OS INFANTIS NO FESTIVAL DE RIO PRETO

Estadão

26 de julho de 2010 | 19h17

 

Terminou no sábado o Festival Internacional de Teatro de Rio Preto. Coube a mim, por convite do Sesc, escrever os seis textos de apresentação dos seis espetáculos infantis que foram exibidos por lá.

Reproduzo-os aqui pra vocês terem uma ideia do panorama diversificado que a curadoria selecionou. São seis ótimas peças. Veja, abaixo, meus comentários sobre cada uma:

 

A LENDA DO PRÍNCIPE QUE TINHA ROSTO

Prepare-se para uma experiência fascinante. Um grupo carioca, Cia. de Teatro Artesanal, criado em 1995 e sempre com a preocupação de inovar na linguagem cênica, apresenta A Lenda do Príncipe Que Tinha Rosto, que estreou no Rio em 2009 e vem se apresentando com muito sucesso por muitas cidades e festivais do País.

O grupo já fez adaptações de clássicos da literatura universal, sempre para o público infanto-juvenil, como Viagem ao Centro da Terra, de Julio Verne; Cyrano de Berinjela, baseado em Cyrano de Bergerac, de Edmund Rostand, e Pequenas Histórias do Mundo, que reuniu vários contos populares. Também tem no repertório o espetáculo ecológico O Futuro do Meu Jardim, que procura despertar as crianças para a consciência ambiental.

Aqui, com A Lenda do Príncipe…, criou-se uma dramaturgia própria. O autor e co-diretor Gustavo Bicalho fez um caminho inusitado e inverso: primeiro teve a ideia da estética do espetáculo, depois chamou o grupo para fazerem juntos uma peça que se adequasse a esse visual. Ele viu fotografias de pessoas com rostos cobertos por máscaras pretas e parecendo figuras medievais. Surgiram assim os personagens sem rosto deste reino diferente que você vai conhecer no palco. 

É uma peça sem diálogos. Os atores não falam. Mas o grupo adora estimular o público mirim com técnicas narrativas variadas, por isso o tempo todo há um narrador contando a história, muita coreografia, animação de bonecos, um telão de cinema e uma trilha sonora com peças de ninguém menos do que Prokofiev (sobretudo da obra Romeu e Julieta).

Valores como amizade e tolerância fazem a base da história, mas não pense em nada chato e didático. É um encanto de conto de fadas que desfila diante do público, com uma iluminação primorosa e uma ambientação bela de tão sinistra. Um passeio entre o gótico e o surreal, como gosta de explicar esse talentoso grupo de atores/manipuladores do Rio de Janeiro.

Num lugar distante, “onde o mar acaba e encontra a terra dos sonhos”, o herdeiro do reino do povo sem rosto surpreendentemente nasce com olhos, nariz, boca, orelhas. O rei decide prendê-lo com uma velha ama no alto de uma torre. Descubra o restante, mergulhando sem limites nesta bela fantasia para todas as idades.

A MULHER QUE MATOU OS PEIXES E OUTROS BICHOS 

Se você não sabe, prepare-se para uma deliciosa descoberta: a grande escritora brasileira Clarice Lispector, de renome internacional, também escreveu livros para as crianças. Este espetáculo que vem do Rio de Janeiro e também já fez uma bem-sucedida carreira em São Paulo, foi idealizado pela atriz Mariana Lima, que você conhece da televisão, de novelas como O Rei do Gado e seriados como Filhos do Carnaval, e também do cinema, em filmes como Árido Movie, de Lírio Ferreira, e Olga, de Jaime Monjardim. Ela também já reverenciou Clarice em um monólogo para adultos no teatro, A Paixão Segundo G.H.

Aqui, em A Mulher Que Matou os Peixes…, o público mirim se encanta com tanto alto-astral em cena. A diretora Cristina Moura instaurou um tal clima de brincadeiras que é contagiante, do primeiro ao último minuto. Os personagens brincam de tudo: de dançar, de apostar corrida, de adivinhações, de imitações, até de dormir e, sobretudo, de contar histórias. E não pense que fica um ranço retrô de quintal de antigamente, não. É uma linguagem moderna, com DJs, guitarras, bateria, telões, uma iluminação impactante, cenografia pop, figurinos coloridos e vídeos bem criativos.

A adaptação dos contos infantis de Clarice Lispector, com dramaturgia assinada por Isabel Muniz (com contribuições do elenco e referências espertas a Walt Disney e Lewis Carroll), é de uma delicadeza emocionante, principalmente quando os bichos da história morrem. Falar de morte para crianças sempre foi um tabu. Aqui, o tema flui sem pieguices nem grosserias, de forma cuidadosa. Tudo isso sem abandonar trechos literais dos livros de Clarice, ou seja, numa reverência à grande autora que não prejudica a modernidade do espetáculo.

