‘A FRAUDE É UMA GUERRA DA MENTE’

Sonia Racy

09 de janeiro de 2012 | 11h31

Alexander Stein, psicanalista americano, explica como funciona a cabeça de um golpista

Sim, as pessoas nascem com propensão para a fraude. Isso porque engano, ilusão e quebra de confiança são ferramentas básicas do golpista e também características inerentes ao ser humano. A explicação é de Alexander Stein, psicanalista e consultor da Boswell Group, agência contra fraudes, em Nova York. O pesquisador americano esteve em São Paulo no mês passado para palestra sobre A Psicologia da Fraude, em seminário organizado por advogados e promotores de justiça. Mas, como funciona a mente de um golpista? O que leva um executivo de alto escalão a cometer fraudes financeiras homéricas? Como diria Frank Abagnale Jr., um dos maiores falsários da história: “As pessoas só sabem o que você diz a elas”.

Como funciona a psicologia da fraude?

A fraude é um roubo feito por meio do engano, da esperteza e da quebra de confiança. O DNA psicológico de quem frauda é fantasticamente complexo. Um dos principais pontos a se considerar é que traição e engano são as ferramentas do fraudador. E ele não poderia usar essas armas tão magistralmente se não as conhecesse muito bem. O fraudador é governado pela crença central de que tudo o que é apresentado, imaginado ou prometido na direção de realizar seus anseios pessoais – como constância e segurança –, sempre foi baseado na falsidade. Ele é psicologicamente movido pela imprevisibilidade, contingência e falsidade. E vive num estado crônico de decepção, indignação, impotência e humilhação. Tendo como uma das consequências de viver nesta situação um excepcional e refinado sistema de radar focado nos outros. Como cresceu se esforçando para entender o que estava acontecendo ao seu redor para poder sobreviver, ele desenvolveu certas habilidades que agora servem a seu trabalho criminoso. Em particular, ele tem uma virtude incrível: consegue mapear o que as pessoas parecem precisar e querer. Ele é criativo, brilhante e focado em se aperfeiçoar.

As pessoas nascem com propensão para a fraude?

Sim. No sentido de que todo mundo é um tipo de fraudador. Mas, claro, nem todos se tornam criminosos maliciosos. Quero dizer que as formas de fraude – falsidade, desonestidade, dissimulação – são todas características inerentes aos humanos. São componentes importantes para a sobrevivência, adaptações para escapar ou derrotar as adversidades. São artifícios de autopreservação. Desde o banal, como responder um cumprimento social – quando lhe perguntam “como vai?” e você diz “tudo bem”, mesmo quando não está tudo bem – ou esconder aspectos-chave sobre você – pensamentos, sentimentos, impulsos e desejos. Tudo a fim de evitar escrutínio, punição ou humilhação. O ponto crítico é entender como mecanismos de defesas naturais se tornam armas predatórias que levam a ações criminosas.

O que leva uma pessoa de sucesso, como um diretor de banco, a se tornar fraudador?

Psicologicamente falando, a linha que separa o empreendedorismo legítimo da atitude criminosa é tênue. O empresário inovador e o fraudador se sobrepõem em muitos aspectos. Sucesso e realização profissional não são antídoto para a criminalidade, especialmente porque o ganho financeiro raramente é o principal (ou mesmo o exclusivo) motivador da fraude de alto valor. Oportunismo e ganância podem desempenhar seus papéis, mas, em geral, profissionais de alto escalão que se aproveitam de informações privilegiadas e autoridade já eram fraudadores antes de conquistarem seus cargos. E não o contrário.

Como identificar um fraudador ou um fraudador em potencial?

Essa é uma pergunta desafiadora. As melhores fraudes são deslumbrantemente brilhantes na capacidade de enganar e não deixar vestígios. Mas devemos nos lembrar de que, para o golpista exercer sua autonomia e seu poder anárquico, ele depende, nem que seja em última instância, de suas vítimas. E o que faz as pessoas se tornarem vítimas? Algumas são mais suscetíveis que outras, e os fraudadores têm sensibilidade para identificá-las. Então, ele as seduz ou pressiona até que elas se rendam a sua vontade. Não há receita para evitar totalmente os golpes (especialmente porque muitos deles são construídos em camadas, envolvendo muitos fantoches). Mas o melhor conselho é simples: faça milhões de perguntas. Informação e sondagens persistentes são inimigas da mentira.

