‘MODÉSTIA À PARTE, EU SEI RECONHECER UM CRAQUE’

Sonia Racy

17 de julho de 2011 | 23h00

Wagner Ribeiro abre a alma e antecipa: vem mais um Neymar por aí

 

Com 49 anos, 15 de profissão, Wagner Ribeiro está nas manchetes todos os dias. Apesar dos milhões que vai ganhar com a venda de Neymar, confessa que está passando pelo pior momento de sua vida: separação litigiosa em que os filhos apoiaram a mãe e não querem nem falar com ele. “É muito triste. Por isso trabalho tanto, para curar a depressão”, conta o empresário de jogadores como Neymar, do Santos, e Lucas, do São Paulo. “Meu dia precisaria ter 48 horas. Mas não tomo remédio para dormir, não, viu? Prefiro bons vinhos.”

Mineiro de Pratápolis, é bom de papo e conversou com a coluna sobre a vida de empresário, o imbróglio com Kaká e Robinho, a venda de Lucas, a parceria com a 9ine de Ronaldo e os novos “Neymares” que tem no bolso.

Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida quinta-feira da semana passada em seu escritório.

Você deve estar cansado de falar sobre o Neymar, né?

É que não há mais nada a ser dito. O Real Madrid quer pagar, o Santos não tem o que fazer a não ser receber a parte dele. A única coisa que falta é o Neymar dizer quando vai. Porque ele quer jogar o Mundial pelo Santos, em dezembro… O Barcelona fez uma proposta para ele ir em 2012. É interessante para o Santos, mas acontece que o Barcelona não tem grana… Já o Real paga agora! Enfim, tudo que podia ser dito já foi dito, as verdades e as mentiras.

Como é ter de lidar com a fama de “empresário mais odiado do Brasil”?

O maior jogador do São Paulo no ano passado era o Hernanes. E foi vendido por 9 milhões de euros… pouquíssimo! Ninguém sabe quem é o empresário dele. Se fosse eu, ia brigar muito. Futebol é emoção, a gente mexe com a paixão do torcedor. O que ninguém sabe é que, quando um jogador é vendido para um clube de fora, todo mundo concordou com aquilo: o jogador, o clube no Brasil, o clube estrangeiro e o empresário. É tudo harmonia. E todo mundo ganha muito dinheiro. Quem menos ganha é o empresário, que fica com 5% a 10%. Mas sabe que, na final da Libertadores, eu cheguei até a dar autógrafos no Pacaembu no intervalo do jogo? Tirei foto com um monte de torcedores.

Pra que time você torce?

São Paulo.

E está querendo vender o Lucas?

Olha, o pai do Lucas tá na sala aí ao lado. Está tendo uma reunião agora para tratar da venda de um percentual do Lucas a um clube da Itália. A gente pediu 6 milhões euros, os caras responderam com 4 milhões. A gente está vendo se chega em 5… Aí você me pergunta: quanto ele vale, então? Em torno de 30 milhões de euros. Mas ele não quer sair agora. E o São Paulo também não. Só vai acontecer no ano que vem.

Como é para um atacante frustrado como você ver um garoto valendo tanto?

Quis ser jogador, mas nunca desenvolvi meu futebol. Tentei no Corinthians e na Portuguesa. Amo futebol, mas nunca consegui me firmar, ser titular. Fui sempre meia-boca.

O seu primeiro negócio como empresário de jogador aconteceu quando?

Foi em 1997, com o França. Ele jogava no XV de Jaú. Eu fazia parte de um grupo de empresários que tinha como missão erguer o clube. E fiquei responsável por ele, porque eu era o único que tinha a carteirinha de agente da Fifa. Depois, comprei a parte dos outros investidores e vendi o França para o São Paulo.

Hoje em dia você cuida da carreira de quantos atletas?

Pessoalmente, 16, dentre os quais Neymar e Lucas. O meu escritório, de outros 80. Nós damos assessoria jurídica, de imprensa e em questões pessoais.

Você ganha um salário mensal para cuidar da carreira desses jogadores?

Tem muito agente nesse meio que cobra, sim, uma porcentagem sobre o salário do jogador. Eu não cobro, porque acho errado. Só ganho sobre o que faço: nas transferências e em campanhas publicitárias.

Como é a parceria que você firmou com o Ronaldo?

A 9ine cuida da imagem daqueles 16 atletas aos quais eu me referi. Mas não apenas. Por exemplo, os netos do Pelé, garotos que eu levei para o São Paulo, também estão com a 9ine.

São Paulo? Por que não Santos?

Eu não quis. Achei que seria muita pressão em cima deles.

Você teve participação na aproximação do Neymar com a Ambev, via 9ine?

