Papo (mais ou menos) rápido com Henrique Sitchin

Estadão

16 de março de 2010 | 11h21

Henrique Sitchin/ Foto Divulgação Cia. Truks

Henrique Sitchin/ Foto Divulgação Cia. Truks

Segue na Funarte, em São Paulo, a programação dos 20 anos da Cia. Truks de Animação. Fiz cinco perguntas para o “pai” da companhia, o premiado Henrique Sitchin. Ele respondeu muito bem, com respostas bem longas, mas vale a pena usar um tempinho de vocês lendo tudo e aprendendo com este talento dos nossos palcos.

E para prestigiar a mostra dos 20 anos da Truks, que vai até o 25 de abril, aqui vai o serviço deste próximo fim de semana. A peça será a deliciosa e emocionante Vovô, sábado (dia 20) e domingo (dia 21), às 16 horas, com ingressos grátis, na Sala Guiomar Novaes, Funarte São Paulo (Alameda Nothmann, 1.058, Campos Elíseios), tel. (11) 3662-5177.  Para saber mais, acesse o site da cia: www.truks.com.br
Agora, com a palavra, Henrique Sitchin.

1.     Teatro de animação também pode falar de coisas tristes?

Henrique Sitchin: Sim, com certeza! Pode e deve! Coisas tristes são partes da vida de cada um de nós e também das crianças. Acho que, na verdade, NÃO falar das coisas tristes, apontando apenas o que é “feliz”, ou “bom”, é que é cruel para os pequenos! Porque somos todos feitos desta dualidade – o bom e o ruim, o quente e o frio, positivo e negativo, luz e sombra, alegria e tristeza! A tristeza faz parte da vida. Aliás, é fundamental para a vida. A dor serve para nos salvar, não é mesmo? Pois senão, correríamos o risco de morrermos queimados em um dia de frio em que considerássemos mais apropriado pular em uma fogueira para esquentar o corpo… Além da inevitabilidade da dor, temos também, como componente de nossas vidas, a angústia! A angústia faz parte de cada um de nós, e igualmente é capaz de nos salvar. Se ficamos muito angustiados com um problema, é aí que vamos em busca de resolvê-lo, e é para vencer a dor da angústia, uma dor aguda, que vamos colocar as energias corretas em ações concretas que, por fim, nos farão melhores… Muitas das ações mais contundentes e importantes de nossas vidas fazemos para vencer a angústia… Então, negar para as crianças a dor e a angústia é que é cruel, é mostrar um mundo de “mentirinha”. É enganar os pequenos e, assim, desrespeitá-los. Pois então, tantas e tantas vezes as crianças têm vontade de chorar e não lhes dão esse direito porque, afinal, chorar não é “bonitinho”. Estar triste com alguma coisa não é “fofo”… E criança serve para estar fofa o tempo todo, ou criança precisa ser respeitada como indivíduo, ser humano composto pela mesma dualidade que nos completa a nós, os adultos? Então acho que o teatro pode e deve falar TAMBÉM do que é triste!

 O teatro de animação, especificamente, pode explorar ainda mais esta possibilidade, na medida em que substitui o ator de carne e osso, na cena, pela matéria que ganha vida. Fazer um ator morrer em uma cena teatral é exercício dificílimo, bem sabemos. Porque cada um de nós sabe muito bem que a vida continua no corpo do ator (morto somente em cena). Com o boneco é diferente: Ele é composto por matéria sem vida. Ganha a vida para estar na cena, e pode ter esta vida retirada de seu âmago a qualquer momento. Então acho que o teatro de animação pode, por exemplo, fazer cenas belíssimas de morte (parte da vida, não é?). A cena da morte de Mozart, em “Mozart Moments”, do Grupo Sobrevento, é uma das cenas de morte mais densas e completas que vi no teatro. Acho que em nosso espetáculo “Vovô” (da Cia Truks), também trabalhamos com muita poesia a realidade da morte, de forma a tocar fortemente as crianças. Entendendo a morte, elas são capazes de valorizar ainda mais a vida. Conhecer a dor e a angústia, através do teatro, pode ajudar, e muito, as crianças a entenderem e conviverem melhor com suas próprias dores e angústias! Não somente, tanto em CIDADE AZUL quanto em O SENHOR DOS SONHOS, montagens da Truks, apresentamos situações tristes, no primeiro a realidade de uma criança de rua, e no segundo um menino angustiado pela sensação de inadequação. As crianças da plateia se afeiçoam muito a estes personagens de forma que, no momento em que eles sentem dor emocional, as crianças sentem junto, e assim experimentam uma sensação das que creio ser uma das maiores necessidades destes nossos tempos: a cumplicidade que leva a solidariedade. Isso pode ser transformador…

