‘ESSA CIDADE ME FAZ VER O MAR’

‘ESSA CIDADE ME FAZ VER O MAR’

Sonia Racy

31 de outubro de 2010 | 23h00

Marina Lima, que trocou o Rio por São Paulo,fala do novo CD e faz um balanço da sua trajetória

Eleitora de Dilma porque gosta de Lula, Marina Lima não descarta votar em Serra no futuro. “Agora conheço São Paulo.” A cantora se considera hoje uma quase paulistana. Mudou-se para São Paulo depois de 50 anos no Rio, onde nasceu. Ainda não conhece os caminhos da capital paulista. Ao procurar o principal parque da cidade acabou sendo levada pelo GPS na direção de um outro Ibirapuera. Mais precisamente, o de Barretos, mas quando viu o pedágio se deu conta e voltou. O GPS da cantora hoje se volta para a orientação interna. Superou as turmas, os bandos, que a incomodavam no Rio, e se ocupa de temas essenciais como cabala, cultura e, claro, música.

Revela algo sobre sua carreira que nunca disse antes. Para se livrar do carma de ter que seguir o figurino das estrelas que vieram antes dela, como Gal Costa e Bethânia, Marina teve que “quebrar o lápis” e se reconstruir, depois de um período de depressão. “Precisei parar de alguma maneira para achar o direito de ser eu”. Produtiva, está à beira de lançar CD, DVD e show do novo trabalho chamado, não à toa, de Clímax. O anterior foi Lá Nos Primórdios, feito há quatro anos.

Instalada em Higienópolis há pouco mais de um mês, compara seu apartamento a uma casa de campo, acaba de compor uma canção chamada #SPFeelings e diz que vê ondas em São Paulo: “Essa cidade me faz ver o mar.” A cantora, que controla a alimentação há 20 anos, tenta resistir às delícias epicuristas da megalópole, mas foi flagrada recentemente no restaurante Vicapota, dividindo pizzas com amigos no domingo à noite, já como uma verdadeira paulistana.

Quando você tomou essa decisão de mudar para SP?

Venho ensaiando esse movimento desde 98. Minha mãe faleceu e pensei “não tem mais nada que me prenda no Rio, agora quero passar os próximos cinquenta anos em São Paulo”. O Tom Jobim foi para Nova York, eu sou mais simples, vim para São Paulo (risos). Para mim, São Paulo é a Nova York do Brasil.

Você se sente mais anônima em São Paulo?

Me sinto mais do meu tamanho, mais inteira. Abriu um leque de opções. O Rio é a cidade onde nasci, linda, mas parece um grande balneário. Aqui não tem praia, mas tem muita cultura, então compensa. A praia de SP é o Ibirapuera, é o Central Park daqui.

Cansou de praia?

Não gosto muito de praia, eu gosto de mar. Parei de ir porque é realmente chato. Eu sou conhecida, todo mundo te vê de biquíni. Para ir à praia eu vou fora do Rio, o que me faz falta é ver o mar. Mas São Paulo me faz ver o mar, às vezes. Com as ondas todas que as pessoas trazem é quase um mar pra mim.

E por que você escolheu Higienópolis para morar?

Primeiro, porque tenho vários amigos que moram lá. Faço cabala, Higienópolis é um bairro que tem muitos judeus, já simpatizo. As construções são maiores. Brinco com os meus amigos que encontrei uma casa no campo em São Paulo, árvores lindas, uma vegetação tropical.

Você não acha ruim estar numa cidade em que parece que a maioria está deprimida?

Geeeente, eu não estou percebendo isso ainda. Onde moro, as pessoas estão com muita pressa, mas gosto, parece aquelas fotos de Tóquio, é cidade grande. Mas não quero parecer que sou uma idiota, acabei de chegar.

E o lado ruim, a sensação de perda de referências?

Bom, teve o dia em que coloquei o GPS para Ibirapuera e não olhei direito, de repente, tinha um “Ibirapuera” em Barretos, fui seguindo e comecei a ver pedágio. Me perdi muito, entendeu? Fiquei com muito medo, quase chorei, vi a fragilidade em que estava por não conhecer a cidade.

Já está gostando de padaria?

Gosto de padaria já, por isso evito ir. Pratico restrição alimentar há mais de 20 anos. Vou tentar manter a disciplina, vamos ver.

A era das grandes estrelas Bethânia, Gal Costa, Rita Lee, Marisa Monte está de fato no fim? Todas estão muito mais low-profile, não acha?