Total. E também na aproximação do Neymar com o Ministério do Turismo e com uma empresa de telefonia que eu ainda não posso dizer o nome. Agora, nas participações publicitárias fechadas pelo Santos eu não tenho participação.

Quais as porcentagens?

No caso do Neymar com o Santos, 70% e 30%; no caso do Lucas, 80% ficam com ele e 20% com o São Paulo.

O que aconteceu com o Kaká e com o Robinho? Vocês eram amigos…

Ao todo, o Kaká ficou comigo seis anos. Em 2003, foi para o Milan. Fiquei lá com ele, cuidando de tudo, por mais um ano. Um belo dia o pai dele me chama em Milão e diz que vai se mudar para lá e cuidar pessoalmente da carreira do filho. Nosso contrato já não estava valendo, mas eu senti uma certa ingratidão, sabe? Porque, quando ele estava começando no São Paulo, quando ganhava R$ 750 por mês, eu cuidava das coisas dele. Eu o ajudei muito na estruturação da carreira. Por isso fiquei sentido com a forma como aconteceu. Já o Robinho é outra história. Ele é meu amigo, um filho pra mim. O que aconteceu é que eu tive um problema pessoal – aliás, estou tendo, estou passando por uma separação litigiosa e sendo extorquido pela minha ex-mulher. Tudo começou na época em que eu e o Robinho estávamos em Madri. Eu tive um desvio de caráter, pisei na bola, me envolvi com uma mulher lá. E a minha esposa ficou sabendo por intermédio da mulher do Robinho. Acabei me afastando porque não havia mais aquela… harmonia familiar, entende? Mas continuo gostando muito dele, nos falamos constantemente.

Você foi parceiro do Juan Figger, né?

Sim, é um grande mestre. Quando vendi o França para a Alemanha, ele estava comigo. Aprendi muito com ele, um homem muito correto. A pessoa mais inteligente que eu conheço. É um ídolo pra mim. Mas cada um seguiu o seu caminho.

Qual o principal desafio encarado por esses garotos que têm o dom da bola?

A necessidade de ficar rico para ajudar a mãe, o pai, o tio, avô, cachorrinho. Porque ele entra em campo com a responsabilidade de se tornar um grande jogador, com a obrigação de dar certo. E só é possível jogar bem se você entra em campo leve.

Quantos vídeos recebe por semana vendendo “craques” para a sua empresa?

Uns cem DVDs. Mas a minha equipe filtra, porque não tenho tempo de ver tudo.

Ao ver o garoto você já sabe que ele tem futuro? Já sabe para onde levá-lo?

Sim, modéstia à parte, eu reconheço o talento na meninada. Se o garoto é atacante, é rápido, levo geralmente para o Santos; se é mais parrudo, levo para o São Paulo, que gosta de meio-campistas; se é alto e forte, defensor, levo para o Corinthians. Mas não é regra. Já quando a transação é para a Europa, muda um pouco: na Alemanha, por exemplo, eles gostam de jogadores fortes, porque é um futebol de muita pegada; na Inglaterra, o jogo é mais rápido; na Espanha, mais lento e técnico; na Itália, uma junção de todos. Eu costumo dizer que o jogador que vence na Itália vence em qualquer lugar.

E como é a carreira perfeita de um jogador de futebol?

A concorrência é grande, então o garoto e a família têm de estar preparados. Eu traço um projeto, que começa na base. O garoto tem de cumprir etapas. Primeiro, precisa ser titular no time em que joga; depois, atingir a seleção na categoria (sub-13, sub-15 etc.) e disputar uma Copa São Paulo ou Copa BH; depois, subir para o time profissional e se tornar titular. A partir daí, tem de pensar em Seleção Brasileira. É aí que ele começa a ganhar dinheiro. E eu também, na hora de levá-lo para a Europa. Lá ele tem outras etapas a vencer: ser titular, claro, do clube que o contratou e está pagando uma fortuna para ele; ganhar a liga, a Champions, o Mundial Interclubes, a Copa do Mundo e se tornar o melhor do mundo. O Kaká, por exemplo, foi um dos que chegaram lá. O Neymar tem tudo para isso também.

Tem mais algum jogador como o Neymar vindo aí?

Tem, sim… Quer que te dê dois nomes? Anota aí: Wellington Bueno, que joga no Desportivo Brasil, time da Traffic em Porto Feliz. Tem 15 anos. O outro é o Gabriel, Gabi-Gol, que joga no Santos e tem 15 anos também. É um canhoto, mistura de Neymar, Ganso e Lucas. Aposto muito neles. E você está vendo que eu acertei com o Kaká, com o Robinho e com o Neymar…

/ DANIEL JAPIASSU

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