2.     Manipuladores de bonecos também são artistas da interpretação, mas ainda hoje há estigmas e dificuldades em considerá-los como atores?

 Henrique Sitchin: Sim! Mais uma vez a resposta é “com certeza”! Como premissa para esta resposta vou usar um primeiro conceito importante de ser entendido: O teatro de animação é teatro! Ponto! Apenas que se utiliza de outros instrumentos – os bonecos, os objetos animados ou as formas animadas. No teatro de atores, como costumamos chamar, o ator de carne e osso utiliza-se de recursos do seu corpo para construir o personagem. No teatro de animação, o ator animador, ou manipulador, se utiliza do objeto intermediário, que está entre ele e a plateia, para fazer isso. No entanto, a qualidade que ambos terão que ter para fazer bem este ofício é a mesma. Eu costumo dizer que os bonecos precisam poder atuar tão bem quanto os melhores atores de carne e osso! Porque ora, se são personagens de um espetáculo, precisam atuar bem, não é mesmo? Ou seja, a energia atoral, a técnica, a emoção e todo e qualquer outro conceito relativo a uma boa interpretação, ou vivência em palco, é necessário tanto ao ator de carne e osso quanto ao boneco que cumpre um papel na trama. Pois então, como fazer para que o boneco possa ser bom em cena? Ora essa, precisamos, podem acreditar, de excelentes atores para fazer isto! Excelentes animadores que serão capazes de “preencher o boneco” com esta qualidade para a cena! E isso não é nada fácil!

 Eu arrisco dizer que administrar a energia atoral em nosso corpo de carne e osso, e assim construir um personagem, pode ser um exercício até mesmo menos árduo do que fazer isto em um boneco. Porque as ações humanas nos são conhecidas e até mesmo automáticas. Ninguém pensa como vai fazer para sentar, ninguém analisa a melhor maneira de fazer um aceno, porque o corpo humano responde automaticamente a alguns estímulos. Com os bonecos isto não existe. Eles não são parte do nosso corpo. São elementos externos. Então tudo precisa ser previamente estudado, até mesmo um simples sentar, ou acenar. Os ensaios da Cia Truks começam por um estudo detalhadíssimo de repertórios específicos de movimentos. Como o boneco senta, como acena, como faz cada coisa. E depois repetimos tudo mil vezes, usando intenções teatrais distintas: faz os mesmos gestos com alegria, tristeza, ansiedade, etc etc. Não é ainda o exercício de ensaio que o ator faz já pensando no personagem. É um exercício prévio. É preciso aprender a transportar cada gesto para os bonecos, e isso é um exercício muito difícil. Às vezes ouço colegas contarem que montaram um espetáculo em “longos 2 meses”! E puxa vida, morro de inveja… Nunca consegui montar um espetáculo em menos de 5 meses…