Que tipos de rastros costumam ser deixados?

Geralmente, os vestígios são deixados nas vítimas. Elas são marcadas por verdadeiras impressões digitais psicológicas dos golpistas. Podemos traçar um sólido perfil do criminoso notando o modo como ele usa suas armas. O trabalho do fraudador pode ser compreendido mediante a recapitulação de seus traços psicológicos. A arquitetura da fraude vai espelhar sua arquitetura mental. Podemos ver, em suma, como ele, impensadamente, oferece uma transmissão clara de seu mundo interior. Esta é a amarga ironia: com seus crimes, ele anuncia, em grande escala, detalhes sobre sua personalidade – que ele passou a vida toda tentando esconder. Aí falamos de sentimentos e características verdadeiras, como fraqueza, dependência, inadequação, mostrando que ele não consegue conquistar nada que não seja por meio da enganação.

A mente de um fraudador de alto nível é diferente da de um “pequeno” criminoso?

Atos criminosos são eventos intrinsecamente psicológicos. A criminalidade é expressão comportamental das emoções internas do ator, que são destrutivas em relação aos outros. Nas fraudes, a escala e o escopo de uma operação são determinados por muitos fatores, incluindo criatividade, talento e aspirações de quem a pratica. Para alguns, enviar e-mails se fazendo passar por um príncipe deposto da Nigéria, por exemplo, é o suficiente. Outros não se contentam com nada menos que causar estragos institucionais e apropriar-se de milhões de dólares.

As empresas estão preparadas para detectar fraudes?

Frequentemente, as empresas usam especialistas para tentar identificar um possível golpista no processo de contratação. Sou extremamente cético quanto a isso. Minha experiência me diz que qualquer forma de análise de caráter e personalidade ou testes padronizados seriam inconclusivos. Isso porque o comportamento do fraudador é diferente do de, digamos, um profissional improdutivo. Provavelmente, eles saberão habilmente se mascarar e enganar os avaliadores. O mais importante é saber que fraude institucional só pode ser efetuada em conluio – com o consentimento ou não dos demais. Ele se aproveita de falhas pré-existentes ou as cria. Identifica e se aproveita de supervisões negligentes.

As leis dos EUA e da Europa são satisfatórias para ajudar na redução das fraudes?

A predisposição para cometer fraudes sérias constitui uma parte crônica e duradoura da condição humana. É improvável que ela chegue a ser completamente eliminada. Nesse tocante, programas e procedimentos antifraude representam um objetivo idealístico, inatingível. Programas contra fraudes são mais realistas. Existem formações e treinamentos que precisam ser assimilados por legislaturas, judiciários, faculdades de Direito e escritórios de advocacia, por negócios e empresas, por jornalistas e até mesmo pelo grande público. Para que cada camada da sociedade esteja mais bem preparada para diminuir o número de golpes bem sucedidos. Para projetar e implementar programas de segurança mais ágeis e sofisticados. Assim como condenar esses criminosos mais efetivamente, recuperando, assim, os valores tirados de suas vítimas.

Qual sua opinião sobre filmes que mostram grandes fraudes?

É um tema dramático. Eu me surpreendo por não haver mais filmes sobre fraudes. Mas há alguns muito interessantes, como Prenda-me Se For Capaz, O Talentoso Ripley e O Primeiro Milhão. Mas, se você desconsiderar que o filme tenha de ser explicitamente sobre fraude, temos outros que contêm importantes elementos dos golpistas, como ter uma parte da vida absolutamente escondida, ou em convulsões emocionais, como por exemplo Vestígios do Dia.

O Brasil está preparado para evitar fraudes?

Sob a perspectiva psicológica, a fraude não conhece fronteiras, ela é onipresente. Os criminosos mais experientes obtêm sucesso não apenas pela execução de seus planos, mas também por saberem procurar pelos melhores lugares e condições para suas operações. A economia brasileira, sua legislação tributária e seu ambiente sociopolítico são um molho especial que, infelizmente, torna o País atrativo para sérias fraudes.

/DÉBORA BERGAMASCO

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