A montagem é encenada de uma maneira não linear, em que aos poucos a narradora tenta explicar e pedir desculpas por ter matado os peixes do aquário de sua casa. Ela quer muito que a plateia a perdoe por esse terrível descuido. Misturadas a essa primeira trama, há outras histórias de seus bichos, como cachorros e até uma macaca. E, assim, a narradora também relembra sua infância. O trio de atores – Mariana Lima, Renato Linhares e Luciana Fróes – dá conta do recado com muita propriedade, frescor e cara de novidade. Não caem na linguagem tatibitate. Você vai ver como é bom.

 

DIÁRIO MALASSOMBRADO

Brincar de sentir medo. É isso que encantadoramente desfila por nossos olhos assim que começa a música sinistra e desponta a luz no foco dos atores Marcia Fernandes e Cleber Laguna, da Cia. de Teatro Mevitevendo. O grupo criado em 1998 no Rio Grande do Sul, onde a dupla se formou em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Santa Maria, nos traz agora esse corajoso Diário Malassombrado.

O público se encanta com as variadas formas de teatro de animação que a dupla talentosamente pratica: bonecos, máscaras, objetos. Essas formas animadas contracenam com os atores de um jeito não menos do que harmonioso e um expressivo poder de comunicação. A tarimba da Cia., que já participou de muitos festivais de teatro no Brasil e no Exterior (Espanha), garante momentos de intrigante mistério, intercalados a um humor ingênuo de tocar o coração.

Realidade e fantasia misturam-se com desenvoltura narrativa, em várias cenas curtas e bastante dinâmicas. O jogo teatral se estabelece com facilidade e fisga as crianças desde o início.  

Um diário encantado sai de dentro de uma mala. Eis que uma velha senhora – uma bruxa ou a avó da gente? – nos conta histórias “de pequenos espantos, coisas misteriosas, de um mundo fabuloso”. E nos alerta: “Não são para quem é medroso…”

Os personagens podem ser desde um gracioso passarinho até uma caveira dançarina, vestindo saia de tule vermelho. De uma rata fantasma que come a lua como se come um pedaço de queijo até uma grande bruxa furiosa, que acaba encantada pelas estripulias de uma simples libélula. Como se vê, nem tão feios nem tão malvados. Nem tão belos nem tão bondosos. Ou dito de outra forma: Nem todo bonito é bom, nem todo feio é terrível.

Caso não a conheça (ela já passou antes por São José do Rio Preto), você vai adorar conhecer a Cia. Mevitevendo, que tem como mote de trabalho artístico a necessidade constante de renovar sua dramaturgia e suas formas de encenação. Para isso, está sempre em processo de pesquisas teóricas e práticas. Constate com as crianças ao ‘folhear’ no palco este Diário Malassombrado.   

 

100 + NEM MENOS 

É impossível não concordar que a dança, como forma de expressão artística, é uma das mais completas e eficientes linguagens cênicas que a humanidade conhece. Por que, então, não estimular as crianças a mergulhar nesta completude que é o mistério de uma coreografia? Quanto mais cedo o público seja capaz de entender e decifrar um espetáculo de dança, mais preparado estará ele para mergulhar – ao longo de sua vida – em todas as outras formas de arte no palco: teatro, ópera, circo, animação, shows, performances.

Pensando assim, a Cia. Noz de Teatro, Dança e Animação, radicada em São Paulo, e dirigida por Anie Welter, decidiu criar espetáculos que pudessem ser freqüentados por gente miúda, a partir de 1 ano de idade. Primeiro nasceu Oras Bolas , em 2005, e, no ano passado, surgiu este delicioso 100 + Nem Menos. Ambos sem palavras, ambos apoiados no estímulo visual. Ambos foram sucesso de público e crítica em suas temporadas paulistanas.

E não pense que essa aparente proposta de simplicidade resulta num trabalho fácil e preguiçoso. De forma alguma. O uso de canos coloridos, por exemplo, é de uma sofisticação que chega a nos comover: ora eles formam uma complexa estrutura de DNA, com movimentos psicodélicos, ora ganham um movimento coreográfico que culmina na reprodução de um quadro de Paul Klee. A criança precisa saber dessas referências? Não necessariamente. A melhor arte é a que não se explica, é a que surpreende e pronto.   

Há cenas de luz negra, brincadeiras de cabo de guerra e de pular corda, peixes que surgem de formas inusitadas, barracas que andam, resgate de canções populares (Um dois, feijão com arroz…) e até um estímulo sutil ao pensamento abstrato, na cena lúdica dos numerais

 Trata-se de uma proposta muito inteligente e ousada, que nem por isso deixa de divertir todas as faixas etárias. Repare no delicado desenho de luz, a cargo da premiada iluminadora Marisa Bentivegna. Repare também, e sobretudo, na importância da trilha sonora, neste espetáculo que não tem texto. Assinada por Daniel Maia e Dr. Morris, a música foi pré-indicada ao importante Prêmio Femsa de Teatro Infantil e Jovem. Neste mesmo prêmio, a peça concorreu na categoria especial “pela criação de espetáculos lúdicos e coreográficos para crianças”. Puro deleite.   