 Depois do treinamento técnico, o ator animador deverá ser capaz também de preencher o boneco com a intenção toda do personagem. Vai ter que aliar técnica (aplicada ao exercício da animação) com emoção de forma muito equilibrada. Ou seja, precisa ser um bom artista, um bom ator! Não somente, há um dado a mais no teatro de animação, vamos dizer, contemporâneo. O ator animador está cada vez mais presente na cena, junto com os seus bonecos. Há algumas décadas era estranho ver atores bonequeiros aparecerem ao público. Hoje a maioria das obras usa também o ator humano na cena. Então que não há como negar esta presença humana na cena, e muitas vezes este ator cumpre mais papéis, que vão além do exercício da animação. Então, além de doar a vida com qualidade para o personagem que não está em seu corpo, ele muitas vezes poderá também estar na cena, com o seu corpo, ou seja, dividindo-se entre estas funções: a animação do boneco e a atuação enquanto mais um personagem. Ufa! Não é nada fácil! E esta tem sido uma das minhas lutas nos últimos tempos: formar atores com esta capacidade também, de se dividir na cena. Acho que em ZÔO-ILÓGICO conseguimos, eu e Cláudio Saltini, algo notável, ao podermos ser personagens fortes, com uma relação humana forte, ao tempo em que animávamos os nossos bonecos também…. E bom… com certeza nem sempre este exercício tão árduo tem o reconhecimento que merece. Já tive atores na própria Cia Truks que, ao se despedir do grupo após alguns anos de trabalho, me diziam que queriam agora ter formação de ator. Eu costumava tentar convencê-los de que certamente estavam em um lugar apropriado para isto… O ator manipulador ainda é visto como um ator menor, infelizmente…


3. Qual peça nos 20 anos de carreira da companhia fez mais sucesso de público? E de crítica?

Acho que a peça que fez mais sucesso de público foi O SENHOR DOS SONHOS. Apresentamos este espetáculo desde 1999, e muito! Já são mais de 1400 sessões realizadas. As crianças se identificam muito com o Lucas, o menino protagonista da trama. TRUKS: A BRUXINHA também foi muito apresentada e procurada entre 1991 e 1998. CIDADE AZUL e VOVÔ também fazemos muito muito. Mas acho que O SENHOR DOS SONHOS superou as demais em procura pelo público.

 De crítica, a mais bem aceita foi certamente CIDADE AZUL, que inclusive ganhou muitos prêmios. ZÔO-ILÓGICO também teve críticas muito boas e VOVÔ a mais bela de todas as críticas, escritas por um jornalista nota dez, o DIB CARNEIRO NETO! (risos). Foi uma matéria muito especial, que nos emocionou profundamente. A mais bela e sensível crítica já feita a algum de nossos trabalhos.

 

4. Qual delas você mais gosta de fazer e por quê?

Henrique Sitchin: A minha peça preferida é VOVÔ. É o espetáculo da Cia Truks de que mais gosto, até porque conta a história do meu avô, uma figura muito especial. Uma espécie de homem justo… Um homem bom, que exercia, entre outros, o papel de “pacificador” na família. Um contador de histórias, um desses vovôs simpáticos e queridos, de quem tenho especiais saudades. Então me emociono muito cada vez!

Agora no que diz respeito a atuar, o que mais gosto é do ZÔO-ILÓGICO. É um trabalho muito lúdico, muito divertido. Comecei com o Cláudio Saltini, que foi um verdadeiro mestre em cena, um grande e talentosíssimo companheiro de trabalho que me ensinou muito sobre a atuação. Infelizmente não pudemos seguir juntos, por questões de encaminhamento diferente das nossas vidas. Mas estamos preparando algumas apresentações especiais, em que estaremos juntos em cena de novo, tanto em ZÔO-ILÓGICO quanto em INZÔONIA, que também fizemos juntos, e que hoje integra o repertório do grupo Circo de Bonecos.

 O especialíssimo é que hoje faço ZÔO-ILÓGICO com… com… O MEU FILHO! O GABRIEL, hoje com 20 anos! É uma grande alegria, uma honra estar ao lado de um filho em cena. E olha que o menino é bom, viu? Um incrível companheiro de cena! Me dá especial alegria e prazer estar atuando neste trabalho com meu filho.

 

5. Conte uma reação de adulto e uma reação de criança que marcaram você nas duas décadas da sua companhia.

 Henrique Sitchin: Puxa vida… Houve muitas! Vou contar brevemente algumas, pela dificuldade em eleger uma única, ok?

