PARTE 2 – O FIGURINISTA LEO DINIZ: PAIXÃO PELA MODA

Estadão

24 de maio de 2010 | 01h18

LEO DINIZ, entrevistado pelos figurinos premiados de O POETA E AS ANDORINHAS.

Leonardo Diniz: além de figurinista já premiado, também é ator e cantor

Leonardo Diniz: além de figurinista já premiado, também é ator e cantor

QUEM É LEO DINIZ: Leonardo Diniz, de 38 anos, nasceu em Curvelo, Minas Gerais. Pelo figurino de O Poeta e as Andorinhas, ganhou os prêmios APCA e Femsa de Teatro Jovem. Como ator, esteve na trilogia de Gabriel Villela da obra teatral de Chico Buarque, entre muitos espetáculos. Como cantor, fez o show-solo Tempo e o recente musical Emoções que o Tempo não Apaga.

Cena de 'O Poeta e as Andorinhas': dá vontade de tocar nas roupas

Cena de 'O Poeta e as Andorinhas': dá vontade de tocar nas roupas

SERVIÇO DA PEÇA: Teatro Imprensa (449 lugares). Rua Jaceguai, 400, Bela Vista, 3241-4203. Sáb., 16h. Grátis. Até 26/6.

A ENTREVISTA:

Como surgiu seu interesse específico pela criação de figurinos?

Leo Diniz – Desde a infância, meu interesse pelas artes plásticas era muito evidente. Desenhar e pintar eram parte da minha rotina. Vendi meu primeiro quadro aos 12 anos para um casal de colecionadores de arte, amigos de meus pais. Me lembro de visitá-los posteriormente e ver o meu quadro ao lado de um Portinari. Era um óleo sobre tela que retratava a fachada de duas casas. E a partir daí, sempre que nos visitavam, eles compravam um novo quadro, até que comecei a expor os meus trabalhos numa feira de artes da minha cidade e nunca mais parei de criar. Já o vestuário era para mim como uma extensão das pessoas e parte do universo que eu tentava ilustrar. Tinha um grande interesse pela moda e não só por aquilo que eu mesmo poderia vir ou não a usar, mas também pelo vestuário das pessoas que me circundavam. Como era costume no interior de Minas daquela época contratar costureiras para irem em casa fazer as roupas da família, eu mesmo acabava escolhendo o tecido e criava o modelo das roupas que seriam feitas para mim. O que eu vestia tinha sempre algo que saía do óbvio. Isso me encantava muito.

Como você resume suas intenções artísticas ao transformar a história e as histórias de Oscar Wilde em peças de roupa (O Poeta e as Andorinhas)? O que quis realçar e transmitir?

Leo Diniz – Na verdade, a minha primeira intenção talvez nem pudesse ser definida necessariamente como “artística”, pois eu pretendia, antes de mais nada, estar em coerência com as aspirações do diretor. Mas eu considerava as histórias de Wilde, embora voltadas para o público infanto-juvenil, um tanto duras na sua incisiva observação das nossas imperfeições. Assim, pensei inicialmente em tentar compensar essa crueldade criando algum tipo de alento para o jovem espectador. Como o Serroni já havia adiantado que seus cenários tenderiam mais para o sombrio e para o árido, achei que os figurinos poderiam servir de oásis para alguns olhares perplexos e, possivelmente, inexperientes. Parti, como sempre acabo fazendo, em busca da combinação das cores ideais. A criação dessa harmonia é sempre o que inicialmente me move. Começo com as cores e só então parto para as formas e para a escolha dos materiais. Uma outra coisa que me ocupou bastante foi o trabalho com as texturas dos figurinos e dos adereços. Queria, através da estimulação visual, aguçar também uma percepção “tátil” na plateia. Às vezes, eu acho uma pena que a distância entre o palco tradicional e o público, principalmente o infantil, seja tão grande. E uma das maiores recompensas que tive com esse trabalho foi escutar de um espectador que ele havia passado o tempo inteiro do espetáculo com vontade de tocar os figurinos.

Quem são seus mestres na área de figurinos/estilistas e por quê?

