‘A BUSCA DA SUPERAÇÃO É MINHA ADRENALINA DIÁRIA’

‘A BUSCA DA SUPERAÇÃO É MINHA ADRENALINA DIÁRIA’

Sonia Racy

07 de novembro de 2010 | 23h00

 

Otimista com sua participação no Mundial de Piscina Curta, Cesar Cielo fala sobre Olimpíadas, patrocínio, investimentos e um possível namoro

Cesar Cielo nem parece ter apenas 23 anos. Disciplinado, aplicado e responsável, pensa duas vezes antes de fazer qualquer coisa que possa prejudicar sua carreira de nadador. Também pudera, foi com esse estilo de bom moço – perfil sonhado por muitas mães – que conquistou, entre outras coisas, medalhas de ouro e bronze na Olimpíada de Pequim, em 2008, além dos recordes e dos campeonatos mundiais nos 50 e 100 metros livre. “Não existe mágica para o sucesso. É preciso trabalhar duro todos os dias”, afirma o atleta, que treina seis horas diárias, seis vezes por semana.

Embora ainda sinta falta dos trajes especiais, que o ajudaram a conquistar seus recordes – proibidos depois pela Federação Internacional de Natação por contribuírem na redução dos tempos –, Cielo treina duro atualmente, em São Paulo, na Reebok do Itaim, para o Mundial de Piscina Curta (25m), que acontecerá em dezembro, nos Emirados Árabes. “Como baixei bem os meus tempos em provas de piscina curta no Troféu Maria Lenk, no Rio, achei que poderia agora unificar meus títulos em piscinas de 25 e 50 metros”, conta o nadador do Flamengo.

Na composição do sucesso de Cielo existe um elemento que faz falta na vida de diversos atletas: a família. Nascido em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, ele faz questão de ir para a casa dos pais pelo menos duas vezes por mês para diminuir a sensação de solidão provocada pelos exaustivos treinos. Aliás, até a resistência em arrumar uma namorada para não tirar o foco da carreira ele começa a reconsiderar. “Se tiver alguém que compreenda que a minha prioridade ainda é o esporte, por que não tentar?” A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como andam os preparativos para o Mundial de Piscina Curta?

Essa seletiva para o mundial aconteceu muito tarde, quase no final de setembro, e acabou deixando apenas nove semanas de trabalho, o que é muito pouco. Mesmo assim, calculei os dias que eu teria para treinar e enxerguei a possibilidade de nadar bem no mundial. Resolvi pagar o preço ao invés de ficar aqui só imaginado os resultados que eu teria. O meu objetivo este ano é unificar os recordes sul-americanos nas duas piscinas (25m e 50m). E atingir a melhor marca de todos os tempos nos 100 metros livres, sem os trajes especiais.

Após a Copa do Mundo, disputada no Rio, você tirou três semanas de férias. Conseguiu descansar?

Durante esse tempo só fiquei longe da piscina. Não dá para parar totalmente. Corri, malhei…Se eu voltasse a treinar meio gordinho ou fora de forma, não conseguiria estar bem para o mundial em dezembro.

Já se readaptou a competir sem os trajes especiais que ajudaram na conquista dos recordes?

Não é fácil. Com o maiô era uma surpresa atrás da outra. Você até espera bater o recorde mundial por um ou dois décimos, mas quando chega e vê que superou a marca em meio segundo…É muita coisa. Numa competição de oito dias, usando o traje, é possível nadar melhor mesmo com o cansaço natural. Essa recuperação pós prova está pesando um pouco mais porque não tem a compressão da roupa.

Não fica cansado na busca diária da superação?

Essa é a minha grande motivação. Isso é o que me faz sair de casa todos os dias para treinar. É a minha adrenalina. Eu vou treinar para atingir a melhor forma física e ganhar de todo mundo. Preciso usar o meu tempo para me dedicar ao máximo, só assim consigo me manter no esporte.

Mudou muito a sua vida com a sua transferência do Pinheiros para o Flamengo?

