PARTE 3 – A ATRIZ VIRGINIA BUCKOWSKI: APRENDER A LIDAR COM A MORTE

Estadão

24 de maio de 2010 | 01h06

VIRGINIA BUCKOWSKI, entrevistada como atriz de O TRAVESSEIRO

 

Virginia Buckowski (primeira à direita), com o autor Kiko Marques e a colega de elenco Alejandra Sampaio

Virginia Buckowski (primeira à esquerda), com o autor Kiko Marques e a colega de elenco Alejandra Sampaio

 

QUEM É VIRGINIA BUCKOWSKI: Natural de Porto Alegre, 33 anos, formou-se no Indac e, em 1995, ingressou no grupo Círculo dos Comediantes, de Marco Antônio Braz, atuando numa trilogia de Nelson Rodrigues. Depois fundou a Velha Companhia. Por Ay, Carmela!, recebeu o Prêmio Qualidade Brasil 2007. Além de O Travesseiro, está também em cartaz com A Alma Boa de Setsuan.

Cena da peça 'O Travesseiro': o irmãozinho morre, mas a menina Didi (centro) insiste que ele se transformou em travesseiro

Cena da peça 'O Travesseiro': o irmãozinho morre, mas a menina Didi (centro) insiste que ele se transformou em travesseiro

 

SERVIÇO DA PEÇA: Teatro Cacilda Becker (186 lugares). Rua Tito, 295, Lapa, telefone: 3864-4513. Sáb. e dom., 16h. R$ 10. Até 30/5.

 A ENTREVISTA:

Muitos atores/atrizes usam em cena um equivocado tom tatibitate quando interpretam crianças, porque pensam que atuar em teatro infantil exige fazer concessões de linguagem. O que você acha disso?

Virginia Buckowski – A peça (‘O Travesseiro’) tem mostrado que as crianças sim, entendem as convenções. Adoro criar tipos, mas esse meu trabalho atual é um drama para crianças, coisa não muito habitual no teatro infantil. Desse drama surge, em alguns momentos o patético, o engraçado, mas o pano de fundo está sempre ali, aos olhos do espectador. Procurei, através de sobrinhos, filhos de amigos e outras crianças, tirar as intenções das falas, mas sem me preocupar com a voz fininha, que na minha opinião talvez distanciasse o espectador (criança e adulto) do conceito que queríamos para esse espetáculo. É como a questão da barba, que o ator Silvio Restiffe usa. Muitos adultos reclamam por ele fazer o Celinho, que é o irmão da Didi, com barba. Mas até hoje nenhuma criança veio falar isso pra gente. Nossa preocupação era contar a trajetória da menina e de certa maneira revelando o faz de conta. Não sou criança, claro, e a Alejandra Sampaio e o Silvio fazem todos os outros personagens sem estarem completamente caracterizados e até mesmo fazendo algumas trocas aos olhos dos espectadores – e mesmo assim as crianças ficam envolvidas o tempo todo com a história.

Sua personagem, em ‘O Travesseiro’, perdeu o irmãozinho e inventa uma fantasia para (não) lidar com isso. Fale de sua experiência em lidar com a morte em cena, e numa plateia formada por crianças.

Virginia Buckowski – Minha formação artística vem do Círculo dos Comediantes, dirigido pelo Marco Antônio Braz. Foram 10 anos sem parar, fazendo Nelson Rodrigues. A morte pulsa em Nelson. Era difícil a gente pensar num infantil que fosse para a criançada só bater palminha. A gente queria um poema para crianças, e o Kiko Marques fez lindamente. Eu tenho pavor da morte, por isso me identifico com os autores, os personagens que falam de morte, que morrem em cena. De maneira catártica, canalizo esse medo na arte, tentando talvez driblá-la (risos). De certa maneira, estou agindo como a Didi. Para as crianças não tem todo esse peso. Não queríamos usar a palavra morte, na boca da Didi, simplesmente para que os pais tivessem o direito de dar vazão aos questionamentos dos filhos, ou não. A maioria das crianças não fala que o Celinho morreu. Fala que ele virou travesseiro. E aí cabe aos pais essa decisão. Mas elas sentem sim, que algum tabu existe ali. Os pequenos me deixam até constrangida, pensando o que pode estar passando dentro daquela cabecinha, tamanha atenção e arregalar dos olhos. Já tivemos pais que durante o espetáculo perguntavam aos filhos se queriam ir embora e as crianças relutavam até o fim. Isso é lindo. O tabu está nos adultos. Talvez se a gente soubesse lidar melhor com a morte como em outras civilizações, essa passagem toda fosse mais tranquila.

Você sente que o teatro infantil ainda sofre algum tipo de preconceito. Qual?

Virginia Buckowski – Sem dúvida. O preconceito de ser uma arte menor. Acho até que em função do que o público procura. A maioria dos adultos quer ver as crianças se divertindo a qualquer custo, mesmo que de maneira superficial. E o teatro infantil, em alguns casos acaba se vendendo a isso. Sinto que o teatro infantil ainda está encontrando a sua teatralidade, o seu respeito, e se diferenciando do entretenimento das festas infantis por exemplo. A própria classe artística tem preconceito do teatro infantil. Quando o Kiko escreveu o texto pra eu produzir e atuar há 10 anos, era com o intuito de eu deixar de ser garçonete, só me dedicar ao Circulo dos Comediantes, e ganhar um dinheiro com essa peça. Quando li, fiquei emocionada, mas tive um choque e disse: a gente nunca vai conseguir vender uma peça sobre a morte para crianças. Quem vai querer comprar? Engavetamos. É a primeira peça infantil da Velha Companhia, e a terceira que faço nesses 16 anos de teatro profissional. Nunca tive real necessidade de falar ao público infantil e tinha até um certo medo de ser catalogada. Essa vontade só veio com a morte da minha irmã, mais nova que eu, o que deixou meus dois sobrinhos pequenos com aquele olhar de “e agora?” Sinto que eles precisam conversar, falar sobre, e a arte é veículo prazeroso para isso. Até por isso nos cercamos de profissionais experientes em trabalhos infantis. Para que fosse reflexivo e prazeroso. A criança precisa do lúdico, da música, das cores, da festividade, até para falar de assuntos pesados. O adulto também, quando vai ao teatro, é para resgatar isso.

Na temporada de ‘O Travesseiro’, houve uma reação da plateia, curiosa, engraçada, triste, que sirva para ilustrar esse comportamento do público mirim diante do tema da morte?

Virginia Buckowski -Além dessa de os pais ficarem pedindo para o filho para irem embora, temos os casos do menino que me chamou de assassina, na cena em que os pais descobrem que eu matei o passarinho; o menino que, quando eu chego no lugar onde o poeta diz que mora Deus, falou desesperadamente: “Aí é que é o Deus? Fala papai, aí é que é o Deus?”; a menina com paralisia cerebral, que a mãe tentava levá-la em vários espetáculos e não havia jeito de ela se acalmar – a mãe nos escreveu um relato emocionado, dizendo que a filha ficou o espetáculo todo atenta e encantada; e muitos outros.

Recentemente, no teatro infantil, que atores/atrizes chamaram sua atenção pelo carisma com as crianças?

Virginia Buckowski – Gostei de Jacqueline Obrigon e Maurício de Barros em Assembleia dos Bichos; e Mariana Lima e Renato Linhares em A Mulher Que Matou os Peixes.

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