O CIRCO DOS OBJETOS

A modalidade de teatro de animação chamada de teatro de objetos ganha cada vez mais adeptos – e o que é melhor, talentos – no Brasil. Um deles surgiu em Bauru, no interior de São Paulo, em 2004: a Cia. Mariza Basso Teatro de Formas Animadas, que nos traz agora o espetáculo O Circo dos Objetos, integrante do repertório do grupo desde sua criação.

A companhia já trabalhou em parceria com grupos como Quasar de Dança, criando a cena Circo (As Bailarinas), para o espetáculo coreográfico O+, em 2004, e com os argentinos, radicados em São Paulo, da trupe Teatro de La Plaza, na peça adulta A Trágica História do Dr. Fausto, em 2008.

Agora, respeitável público, com vocês… O Circo dos Objetos. Espanadores, vassouras, pentes, baldes, bolas… tudo isso ganha vida pela mão dos animadores e, assim, as cenas encantadoras vão desfilando para a plateia. Repare como o grupo se preocupa em usar predominantemente as cores primárias, como forma de “iniciação artística” das crianças menores. Repare também como é delicada a relação entre o manipulador e o objeto-personagem, criando uma cumplicidade que chega a ser poética.

O grupo não modifica em nada o objeto original, nem em cores nem em formas. Tudo é mantido como está. A vida, a graça, o movimento, a articulação – tudo surge ‘apenas’ com a manipulação criativa desse objeto. Junta-se um balde e um snorkel e nasce o apresentador do espetáculo. De um penico e um tapete desponta o palhaço do circo. A equilibrista nada mais é do que o espanador com uma roldana. Dos nós de um tecido se faz o contorcionista. E assim por diante.

Concebido por Mariza Basso, que o dirigiu juntamente com Ulisses Sena, O Circo dos Objetos é uma fonte inesgotável de encantamento. O auxílio da trilha sonora é fundamental para criar o clima circense e transportar nossa memória de volta aos picadeiros. O grupo gosta de ressaltar o quanto se trata de um espetáculo ritualístico, no sentido de que se cumpre com afinco um roteiro bem organizado e técnico de teatro de animação. O importante é que, juntamente com esse ritual, há também espaço para o frio na barriga, o momento inesperado, a surpresa que arrebata, a emoção imprevisível. Prepare-se que a alegria vai começar. Entram em cena o tigre amestrado, o atirador de facas, o Globo da Morte e, claro, a bailarina clássica. E mais, muito mais. Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor.

FELIZARDO

Uma alegria esfuziante vai tomar conta de você, a partir da experiência deliciosa de assistir ao musical infantil Felizardo, da Banda Mirim, com dramaturgia de Marcelo Romagnoli. O trabalho ganhou dois dos principais prêmios de teatro para crianças em São Paulo: o APCA de melhor espetáculo e o Femsa de melhor trilha sonora. A banda é formada por dez integrantes, entre atores, músicos, cantores e artistas circenses.

Duas crianças (uma menina e um menino, interpretados magnificamente por Claudia Missura e Rubi) descobrem o mundo de um jeito livre, alegre, contagiante. É como se trocassem durante um tempo a segurança de “dentro de casa” pela aventura da descoberta do quintal, da natureza, das nossas raízes, do nosso folclore. É um tempo “felizardo”, um passeio pelos caminhos da infância mais assumida e feliz. É o mundo se descortinando por meio da linguagem lúdica e musical.

Vamos fugir do banho? Vamos brincar de acordar as minhocas? Vamos pintar a onça? Brincadeiras não faltam. Molecagens – talvez seja o termo melhor. Pega pega, Pipa, perna de pau, boneca de pano, argola de circo, malabares, “laço de fita para enfeitar abraço”, como diz a letra de uma das canções, que também anuncia: “Hoje eu acordei me sentindo tão feliz!” Tudo isso está em cena.

A poesia é fundamental em toda a peça. É um elo, uma linguagem de integração entre música, circo, teatro, tanto para entreter crianças com seus ritos de passagem, como para enredar os adultos com suas memórias afetivas. Pura harmonia. E, se você ainda não teve essa experiência de vê-los em ação, vai se encantar com a música ao vivo da Banda Mirim. Tem rock, forró, reggae, tem lira, tem contrabaixo, tem sanfona, tem flauta, tem uma percussão contagiante.  As canções, simples e bem humoradas, foram criadas por Tata Fernandes, algumas em parceria com Zeca Baleiro e Nô Stopa. Como os integrantes do grupo gostam de explicar, “há uma história onde não existe tempo nem idade e que é contada pelas imagens, pelos sons e por situações, nunca por diálogos longos ou cenas dramáticas”. Diversão garantida.

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