‘ESCOLHI A MÚSICA, MAS NUNCA PENSEI NO SUCESSO’

Sonia Racy

15 de agosto de 2011 | 10h48

Comparado a Plácido Domingo, por causa da voz poderosa, o tenor paraense Atalla Ayan acaba de ser contratado pela Ópera de Stuttgart

 

Filho de um professor de História aposentado e de uma dona de casa, o paraense Atalla Ayan é homem simples, de fala suave, comedido. Nada que lembre o Rodolfo de La Bohème, papel que o levará para a Europa em setembro. A ópera de Puccini é uma das especialidades deste tenor de 25 anos que conquistou a crítica norte-americana depois de uma apresentação histórica no Central Park.

O sucesso foi tamanho que ele passa a fazer parte, em novembro, do elenco fixo da Ópera de Stuttgart. Morando em Nova York há dois anos – como estudante no Lindemann Young Artist Development Program do Metropolitan –, Atalla já foi comparado a Plácido Domingo e Mario del Monaco. Seu ícone? Pavarotti.

Por causa da agenda lotada no exterior, ele acaba de recusar um convite para o Rigoletto no Municipal de São Paulo. “Foi uma pena, porque está tão maravilhoso o teatro. Seria minha primeira vez lá”. Atalla fará cinco apresentações de La Bohème na Inglaterra e então encarnará, já na Alemanha, Alfred, n’O Morcego, de Strauss; Tamino, em A Flauta Mágica; e Ottavio, na Don Giovanni – estas últimas de Mozart. Desafios à altura de sua voz grandiosa.

A seguir, os melhores momentos da entrevista do tenor à coluna, enquanto se preparava para viver o amante de Verona na ópera Romeu e Julieta, de Gounod – sua última apresentação no Brasil, no Theatro São Pedro, em São Paulo.

A sua família é musical?

Sabe que não? Não há histórico familiar. Ninguém toca nada, ninguém canta. O que não é normal (risos). Mas gostam muito! E veja que o canto não era um sonho de infância pra mim. Eu cantava de brincadeira, para os parentes. Só com 11 anos é que passei a ouvir ópera, os tenores – principalmente Pavarotti, Plácido e Carreras, que é o que chega em Belém. E comecei a imitar, ou pelo menos tentar… Costumava cantar em casamentos. As pessoas pediam: “Ô, Atalla, canta a Ave Maria!” Sabe como é, família muito religiosa. E eu me apresentava. Em 2001, aos 15 anos, resolvi entrar no Conservatório Carlos Gomes, em Belém. Fui estudar vocalização com a Malina Minerva, uma cantora búlgara maravilhosa que me ajudou muito, embora a gente tenha passado pouco tempo juntos. Ela voltou para a Bulgária, uma perda para todos nós que amamos a música.

Ou seja, ninguém te forçou.

Não, não. A gente vê acontecer muito isso, mas, no meu caso, foi amor, mesmo. Eu falei com os meus pais e eles aceitaram na hora. Foi muito natural. O curso de canto dura seis anos, mas eu levei sete, porque parei para prestar o vestibular. Minha mãe queria que eu fizesse algo além da música. Meu pai também. Ele é professor aposentado e sempre me disse: “Meu filho, não faça só música. E também não seja professor!” (risos) É uma vida difícil… Mas eu acho muito legal o artista ter outra formação. O Carreras, por exemplo, é químico! Pavarotti formou-se professor e chegou até a dar aulas. Também adorava Educação Física…

O que é uma coisa incrível…

(risos) Verdade. Daquele tamanho, como pode, né? Embora até os anos 60 ele não fosse gordo. Enfim… Mas sempre achei que ter uma outra formação, além da musical, fosse importante, enriquecedor. Porque nunca é demais ter um “canudo”, né? Só que não consegui, infelizmente (ou felizmente, sei lá). A vida é feita de escolhas, e eu escolhi a carreira musical. Graças a Deus tenho tido boas oportunidades como tenor.

Quando você foi para os EUA pela primeira vez?

Em 2008. Fui fazer um curso no Missouri, centro-oeste americano. Meu agente, que é de lá, sempre fala pra mim: “Oh, my God, onde você foi parar?” (risos). Mas é porque a Universidade de Missouri tem um convênio com a Universidade do Estado do Pará, que, por sua vez, tem uma série de parcerias com o Conservatório Carlos Gomes. Os alunos que mais se destacam viajam pra lá. E eu ganhei uma bolsa de estudos. Na primeira oportunidade fui para Nova York, onde conheci meu agente, o Bruce Zemsky. Aliás, ele é agente sabe de quem? Do Paulo Szot! (barítono brasileiro que está fazendo muito sucesso na Broadway com o musical South Pacific). O Bruce me ouviu e gostou de mim. No meio do ano estava de volta ao Brasil. E tive a chance de fazer uma audição para o diretor da escola de Bolonha, na Itália. Acabei passando quase um ano lá, até julho de 2009.

É um grande centro musical…

Com certeza. O Teatro Comunale é uma maravilha. Aprendi muito. Mas queria mais. E assim que voltei para o Brasil fui atrás de outros cursos. Para aprimorar, né? Ter bagagem, embasamento. Foi quando surgiu a chance de retornar a Nova York, para a escola do Met, onde fiquei até maio de 2010.

Aí começaram as viagens de verdade.

Isso, sempre a partir de Nova York. Fiz parte de um tour com o Met pela Europa e pelo Japão. Mas no banco de reservas, como cover, aquele que substitui o titular se ele não puder cantar. O papel era o Arturo da Lucia (di Lammermoor, ópera de Donizetti), mas não tive chance de subir ao palco. Foi, de qualquer forma, uma experiência importante.

