‘CALÍGULA NÃO É SAFADEZA’

‘CALÍGULA NÃO É SAFADEZA’

Sonia Racy

12 de dezembro de 2010 | 23h00

 Thiago Lacerda fala sobre as dificuldades de montar um espetáculo polêmico, reclama dos diretores de marketing e da dura vida de galã

Quando não está no palco na pele do imperador romano Calígula, Thiago Lacerda dirige sua fúria para combater o preconceito que diz rondar o texto de Albert Camus. Afirma que a ideia que se tem da obra foi forjada pelo filme erótico da década de 70. “Calígula não é nada disso que vocês estão pensando”, afirma. O ator entende que o texto é sobretudo político: “Não temos nenhum interesse em desviar a atenção do público com uma nudez óbvia, barata, explícita, previsível”. Thiago destila ódio contra os diretores de marketing de grandes empresas que, segundo ele, vetam patrocínios. Talvez porque a equipe de Calígula ouviu muitos nãos por causa do “caráter social duvidoso da peça”, de acordo com o galã, antes de finalmente conseguir apoio.

Sentado em uma mesa da lanchonete do Teatro Vivo, Thiago encara todo tipo de perguntas com a mesma confiança, mas nem sempre foi assim. Começou a fazer teatro para vencer a timidez, “porque queria ser gerente de banco”. Foi nadador profissional e, aos 20 anos, protagonizou uma novela da Globo, Terra Nostra. Com o sucesso rápido, veio a falta de privacidade o que o irrita até hoje. Recentemente, ele xingou um paparazzi que o perseguia na praia, o que não combina com o seu estilo ‘let it be’ de ser. De chinelo de dedo e tomando chimarrão, Thiago fez um balanço de Calígula. A peça, dirigida por Gabriel Villela e traduzida por Dib Carneiro, fica em cartaz só até o próximo domingo, depois segue para Lisboa. Pelo menos 70 mil pessoas já assistiram ao espetáculo, após duas temporadas e turnê nacional. A seguir, trechos da entrevista.

Por que você resolveu fazer esse espetáculo?

É uma peça fundamental e que não era montada há muito tempo. Há um preconceito grande em relação à obra. Existe uma ideia de Calígula forjada por um filme pornográfico do final da década de 70. Pensam que Calígula é safadeza, mas ao contrário, o texto do Camus do final da década de 30 é sobretudo político. É importante dizer para as pessoas Calígula não é nada disso que vocês estão pensando.

Por que vocês optaram por tirar a parte erótica e de depravação do espetáculo?

Acreditamos que o texto precisa ser dito. E para ser dito bastam os atores e as palavras. Não temos nenhum interesse em desviar a atenção do público com uma nudez óbvia, barata, explícita, previsível.

Quais foram as dificuldade para montar a peça?

As pessoas têm preconceito. Se você apresenta uma peça que é uma safadeza para uma empresa vão te falar ‘eu não vou associar a minha marca a uma sacanagem’. Afinal, a cultura do Brasil depende hoje da boa vontade dos diretores de marketing das grandes empresas. E eles são incapazes de ler um bom texto e ver que aquilo não é obsceno. A obrigação deles é zelar pela imagem da empresa que o paga. O paradoxo é termos que bater na porta desses profissionais.

A nudez no teatro é uma fórmula fácil?

Na maioria das vezes é. Pouquíssimos diretores fazem disso algo interessante. Em cena de nudez sempre parei de prestar atenção no que estava sendo dito para ver peitinho, bundinha. Creio que não é necessário, existem maneiras mais lúdicas para resolver uma questão do que a nudez.

Você pensou em quem para construir seu personagem? Algum político?

Muitos. Não só políticos, mas em cada um de nós, nos diretores de marketing. O Calígula representa uma força absoluta, de quem tem em mãos o poder de decisão. Calígula pode ser o Obama, o Hitler, o Lula. Alguém que veta o seu trabalho tem um poder maior ou menor de ser Calígula.

Muita gente vê a peça porque você é ator de TV. Concorda?

Concordo e acho ótimo. As pessoas vêm para ver o ator de novela, elas não encontram, vêm para ver pornografia e não veem pornografia. Surpreender o público é uma coisa que eu faço questão. E se tem alguém que vem ao teatro por minha causa que bom. Eu estou oferecendo a ela uma experiência teatral de alto nível.

Paparazzi te tira do sério?

Às vezes. É muito cafona essa gente toda que faz disso um ofício. Mas eu não tenho nada contra a imprensa marrom, a imprensa da fofoca, até porque seria inútil. É algo estabelecido. Não dá pra sair por aí esbravejando ou dando porrada em fotógrafo. É tão cafona quanto.

O assédio em cima dos atores é muito grande, como é que você escolheu ficar com uma mulher só?

Em algum momento, você precisa fazer escolhas. Decidi ter uma família, encontrei uma mulher deslumbrante e resolvi não deixá-la ir embora. A gente está casado há 10 anos. Em relação ao assédio, é natural que você projete na cabeça das pessoas fantasias, esse é o meu trabalho. O importante é você não alimentar a loucura alheia.

E tem louco atrás de você?

Acho que tem louco em tudo quanto é lugar. É preciso se preservar, se defender deles e defendê-los da gente também

O assédio chega a ser físico?

Chega. Com a televisão, o palco, a tela grande, você estabelece uma relação de intimidade profunda com as pessoas, mas é uma via de mão única. O público acha que te conhece. Toda hora tem alguém que te pega para tirar uma foto, que te puxa. É preciso colocar um freio.

As pessoas criticam muito os atores da Globo por serem padronizados, massificados. O que você acha disso?

Acho que tem bons atores na Globo. O veículo tem uma diretriz estética que coloca todo mundo dentro de uma caixa. Mas você consegue se fazer interessante mesmo dentro de uma cilada estética.

Você acha que existe preconceito contra os galãs?

Acho que sim. Somos um povo preconceituoso. Somos capazes de apontar, execrar uma figura e esquecer de olhar para o nosso próprio umbigo. Como tudo que envolve preconceito é uma grande babaquice.

Já está rico?

Não acho que esteja não. Tudo que eu tenho ainda está em jogo. O meu burro não está na sombra. Está metade na sombra, metade para fora

Qual é o seu estilo de vida?

Eu sou desencanado com tudo, até com ter estilo. Não tenho muita regra para a minha vida. É tudo muito let it be, bem let it be.

Você malha?

Estou a fim de passar por essa experiência. Estou chegado numa idade em que é preciso estabelecer uma rotina de cuidados comigo. O que eu faço é me alimentar e dormir bem. Também pratico esporte, jogo bola, ando de bicicleta, nado na praia.

Você ganhou peso?

Não. E academia não tira peso de ninguém. Ao contrário, você fica até mais pesado quando malha. É uma experiência que estou a fim de passar como tudo na vida.

Na sua opinião envelhecer é um processo difícil?

Não. Tenho orgulho das minhas rugas e vou ter também dos meus cabelos brancos. Vejo Antonio Fagundes, José Mayer, acho muuuito legal esses homens envelhecendo com inteligência, com saúde. Acho que o tempo é um grande aliado, não tenho nenhuma intenção de lutar contra. Eu vejo as pessoas que querem ser jovens, acho aquilo tudo tão triste.

O que planeja para o futuro?

Eu não planejo coisa nenhuma. Pretendo apenas ter tempo para dedicar aos meus filhos.

PAULA BONELLI

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