Leo Diniz – Por coincidência (ou não!), gosto muito de duas figurinistas japonesas: Emi Wada e Eiko Ishioka. A Emi já contribuiu com algumas obras-primas para o cinema de Kurosawa e Peter Greenaway, por exemplo, e pode ser apreciada também no mais recente O Clã das Adagas Voadoras e na ópera de Tan Dun O Último Imperador. Fico pasmo com a extraordinária e precisa escolha das cores e com a riqueza das texturas que ela utiliza. Já a Eiko faz de tudo: eventos, publicidade, teatro, cinema, Cirque du Soleil, ópera… O que me fascina nela é aquela sensação de que, para a sua imaginação, não parece haver limites. No Brasil, sou um devoto do trabalho de figurinista do diretor teatral Gabriel Villela. Seus figurinos têm uma beleza – nada vulgar! – e uma singeleza tão raras que só me resta ficar comovido. Para ficar apenas com um exemplo, o seu trabalho para o recente Vestido de Noiva é digno de qualquer prêmio. O uso do plástico bolha é nada menos do que genial. E não é apenas uma questão de gerar o mero encantamento visual – como muito se vê por aí. Suas personagens trajam sempre alguma coisa que está a serviço de algo maior, de uma transcendência, a serviço do Teatro mesmo. Criar assim é para poucos. Na área da moda, as recentes e trágicas circunstâncias acabaram por me aproximar mais de Alexander McQueen. Seu trabalho seria um ótimo parâmetro para alguém que tivesse a incumbência de discernir o que é pura tendência daquilo que seria a verdadeira criação artística. Essa moda-arte ou arte-moda me fascina demais. E são muitos os gênios dessa área, principalmente da haute couture, que, ao meu ver, fazem do seu trabalho verdadeiras obras de arte. Christian Lacroix, Jean Paul Gaultier…

Ganhar um prêmio APCA e um FEMSA de melhor figurino abriu portas? Você ficou mais respeitado?

Leo Diniz – Passei a receber mais convites para a criação de figurinos, inclusive para algumas pequenas produções de cinema (o que para mim seria a concretização de um sonho). Quanto ao respeito, acho que eu mesmo passei a me respeitar mais. No ano em que recebi o prêmio, artistas dos quais sou fã absoluto também foram agraciados. E, assim, fica difícil expressar a verdadeira dimensão dessa honra.

Conte sobre pesquisas, tecidos, texturas e materiais que usou na criação das roupas de O Poeta e as Andorinhas.

Leo Diniz – O diretor do espetáculo, Paulo Ribeiro, e eu optamos por localizar a narrativa nos séculos 16, 18 e 19. Achamos que essa escolha poderia abrir as possibilidades para a criação de peças de figurino em que o rebuscamento não soasse forçado ou artifical. Isso tenderia a transportar o público para um universo cada vez mais distante do seu cotidiano e, dessa forma, deixar mais amplos os terrenos para a intervenção da fantasia. Como disse, os tecidos usados, em sua maioria, eram cheios de texturas. Além disso, usamos o bordado em algumas peças. Por se tratar de um figurino de época, a maioria dos tecidos é de tapeçaria. São figurinos quentes e pesados, que muitas vezes chegam a incomodar o ator, mas, por outro lado, acabam lhes ajudando até mesmo na composição das personagens. O cuidado em criar adereços e figurinos que tivessem uma característica realista foi muito observado. E o lado infantil, mais lúdico, ficou a cargo do uso das cores fortes. Vale a pena ressaltar a competência e o amor dedicado a esse trabalho por parte das costureiras, Dona Inês e Vera. O trabalho teatral é feito em equipe e, sem dúvida, o resultado obtido é mérito dessa equipe que trabalhou com muita dedicação e prazer. Muito do que crio é intuitivo, mas também não tenho pudores quanto à origem do material a ser pesquisado: desde a internet até visitas a museus, de livros clássicos a publicações vagabundas, tudo é sempre bem-vindo. O que importa mesmo é no que isso tudo pode ajudar, o que essas informações e imagens nos trazem.

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