PARTE 4 – DANIEL MAIA, AUTOR DA TRILHA DE ‘RABISCO – UM CACHORRO PERFEITO’ – O COMPOSITOR: AMPLIAR OS SENTIDOS

Estadão

24 de maio de 2010 | 00h53

DANIEL MAIA, entrevistado pela co-autoria da trilha de RABISCO.

Daniel Maia, autor de trilhas sonoras: pesquisas incansáveis e parceria de sucesso com Dr. Morris

Daniel Maia, autor de trilhas sonoras: pesquisas incansáveis e parceria de sucesso com Dr. Morris

QUEM É DANIEL MAIA: Mineiro de Belo Horizonte, 35 anos, Daniel Maia acaba de ganhar o Prêmio Sinparc pela trilha do balé 22 Segredos, para a Cia. de Dança do Palácio das Artes. Para crianças, em parceria com Morris Picciotto, compôs as trilhas de Rabisco – Um Cachorro Perfeito (Cia. Maracujá) e para os balés infantis Oras Bolas e 100 + nem menos (Cia. Noz).

Cena da peça 'Rabisco': espetáculo sem texto depende muito do ritmo da trilha sonora

Cena da peça 'Rabisco': espetáculo sem texto depende muito do ritmo da trilha sonora

SERVIÇO DA PEÇA: Teatro Alfa (200 lugares). Rua Bento B. de Andrade Filho, 722, telefone: 5693-4000. Sáb. e dom., 16h. R$ 24. Até 20/6.

 A ENTREVISTA:

É mais complicado fazer trilhas para peças adultas ou para as infantis? Por quê?

Daniel Maia – Pela necessidade de dinâmica, peças infantis pedem mais inserções de trilha. Em princípio, mais inserções significam mais trabalho, mas uma vez encontrado o universo de timbres e estilo, o desafio é servir à peça da forma mais criativa tentando escapar dos clichês. Por outro lado, na peça adulta leva-se mais tempo, imersão no texto e nas características da direção para se achar o caminho. No final das contas, entre desafio e trabalho, adulto e infantil acabam se equivalendo.

Muita gente diz que peça infantil sem música é um pecado mortal, pois criança precisa da ilustração dos sons para manter a atenção no enredo da peça. Você concorda?

Daniel Maia -Penso a música para a cena – seja teatro infantil ou adulto – como um componente que deva, mais do que manter a atenção do público ou dar “cama” para os atores, ampliar os sentidos da encenação. Se a peça precisa da música para manter a atenção da criança, algo está errado com o texto, direção ou atuação. Mas, sem dúvida, a música é fundamental para apoiar e fazer subir os degraus da dramaturgia, além de atuar no sensorial e emocional da plateia para além da compreensão do texto e da encenação. A tão temida (quanto comum) “infantilização” – que é subestimar a inteligência da criança – é uma armadilha que na trilha sonora surge também através da ilustração dos sons. É comum imitar ao vivo ou usar bancos de sons de cinema para sonoplastias; por exemplo, quando um personagem cai usa-se o som de um tímpano. Ao mesmo tempo em que é um código facilmente reconhecível, pode-se ampliar a imaginação da plateia e surpreendê-la usando para a mesma situação um violino tocado em pizzicato. Porém, sendo o teatro o lugar da imaginação por excelência, é mesmo necessário representar a queda do personagem através do som? Este som realmente serve à cena ou é simplesmente redundância?

Cite trilhas infantis que você considera exemplares.

Daniel Maia – Um exemplo maravilhoso são os desenhos animados antigos, cujas trilhas são todas orquestrais e criadas especialmente para eles. As trilhas do Hélio Ziskind para Cocoricó (TV Cultura) são sensacionais, com letras incríveis para qualquer idade. O Palavra Cantada também é um capricho, e as crianças adoram. Em teatro, alguns belos exemplos que posso citar são a Cia. da Revista, com A Odisseia de Arlequino; a Banda Mirim (Felizardo, Sapecado) e a Cia. Ópera na Mala (Rainha Marmota). Há muita música que nem é feita crianças, mas que elas adoram; Beatles e Beach Boys têm exemplos deliciosos, como os discos Yellow Submarine e Smiley Smile.

Quando compõe para crianças, sua inspiração vem da sua própria infância ou de onde?

Daniel Maia – Na verdade imagino o que faria surpreender as crianças de hoje, tão espertas e estimuladas. Surpreender – no sentido de apresentar timbres que elas ainda não reconheçam e que não estejam nos programas que assistem na televisão. E geralmente me inspiro no que estou ouvindo no momento da criação.

Há instrumentos musicais que caem melhor em trilhas infantis do que em adultas?

Daniel Maia – Uma das coisas maravilhosas em fazer trilha infantil é que é um lugar infinito para se inventar música. Vale rock, música eletrônica, timbres eruditos como cordas, madeiras e metais, banda de coreto, arranjos vocais, caixinha de música… realmente vale tudo, tanto com relação a estilo quanto a instrumentos. Eu me desafio a cada trabalho a não repetir os universos de timbres e estilos por onde “já estive”.

Qual trilha de sua carreira teve mais repercussão até hoje (mesmo que não seja para teatro infantil)? A que você atribui isso?

Daniel Maia – As que criei para os espetáculos sob direção de Gabriel Villela: Fausto Zero e Vestido de Noiva (pelas quais fui indicado para o Prêmio Shell), e as trilhas criadas para a Cia. de Dança Palácio das Artes: Coreografia de Cordel e Transtorna. O Gabriel (Villela) é um gênio, que leva todas as partes criativas de um espetáculo para além dos limites; sempre supero as minhas próprias expectativas com relação à criação da música quando sou dirigido por ele. Já com a Cia. de Dança Palácio das Artes, o processo de criação é por si só muito instigante, são 23 bailarinos criando simultaneamente, mais os diretores e coreógrafos. E as trilhas resultam muito intrincadas com os espetáculos, causando um impacto muito positivo no público.

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