 Certa vez fazíamos uma apresentação de TRUKS: A BRUXINHA em uma praça pública de um bairro de periferia, e um homem muitíssimo bêbado assistia a apresentação. Durante a montagem do cenário ele já estava ali, e até mesmo sendo agressivo conosco. Ao começar a apresentação, no entanto, ele se sentou como uma criança para assistir ao espetáculo. No momento em que o “Monstrão” rouba a varinha da Bruxinha, ele se levanta chorando e implora ao “bicho”, porém muito gentilmente, que devolva a varinha da Bruxinha. Aquilo foi muito inusitado. Ele se abraçou ao bonecão, chorando, aos prantos, pedindo que não fizesse aquilo com a boneca…

 Em CIDADE AZUL houve uma professora que, ao terminar o espetáculo que era apresentado no pátio de uma escola, pediu aos alunos que ficassem sentados, pois queria falar algumas palavras. Foi então que, igualmente aos prantos, começou a dizer aos alunos que todos eles precisavam começar a agir, e que o problema das crianças de rua precisava acabar e que a guerra havia começado por aquela escola, após assistir ao espetáculo. Aquilo foi muito tocante.

 Com Vovô fico sempre tocado quando netos de japoneses, árabes, italianos, espanhóis, alemães, vêm me falar que contei as histórias de seus avós imigrantes. Eu achava que estava contando uma história só minha, mas percebi que ela é uma história de todos nós que temos imigrantes na família. No dia da estréia de Vovô veio um japonês muito emocionado me abraçar, pois eu havia contado a história do seu avô. Fiquei surpreso e tocado.

Das crianças são igualmente muitas as histórias. Houve o caso de um casal que trazia o seu menininho que, viemos saber depois, tinha mal completados 2 aninhos, TODOS os dias, para assistir ao espetáculo O SENHOR DOS SONHOS! Todos os sábados e domingos durante dois meses inteiros de temporada! Na terceira ou quarta semana fomos perguntar a eles o que os fazia voltar sempre. “Nosso menino pede”, nos respondem os pais. “Aliás, ele poderia bater um papinho com o Lucas? – me pediram. Ele sempre sai daqui pedindo isso e não sabemos se pode”. O menino então foi conversar com o Lucas e começa a contar tuuuuuuuudo, frenética e ansiosamente. Daqui um tempinho os pais se olham, atônitos, e um diz ao outro: “Meu bem, você sabia disso que ele está contando?”. A esposa responde: “Não, não… isso ele não me contou!” Enfim, o garotinho vinha ao teatro conversar com o Lucas e contava a ele segredos proibidos até mesmo para os seus pais…

Têm dezenas de crianças que vêm dar beijos nos bonecos após as apresentações. Em OS VIZINHOS, recente trabalho da Cia., houve o caso de um menino que veio brigar com o reizinho, após o espetáculo, dizendo que não era para fazer guerra, pois senão ele (o menino) ia ficar muuuuuito bravo!. Em E SE AS HISTÓRIAS FOSSEM DIFERENTES peço às crianças que me digam como é o personagem que imaginam e então eu o desenho, seguindo as instruções dadas, em uma cartolina, e este desenho é projetado em um telão. O menino na plateia diz assim: “A cabeça dele é ao contrário, e os cabelos são de fogo. Quero ver agora o que você vai fazer, tio!” (risos). Bom, desenhei cabelos bem arrepiados, bem bem laranjas, e disse: “Estão pegando fogo!”  O menino rebate, de pronto: “Sai de perto! Você vai se queimar!”

E tem uma historinha maravilhosa, bem recente, que relaciono ao meu trabalho, por falar de bonecos. Meu filho Caíque, outro dia, com dois aninhos de vida, me pede para brincar com um fantoche de pano que temos aqui em casa. É o jacaré. O jacaré conversa com o Caíque e, conversa vai conversa vem, lá pelas tantas diz assim: “Caíque, vou te mordeeeeeeeeeeeeer”. O caíque, invocado, arranca o fantoche da minha mão. Olha para o boneco de pano que tirou da minha mão e o joga de lado. Aí então olha fixamente para a minha mão e dispara: “Jacarééééé! Você ficou pelado!!!”.

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