Quase nada. Eu treinei alguns dias no Rio entre o Troféu José Finkel e a Copa do Mundo, mas São Paulo ainda é a minha base. Eu mudei de clube, no entanto, o meu staff se mantém. Embora trabalhe em outra equipe, o Albertinho (Alberto Silva) continua sendo meu orientador de piscina. E o treino de musculação recebo do meu técnico dos EUA. Não existe uma obrigatoriedade para que eu treine dentro do Flamengo, mesmo porque a piscina está para entrar em reforma.

Quer voltar a treinar nos EUA?

É preciso medir os prós e os contras, mas não descarto a possibilidade de voltar a treinar nos EUA. No Brasil, o conhecimento teórico do esporte é igual ou melhor ao que existe no exterior. Porém, aqui falta estrutura e um bom calendário de competições. Lá também o convívio social é mais tranquilo, pois saio e faço o que eu quiser a qualquer hora.

O assédio incomoda?

Sempre saio de casa de bom humor. Se alguém vier me pedir alguma coisa, não vou fazer cara feia. Sei que é uma atitude errada pode trazer consequências para o resto da vida. Nem por isso deixo de ir ao cinema ou jantar fora. Nesse ponto eu tenho o Gustavo Borges como modelo. Faço de tudo para deixar a melhor imagem possível.

Sua família contribui para seu equilíbrio como atleta?

Eles sempre foram muito presentes. E continuam acompanhando as minhas competições. Além desse apoio psicológico, pelo fato do meu pai ser médico e minha mãe professora de educação física, acabei aprendendo muito sobre treino, nutrição e saúde. Felizmente eu tenho a noção exata do que preciso fazer dentro e fora d’água.

Quais são suas projeções para as Olimpíadas de 2012 e 2016?

A partir de janeiro teremos apenas um ano e meio até as Olimpíadas de Londres. Será o período mais importante da minha carreira. E a expectativa é enorme, pois entre 24 e 26 anos o velocista costuma viver sua melhor fase na natação. Espero que isso se transforme em medalhas para o Brasil. Sobre o Rio em 2016, é complicado fazer qualquer projeção agora. Falta muito tempo.

Seus patrocínios lhe garantem tranquilidade no futuro?

Acho que estou fora da comunidade aquática em relação a isso. Acredito que só o Gustavo e o Xuxa tiveram o mesmo padrão de negociação. A maioria dos patrocínios da natação está entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil. Falta apoio. O marketing no Brasil poderia trabalhar melhor a imagem do atleta para poder vender mais e melhor. Para ganhar patrocínio é preciso ter resultado atrás de resultado. Mas nem isso está sendo suficiente.

Isso o preocupa em relação às Olimpíadas de 2016 no Rio?

Espero que as Olimpíadas do Rio se transformem na alavanca do esporte no Brasil. Gostaria que ocorresse aqui a mesma coisa que aconteceu na Austrália, depois dos Jogos de Sydney, onde surgiram piscinas de 50 metros a cada esquina. Além do time australiano de natação ter conquistado dinheiro e bons resultados.

Já pensou no que vai fazer depois da sua aposentadoria?

O curso de comércio exterior que fiz nos EUA me deu respaldo para gerenciar o que estou ganhando agora. Imagino um cenário tranquilo pós-natação. Atualmente sou sócio em um restaurante em São Paulo e gostaria de abrir uma empresa de gerenciamento esportivo com a minha mãe. Espero passar para as próximas gerações todo o conhecimento que acumulei desde os nove anos.

Como é hoje sua relação com Santa Bárbara?

É muito próxima. Quase todos os finais de semana estou por lá. O meu orgulho é saber que Santa Bárbara passou a ser chamada de Cidade do Nadador.

Gosta de participar e investir nas mídias sociais?

Eu tenho Twitter, mas só escrevo quando o que tenho a dizer pode levar alguém pensar. Se for para falar que acabei de escovar os dentes, prefiro não fazer nada.

Ainda acha que relacionamento afetivo atrapalha a vida do atleta?

Começo a reconsiderar essa ideia. A minha vida está muito solitária. A prioridade continua sendo o esporte. Não procuro, mas estou aberto a possibilidades.

GILBERTO DE ALMEIDA

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