‘Minha confiança no banco é a que tenho no Brasil’

‘Minha confiança no banco é a que tenho no Brasil’

Sonia Racy

15 de março de 2010 | 08h50

Se for pela vontade de José Safra, o banco continuará na família por muitas gerações, sem associações ou venda

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José Safra ocupa privilegiado terceiro lugar entre os brasileiros na tradicional lista dos bilionários globais da revista Forbes, com fortuna estimada em US$ 10 bilhões e 64ª posição no planeta. Mas, na lista dos bilionários que não aparecem em público e muito menos concedem entrevistas, o banqueiro ocuparia um dos primeiríssimos postos.

A fortuna e o silêncio público de José Safra alimentam lendas. Muito se fala sobre ele, seus negócios e sua família, mas nada sai da boca do próprio. Fotos? Uma ou outra oficial, por razões estritamente profissionais, ou não consentidas (a desta página é uma dessas, tiradas à revelia, em evento beneficente). Entrevistas? Raríssimas, de contar nos dedos de uma das mãos.

A coluna conseguiu romper o cerco e o silêncio. “Seu” José, como Safra é chamado por todos, recebeu-a, semana passada, em seu escritório no último andar da sede do Banco Safra, o sexto maior banco privado do País, na Avenida Paulista. Peças de arte do mundo inteiro decoram o ambiente, mas uma belíssima série de gravuras do Vaticano, de Rafaello, é o que mais chama a atenção. “Sou judeu religioso, mas aceito todas as religiões”, justifica o banqueiro, que estudou, durante a Segunda Guerra, num colégio católico por dois anos, em Beirute. Onde nasceu, em 1938, e viveu até os 13 anos.

A entrevista, tirada a saca-rolha, alongou-se por três horas, completadas pela troca de e-mails e telefonemas. E na conversa Safra abusou de uma de suas marcas: a economia de palavras. Começou quase não respondendo à primeira pergunta sobre sua visão da crise internacional. “Ela vai se resolver”. E aguardou a segunda indagação. Como, o senhor vai dizer só isso? “Que mais?”, devolve Safra. Até para narrar lances de sua história de sucesso, seu ingrediente principal é a pouca conversa.

O banqueiro falou da crise global, da economia brasileira e do setor bancário, do conflito no Oriente Médio, de religião e do Corinthians, time pelo qual ele e os netos torcem, a ponto de serem frequentadores dos estádios.

Aqui vai o resultado:

Como o senhor vê o cenário internacional? O mundo não vai acabar e as finanças internacionais já estão em processo de recuperação. Não há quem negue isso. A Grécia apresentou um programa de recuperação e de saneamento da dívida pública que estão em perfeita sintonia com a Comunidade Europeia. Esse pessimismo é para quem não conhece história. A Europa vem fazendo ajustes macroeconômicos necessários e assim revertendo o quadro gerado pela crise econômica. Mas temos que ter paciência pois esse processo levará algum tempo.

O que o senhor acha da gestão Obama? Não há como não levar em conta que ele está há pouco mais de um ano na Casa Branca. As pessoas criaram expectativas gigantes, que não eram possíveis de realização. Agora, se veem frustradas justamente por isso. Obama encontrou um cenário muito difícil de crise econômica mundial.

E a regulação internacional do sistema financeiro? Ela precisa mudar? Olha, a necessidade de aprimorar a regulamentação dos sistemas financeiros internacionais é uma das principais lições que podem ser tiradas da crise. Temos que aprender bem essa lição para que muitos desses problemas não aconteçam de novo. Nós, no Brasil, felizmente, fizemos a lição de casa antes: a regulamentação brasileira além de ser eficiente, também funcionou de forma preventiva durante a crise. O sistema brasileiro é sólido e bem regulamentado e a autoridade monetária soube avaliar a extensão e os efeitos da crise, atuando na hora certa, buscando os instrumentos corretos para aquela situação.

O Brasil tem problemas com o seu aumento do déficit público? Não creio que temos um problema imediato. É claro que esta questão deve ser acompanhada e gerida com muita cautela para dar condições de ampliarmos investimentos em infra-estrutura, saúde e educação e ter uma dívida pública realmente saudável. Só assim podemos continuar a garantir um processo de crescimento sustentável.

Mas tem gente com medo desse crescimento do déficit… Em relação ao PIB, estamos bem melhores do que muitos países atingidos pela crise.

Quando o BC vai ter que subir os juros ? Quando achar necessário. O Banco Central está seguindo a boa política de metas de inflação. E está fazendo um trabalho excelente, o que se comprova em face dos indicadores macroeconômicos do país.

