‘NÃO ENTRO MAIS EM SALA DE CINEMA’

‘NÃO ENTRO MAIS EM SALA DE CINEMA’

Sonia Racy

28 de novembro de 2010 | 23h00

O produtor Luiz Carlos Barreto fala sobre mercado, Oscar e seu filho Fábio, em coma há quase um ano

A indicação do filme Lula, o Filho do Brasil para representar o País na disputa pelo Oscar deu novo ânimo a Luiz Carlos Barreto, 82 anos. Não só porque a matemática do filme o desfavoreceu: R$ 16 milhões de investimento + expectativa de 20 milhões de espectadores = público de 1,1 milhão, ou seja, prejuízo. Mas também pelo “massacre” que sofreu com as críticas, segundo o próprio, por estrear o longa em ano de eleição. Além disso, Barreto também ajuda a cuidar do filho Fábio, diretor de Lula, que está em coma há quase um ano, depois de um acidente. E se por um lado cogita se aposentar, por outro não pensa em abrandar suas posturas polêmicas. Ele recebeu a coluna em seu escritório, no Rio, onde criticou duramente o papel da Ancine (Agência Nacional do Cinema) que, como ele mesmo diz, ajudou a resgatar.

Que mudanças na área cultural espera do governo Dilma?

Que o Vale-Cultura saia do papel. Só isso vai democratizar o acesso a bens culturais. Dar dinheiro para o povo ver o filme, a peça, o livro e o circo que quiser. O resto é papo. Assim como o tíquete-refeição, em que a pessoa escolhe onde e o que ela quer comer. Ninguém financia o cara para cozinhar, perfeito? Outra coisa: a repartição das receitas. Hoje produtor e exibidor racham a bilheteria. Só que os custos de lançamento são 100% da produção. Eu gasto com mídia para encher o cinema deles, que ainda vendem pipoca e cachorro-quente a preços absurdos.

Há tempos bate nessa tecla.

Mas aí é que tá. A Ancine regulou toda a produção cinematográfica, que é completamente burocratizada. Mas no setor de distribuição e exibição, minha filha, é o chamado território sem lei. Não há regulamentação como existia na década de 1960 ou permanência em cartaz de filmes que fazem sucesso, aumento da carreira do filme que faz sucesso. Foi uma série de leis de proteção dissolvidas pelo Governo Collor. Só que a agência foi criada em cima do prestígio que nós conquistamos. Fomos, então, a FHC reivindicar seu ressurgimento. Mas de uma hora para outra, se transformou num organismo absolutamente engessador da produção brasileira e desregulador da exibição e distribuição. Na porta da agência tem até banca de camelô, dá para comprar o filme que quiser.

Por que a Ancine se ocupa só com produção?

Porque ter esse dinheiro dá poder a quem estiver lá. Controlar o que vai ou não ser produzido. Até no dinheiro que sai de dentro das estatais existe intervenção. A agência forma as comissões que decidem o que deve ser filmado.

Por essa lógica, ela não ampliaria seus poderes se controlasse também a distribuição?

Ah, mas aí dá mais trabalho, né? E outra, o critério para produções não deve ser mais ideológico. Tem que criar inclusão social e não luta de classes. Eu fui do Partido Comunista, mas o marxismo já foi revisado, inclusive no Brasil. Menos na área da cultura. No primeiro mandato do Lula, filmes da LC Barreto e do Aníbal Massaini não ganhavam edital de estatais. Como se fôssemos maléficos ao cinema.

Foi contra inscrever Lula, o Filho do Brasil para o Oscar?

Fui, porém o Fábio sempre quis e o filme tem chances. Mas eu já estava cansado, foi um massacre da crítica. Mas é isso aí. Depois de escolhidos, abrimos mão da verba do Governo Federal a que teríamos direito. São R$ 150 mil para ajudar na divulgação. Quase nada. Estamos fechando os números da “operação Oscar”. Até agora, já gastamos mais de US$ 100 mil.

Lançá-lo em ano eleitoral interferiu no resultado do pleito?

Fomos burros. Devíamos ter acreditado nisso. Se tivéssemos lançado em junho, quando já havia mobilização política, o resultado comercial e político seriam maiores. No DVD, as cópias foram exibidas aos milhares nas prefeituras e sindicatos Brasil afora. É uma audiência não contabilizada. Mas foi um erro estratégico de data. Quando vimos as rendas de bilheteria do ABC, pensamos: “Gente, eles não gostam do Lula!”. Liguei para o Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo. “O que é está acontecendo, rapaz, ninguém tá indo ver o filme?” E ele: “Ô, Barreto, aqui é o seguinte: a partir de 15 de dezembro todo mundo vai para o Nordeste ou Buenos Aires. Operário aqui tá rico”.

O que tem visto no cinema?

Vou confessar: não entro mais em salas de cinema desde o acidente do Fábio, dia 19 de dezembro. Ainda não venci essa barreira. Não sei porque relacionei uma coisa com a outra. Passo pelo local do acidente, não sinto nada. Preciso ir ao psicanalista para descobrir.

E como está o Fábio?

São Paulo já está 20 anos à frente daqui em matéria de neurociência. O Rio é bom em neurocirurgia. Quero dizer, o Paulo Niemeyer, né? Sem querer ofender outros cirurgiões. Hoje, o Fábio está bem do ponto de vista clínico, sem doenças secundárias, com as funções vitais bem preservadas, respira naturalmente. Não está mais em coma profundo, mas num estado flutuante, não consegue manter a consciência. No momento, está em recuperação muscular. Ele tem que voltar a dormir de noite e ficar acordado de dia. Mas é como um bebê.

Como é a rotina dele?

Tem que ser ativado das sete da manhã às sete da noite. Os mais próximos se revezam para falar com ele, como em Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Contamos coisas do dia, ele abre o olho, atenta o olhar. Depois colocamos música. Caetano, Chico, Jimmy Cliff, todos ritmos chamados de primários. Também ligamos a TV nos jogos do Botafogo. Às vezes ele olha, mas não sei se entende. Faz fisio, fono. Na hora de dormir, só mantras.

Ele despertaria de repente?

Não. É tudo gradual.

Perdeu muito peso?

Sim, mas o aspecto dele é de quem acabou de sair da praia. Tá corado, bonito, uns 20 anos mais moço. Eu falo sempre: “Pô, Fábio, acorda logo para aproveitar que você tá bem”.

A vida da Dilma daria um filme?

Olha, é uma história extraordinária, hein? Talvez seja até mais cinematográfica do que a do Lula. Mas não somos nós que vamos fazer. Não agora.

Como cuida de sua saúde?

Até os 50 anos eu pisei na jaca. Não sou muito disciplinado no exercício. Jogo minha pelada com moderação, ando, faço reflexologia. Não faço como uns caras aí que viveram até 100 anos porque trocavam o sangue todo ano na Suíça.

Já pensou em trocar o sangue?

Ih, minha filha, isso é uma nota. Mais caro que fazer um filme.

DÉBORA BERGAMASCO

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