E como foi a estreia em Nova York?

Eu estava em casa. Bem tranquilo, porque eu sou muito tranquilo mesmo. E o Bruce me ligou. Eram umas 5h da tarde. “Olha, Atalla, é muito provável que você faça o seu début no Metropolitan amanhã”.

Que bom que você teve tempo para se preparar, né?

(risos) Pois é… quase um dia inteiro! Era o Summer Concert, um concerto ao vivo no Central Park, e o tenor que iria cantar, Dimitri Pittas, ficou muito doente. A Sarah Billinghurst, gerente do Met, estava em pânico atrás de um substituto. E tinha de ser um tenor que estivesse em Nova York… Como ela é muito amiga do Bruce, telefonou pra ele. E ele, pra mim! Eu, claro, aceitei! A sorte é que o repertório era muito parecido com o que eu estou acostumado a cantar. Só precisei trocar uma ária (do I Capuleti e i Montecchi, de Bellini), porque o Dimitri é um tenor ligeiro, a voz é um pouco mais aguda. Troquei pela Traviata, de Verdi.

Se ele fosse um tenor de outro calibre teria sido o caos.

Nossa, teríamos de mudar o programa todo. O engraçado é que eu havia passado um ano inteiro esperando para estrear… e estreei justo quando não estava esperando! (risos) Mas as coisas acontecem por algum motivo.

E como você classifica a sua estreia?

Foi muito bonito o concerto. Eu gostei. Cantei ao lado da Angela Meade (soprano) e da Jennifer Johnson Cano (mezzo-soprano). Acompanhados somente pelo piano do Bradley Moore, uma beleza. Foi uma noite muito linda de verão, fazia calor… Sabe que a crise afetou até o Met, né? Eles costumavam fazer esse concerto com orquestra, mas é muito caro. Há algum tempo optaram apenas pelo piano. Mas sabe que deu um ar mais aconchegante, mais emotivo. Eu achei…

Você esperava críticas tão boas?

Eu não esperava a repercussão, sinceramente. O crítico do The New York Times (Allan Kozinn, um dos maiores especialistas de música erudita dos EUA) foi me visitar no camarim após o espetáculo, falou coisas muito bonitas. Um homem muito educado. Fiquei muito feliz. Saíram críticas nos principais jornais, todas ótimas. Foi… um choque! (risos) Depois fizemos outra apresentação, no Brooklyn Bridge Park, um parque menor, mas muito lindo também.

Quais as próximas apresentações?

Estou indo para a Alemanha. Vou morar lá. Estou no elenco fixo da Ópera Estatal de Stuttgart. Mas antes, em setembro, passo pela Inglaterra, onde vou fazer cinco apresentações de La Bohème. Só em novembro é que assumo o cargo. E teremos de ensaiar até janeiro, quando começa a temporada.

E qual será essa primeira apresentação em Stuttgart? Você já está falando bem o alemão?

Nada… (risos) Não falo nada! Vou ter de me virar. Mas o canto ajuda, mesmo quando não se sabe o idioma. Ele mascara. Eu já cantei a Nona Sinfonia, de Beethoven, em alemão. Já cantei até em russo, a Eugene Onegin (de Tchaikovsky). Mas lá em Stuttgart vamos apresentar O Morcego (de Johann Strauss). É uma opereta divertidíssima, muito alegre. Depois montaremos A Flauta Mágica (de Mozart), mas ainda não sei quando será a estreia. Só que ambas têm muito diálogo, então será um desafio muito bom pra mim. Vou ter aulas de alemão em ritmo forte. Vai ser uma boa “roubada” (risos).

E as comparações com os grandes tenores? Isso te assusta?

Um pouco. Porque, no início, a tendência é imitar os grandes. E é muito bom imitar… no início! Depois fica complicado. Como eu posso ser um artista se imito outros? É aí que está o perigo. Quanto às comparações, elas são inevitáveis. Claro que todo cantor tem suas referências, né? E a minha maior referência – não que a minha voz seja parecida com a dele, quem me dera (risos) – é o Pavarotti. Como vocalidade, é o meu ideal de perfeição técnica. Como ator não! Era conhecido como poste cantante (risos). Uma maldade. Mas como ator eu prefiro Plácido Domingo – a elegância, o gestual, a sensibilidade.

Mas você é um cantor muito carismático em cena. Na Bohème com a Adriane Queiroz, em 2008, já demonstrava talento. Não se considera um bom ator?

Eu fui muito ajudado pela Adriane (risos). Ela é uma cantora maravilhosa e tem uma presença… Olha, eu não consigo desassociar o canto da emoção. A técnica, pra mim, é incompatível com a frieza. Então eu me doo mesmo ao personagem.

Como o tenor cuida da voz?

O melhor remédio é o sono. Dormir cedo. Só que eu sou meio coruja… (risos) O dia-a-dia de ensaios e morando em flats e hotéis me levam a dedicar algumas horas da noite a falar, via internet, com amigos e parentes. É preciso também fazer hidratação. Inalação com soro fisiológico é ótimo. E quando estou ficando resfriado, gripado, faço gargarejo com água morna e sal. Porque o sal ajuda a curar feridas. Desde Caruso que é assim. (risos) Tem coisas que não mudam. E mel, que lubrifica as cordas vocais. Além de cantar, treinar, manter a voz azeitada, fazer vocalises, exercícios de respiração.

Prefere cantar no calor de Belém ou no frio alemão?

Apesar de paraense, de ter me criado naquele calor úmido, prefiro cantar no frio! É melhor para a voz.
/DANIEL JAPIASSU

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