A indústria da música toda teve um low-profile, aconteceu uma série de mudanças, gravadoras faliram, loja de disco praticamente acabou. É natural que as pessoas que fazem parte dessa história também mudem. Agora como isso afetou cada uma pessoalmente, eu não sei dizer. Comecei a pegar uma tangente disso antes, na época do disco Abrigo, em 1995.

Como assim?

Ninguém nunca me perguntou isso. É tããão profundo. Aquela época importante da minha vida o único caminho que tinha era seguir Bethânia, Gal, você citou essa linhagem, não foi à toa. A minha estrada era diferente. Precisei parar de alguma maneira para achar o direito de ser eu. Achei que não valia a pena sacrificar todo um outro plano maior que eu tinha para Marina Lima. Foi essa a quebrada de lápis. Fui para outro caminho, só que ele não foi muito claro no começo, foi complicado e tal, até que agora existe e eu posso existir

O que você acha de Mart’nália, Maria Rita, Pitty? Elas conseguem a mesma adesão de público do que Gal Costa, Bethânia, Rita Lee conseguiam?

A mesma não pode ser porque o público mudou, o mundo mudou, mas elas estão super estouradas. É uma juventude que enche casas de shows. Se eles são diferentes qualitativamente eu não sei. Agora cantora grande demora a aparecer.

O que você acha da Lady Gaga?

A Lady Gaga é uma grande mulher. Quase que uma instalação dos desejos mais loucos de todo mundo, representa um monte de gente diferente, todo mundo se vê nela. É a bruxa que todo mundo ama. Ela não é dos gays ou dos yuppies, ela é de milhões e milhões de pessoas, de diferentes facções, todas progressistas, nada careta.

E o trabalho novo?

Eu criei um repertório inédito. Chama-se Clímax. Vai sair em CD, DVD e show provavelmente no início do ano que vem. A maioria das músicas é nova. Tem pop, bossa, samba, um rock chamado Lex, que eu amo. É mais aventureiro. Não é um CD cabeça, é para levar as pessoas, para ninguém resistir.

E o ar de SP já entrou nesse novo CD? Dá pra cantar SP?

Compus uma música, quando resolvi onde ia ficar. Comecei a compor no Rio e terminei em São Paulo há duas semanas. Chama-se #SPFeelings.

Em quem você votou?

Votei na Dilma, em prol do que eu sinto pelo Lula. Agora, não é nada contra o Serra, morando em São Paulo posso até votar nele no futuro.

Como vê a forma que o aborto foi tratado nas campanhas?

Acho loucura o Brasil, a religião tem um espaço tão grande, é coisa de país subdesenvolvido. Fico com vergonha.

Está procurando um amor?

Aberta eu acho que estou. Quero bancar essa minha vontade de ter alegria de viver aqui. Estou com high expectations. Isso inclui o amor, bem estar, amigos, discussões intelectuais, debates.

Você acha que São Paulo é uma cidade mais monogâmica do que o Rio de Janeiro?

Ao contrário, (risos) no momento a sensação que eu tenho é exatamente oposta.

E a depressão?

Passou, é uma gavetinha, às vezes, vou lá dou uma olhadinha. Tive que passar por isso, entender, para estar como estou hoje. Se tivesse seguido aquele caminho que não é o meu e ser mais uma pseudocantora daquela linhagem, talvez estivesse com depressão até hoje. Romper foi uma coisa muito forte que me deu uma certa fraqueza, mas agora recuperei tudo. Minha mãe morreu faz pouco tempo, mas vinha doente e eu estava me despedindo dela há muito tempo. Foi na hora que teve que ir e sei que ela está me protegendo de algum lugar. Isso não é tristeza, é saudade, eu me sinto protegida.

Para terminar, topa fazer um teste de paulistanidade?

Como é o teste?

PB: Como chama lanterneiro em São Paulo?

ML: De oficina? Não é lanterneiro…. como é?

PB: Funileiro.

ML: Funileiro? De funil, aquele negócio que afina? (risos)

PB: Como chama bombeiro aqui, que presta serviços hidráulicos em residências?

ML: Isso eu não sei.

PB: Chama encanador.

ML: Encanadoooor ? No Rio é tudo bombeiro.

PB: E biscoito?

ML: Biscoito, gente o que acontece são outras palavras … bolacha? Mas bolacha é salgada. Por enquanto eu não precisei nem de lanterneiro, nem de bombeiro, nem de funileiro.

PB: O que é cara aqui?

ML: Meu.

PAULA BONELLI