Nunca quis, não tenho a disciplina. Piloto precisa ser sistemático. Mas gosto muito do setor de serviços e sou apaixonada pela aviação. Combina comigo, gosto de gente.

Você é reconhecida quando está nos voos da TAM?

Os tripulantes geralmente sabem que eu estou indo. Não consigo fazer reserva escondido. E para os passageiros, eu me apresento.

Você se imagina recebendo passageiro na porta do avião?

Isso é uma coisa tão marcante do meu pai, é tão propriedade dele que pareceria imitação. Meu pai paira na TAM como uma grande inspiração. Acho impossível imitá-lo. Se houver alguma demanda em relação a isso, encontrarei um estilo próprio para recepcionar as pessoas. A forma dele era única, nem me atrevo a imitar.

Distribuir chocolate em voo?

Pode ser (risos).

Como é seu dia de trabalho?

Não tem muita rotina. Tem dia que eu começo no escritório às oito, outros às nove. Às vezes chego a só ir à tarde ou pela manhã.

Você tem que viajar muito?

Este ano nós viajamos muito. Como sou divorciada e tenho duas crianças pequenas que moram comigo, minha regra é não viajar mais de uma vez no mês. E nunca fico mais de sete dias fora.

Como você se sente, sendo mulher, liderando uma empresa desse tamanho e num setor predominantemente masculino?

Primeiro, é superlegal. (risos) Mas estamos inseridos em um mundo em que nem sempre os exemplos de liderança femininos são positivos. Mais do que ser mulher líder, é preciso demonstrar competência. O mundo ainda é eminentemente masculino, mas percebemos a ascensão feminina.

Outras empresas aéreas do mundo têm presidente mulher?

Poucas. Segundo a Iaca, sou a única que exerce o cargo de presidente do conselho. A gente tentou levantar, mas não conseguimos encontrar outro caso. É interessante quando vou em eventos: uma sala cheia de homens e eu.

O que espera da Dilma na Presidência da República?

Grandes coisas. Ela é uma mulher muito competente e muito inteligente. Espero que ela conduza o Brasil e dê exemplo para as mulheres. Acho que a mulher e as meninas brasileiras precisam de exemplos positivos de figuras femininas fortes, que sejam mais do que um corpo. Competência na liderança, é isso que eu espero.

É fácil trabalhar em aviação, ainda mais no Brasil?

As dificuldades da aviação são comuns às empresas áreas do mundo. Em alguns países mais, e em outros menos. A questão do capital intensivo se aplica a todas. A concessão é realidade na esmagadora maioria dos países. No que se refere à prestação de serviços, o Brasil leva vantagem em relação à maior parte dos países porque temos mão de obra um pouco mais fácil de lidar. No Hemisfério Norte, o poder dos sindicatos muitas vezes impõe riscos às companhias áreas, tornado algumas coisas improdutivas. Tem a questão regulatória por aqui, mas acho que também há disposição do País em se modernizar.

O marco regulatório tem dez anos e ainda não foi efetivado. Por que?

Meu pai trabalhou nisso. E ele faleceu em 2001.A regulamentação precisa ser revista porque nada que foi feito há dez anos permanece atual. Não diria que prejudica empresas. Acho que temos esse dever e a vontade do governo em melhorar o sistema da aviação, para que as coisas sejam benéficas tanto para os usuários quanto para as empresas aéreas. Não pode haver usuário satisfeito com companhia aérea infeliz e vice-versa.

Acha que pode ser votado no governo Dilma?

Estou otimista.

E os aeroportos?

Somos realistas. Não dá para imaginar que não vá acontecer nada no Brasil nos próximos anos na questão aeroportuária. Estamos aguardando e à disposição.

Há interesse em participar?

Sim, temos interesse. Talvez explorando terminais, como é feito em outros países. As empresas fazem isso nas PPPs.

Como seria isso?

A American Airlines, por exemplo, tem um terminal que é só dela. O modelo tem que estar de acordo com a realidade daquele local. Temos que ver um aeroporto da mesma forma que olhamos para uma estrada ou para um porto. Primeira coisa: ele tem que funcionar. E que atenda a todos. Os custos não podem ser exorbitantes, porque eles acabam refletindo no valor da tarifa paga pelos passageiros. Em todo mundo, os aeroportos muito grandes também estão começando a enfrentar problemas. O trafego aéreo cresce muito rápido.

O que acha da privatização dos aeroportos?

A privatização não é necessariamente a melhor opção. O modelo ideal é aquele que funciona no País, seja qual for.

Você confia que o governo escolherá o melhor modelo?

Acho que o governo brasileiro tem todo o interesse em resolver a situação. Nós temos dois grandes eventos vindo para cá e temos a realidade do dia a dia dos aeroportos, que já está ficando mais complicada. Acredito que o governo tem interesse em resolver o problema.

Há quem acuse o Brasil de ser um mercado duopólio, dividido entre a TAM e a Gol. Como você vê isso?

Primeiro, há duopólio em vários segmentos da economia. Eu acho que duopólio não é necessariamente uma coisa ruim. Desde que ele seja extremamente profissional e muito regulado. O valor das tarifas, hoje, é um dos mais baixos dos últimos anos e não é um duopólio. Há outras empresas aéreas no Brasil, sempre haverá, porque o País é tão grande que exige esse tipo de investimento.

O Brasil tem condição de continuar crescendo na aviação do jeito que está expandindo: 20% a 25% ao ano?

A TAM continuará crescendo. E o Brasil passará por uma curva de crescimento mais forte. A equação aumento de aeronaves versus crescimento de mercado é quase futurologia. É sempre assim: na hora em que o mercado aquece, não tem avião; na hora em que tem avião, não tem passageiros. Sempre foi assim. Ao longo dos anos, se você não é muito agressivo não significa que você vá acertar. Se a demanda aquece, os preços das aeronaves sobem, o que acaba influenciando nos custos da companhia. É um dilema eterno e, por enquanto, eu lhe digo que não há fórmula para resolver.

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