O tabu da morte em 2009

Estadão

05 de abril de 2010 | 22h52

E já que é tempo de premiar os melhores deo 2009 (veja o post anterior sobre a festa da APCA), relembro para vocês o texto que publiquei no fim do ano passado, no Caderno 2, com uma espécie de comentário crítico sobre o setor de teatro infanto-juvenil em São Paulo, em 2009.

“Foi um ano ousado, ao menos tematicamente, para o teatro infantil. Um tabu na história da dramaturgia para crianças, a morte subiu aos palcos no horário vespertino, sem medo de chocar, de traumatizar ou de aborrecer a garotada. Nunca o tema foi tão abertamente explorado em peças infantis como em 2009. E, o que é melhor de tudo, foram espetáculos bons, bem escritos e produzidos, sensíveis, claros e criativos. Sem apelações nem pieguismos.

O Travesseiro, do grupo Velha Companhia, com texto e direção de Kiko Marques, foi um desses momentos corajosos do ano. Sabe daquele jeito que nos sentimos quando descobrimos que nunca mais vamos ver alguém de quem gostamos muito? Pois aconteceu com a personagem Didi (muito bem interpretada por Virgínia Buckowski), que, de um dia para o outro, fica sem o irmãozinho e decide que ele se transformou num travesseiro. Os adultos passam a ter de lidar com isso e, bem, como padecem… Pais, psicólogos, professores ­– ninguém sabe direito como lidar com a situação.

Com O Armário Mágico, que marcou a estréia na dramaturgia para crianças da autora Paula Autran Ribeiro, a Cia. O Grito, dirigida por Roberto Moretho, pôs em cena uma menina careca, que perdeu os cabelos por causa de um sério tratamento médico. Até que conhece um garoto que também é diferente das outras crianças.

O premiado Vladimir Capella também não ficou de fora desse tema forte. Com a espetacular montagem de O Colecionador de Crepúsculos, que reuniu um elenco numeroso de grandes talentos, ele homenageou Câmara Cascudo, sem poupar a plateia mirim de seus contos mais duros e cruéis de tradição oral. Basta repetir apenas uma frase do espetáculo, dita por uma velha personagem: “O amor não escolhe a quem ferir.”

Textos que sugerem a morte e, sobretudo, falam de todos os tipos de medo (sombras, escuros, barulhos, vozes) também foram selecionados pela Cia. Meninas do Conto, dirigida pela primeira vez por uma convidada especial, Cristiane Paoli Quito, no excelente Buuu! A Casa do Bichão. O medo do desconhecido e de enfrentar a vida foi explorado com delicadeza exemplar. O mesmo se deu com as já veteranas As Graças, que montaram este ano Tem, Mas Acabou, que discutia e brincava com o ciclo de vida e morte, o começo e o fim, o ‘ter de acabar’, amparado em histórias do livro Contos de Enganar a Morte, de Ricardo Azevedo.

Histórias da Chuva – Gênese, do autor e diretor Milton Morales Filho, completou a lista de espetáculos infantis de temática ousada em 2009, mostrando até onde vai a fantasia de uma criança em uma noite chuvosa de muito sonho, com direito a vultos desfilando pela janela. Adultos que aprendam a lidar com seus medos e preconceitos, pois as crianças, se depender dessa safra recente de espetáculos, já estão bem resolvidas sentadinhas na plateia do teatro infantil.”

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