O que o senhor acha de o BC ter hoje um presidente com ambições políticas, como Henrique Meirelles? Elas são legítimas. O importante é que isso não interfira na sua atividade. E não está interferindo.

O senhor teve que se desfazer da sua participação na Aracruz? Eu diria que foi oportuna, uma vez que eu tinha o direito de exercício de uma excelente opção de venda. Trata-se de uma excelente empresa com um grande futuro. Nesta área de celulose, o Brasil é imbatível. Todos sabemos. Mas na vida a gente tem que fazer o que precisa ser feito. E assim nós fizemos.

O senhor sabia que a empresa havia se endividado com os agora chamados derivativos tóxicos? Não, infelizmente, não sabia.

Mas o senhor não participava do conselho de administração? O assunto não foi discutido? Eu não fazia parte do conselho de administração. E, para mim, isto é página virada.

O Banco Safra vendeu este tipo de operação? Não.

O que o senhor acha de vender este tipo de hedge? O ponto crítico desse tipo de operação é o risco imposto tanto à instituição financeira quanto ao cliente. Não recomendo para meus clientes o que não faria para mim mesmo.

Como o senhor vê o futuro do Banco Safra? Vejo nosso futuro tão sólido quanto foi o passado. Começamos nossa atividade no Brasil em 1957 e, desde então, nos caracterizamos como um banco bem controlado, ágil e conservador. Hoje estão ao meu lado meus três filhos. Acompanho o trabalho deles e estou certo de que continuarão seguindo a nossa tradição de sucesso. Fiz a sucessão e o banco está cada vez melhor e mais forte. Minha confiança no banco é do mesmo tamanho que a que tenho no Brasil, um país que me recebeu de braços abertos.

E o J. Safra, o que vai acontecer? Vai continuar sendo o que é: um braço da organização.

E sua filha? Ela fundou, há 10 anos, uma escola que tem 750 alunos e é uma excelência em matéria de ensino. Isso me dá muito orgulho.

O senhor é um dos últimos banqueiros privados do mundo. Por que esse nicho está diminuindo? Não sei se sou um dos últimos. Se for verdade que esse nicho está diminuindo, provavelmente é porque algumas instituições não souberam preparar bem a sua sucessão. Para enfrentar a competição um banco deve ter como principais características a eficiência operacional e a solidez. Para isso contamos com uma equipe de executivos profissionais e competentes que dominam o modo Safra de operar. Meu pai sempre dizia: “Se escolher navegar os mares do sistema bancário, construa seu banco como construiria seu barco: sólido para enfrentar, com segurança, qualquer tempestade.” E meu pai era um sábio.

O Banco do Brasil avança forte sobre o mercado privado. Como concorrer com um banco público? Ele cumpre seu papel e o sistema bancário privado cumpre o seu. No Brasil há espaço e oportunidade para todos.

Na eleição deste ano, o senhor é Dilma ou Serra? Seja Dilma, ou Serra, a grande vitória nas eleições deste ano será a da democracia.

Na entrada de sua sala, o senhor tem quadros que remetem ao Vaticano. O senhor aceita todas religiões? Como sou um judeu religioso é evidente que aceito e respeito todas as religiões porque todas elas pregam o bem, a tolerância e a solidariedade. A história da humanidade tem mostrado que qualquer tipo de preconceito é inadmissível.

O conflito do Oriente médio vai acabar um dia? Espero que sim e ficarei muito gratificado se eu puder testemunhar uma paz completa no Oriente Médio.

O senhor nasceu de coração duplo: é libanês e judeu. Como isso o afeta? Em primeiro lugar tenho também um coração brasileiro. Portanto, sendo judeu, libanês e brasileiro, sinto que essa pluralidade me enriquece e me fortalece.

O senhor poderia morar em qualquer parte do mundo. Por que escolheu o Brasil? A escolha foi de meu pai. Ele sofreu por causa da Segunda Guerra Mundial e, em 1948, sofreu no Líbano quando foi estabelecido o Estado de Israel. Nossa família passou por outros países e meu pai avistou no horizonte o Brasil que ele sabia que tinha um povo acolhedor, riquezas naturais e grandes oportunidades. Estou certo de que ele seguiu o melhor caminho. Tenho orgulho de ser brasileiro, junto com minha mulher, meus filhos e netos.

O senhor se sente seguro no Brasil? Em relação ao mundo, dentro do possível.

Para que time o senhor torce? Corínthians.

Costuma ir aos jogos? Vou e levo meus netos, que também são corintianos. A última vez que fiz isso foi há dois meses.

O senhor faz algum tipo de esporte? Ando na esteira e pratico natação, em dias alternados.

O senhor é conhecido por suas ações filantrópicas. O que isto representa na sua vida? Representa muito e com o meu passado não poderia ser diferente.