O CÃOZINHO MAIS “CONTEMPORÂNEO” DO TEATRO INFANTIL

Estadão

02 de maio de 2010 | 21h31

Uma crítica ao espetáculo infantil Rabisco – Um Cachorro Perfeito, concebido e dirigido por Sidnei Caria

          Em 2008, Sidnei Caria ganhou os prêmios APCA de melhor ator e  Femsa de melhor direção por As Aventuras de Bambolina, peça sem palavras baseada em livro do autor italiano, radicado no Brasil, Michele Iacocca. A parceria feliz prossegue agora com Rabisco – Um Cachorro Perfeito, em cartaz na Sala B do Teatro Alfa – mais uma incursão de Caria pelo universo eloquente dos livros sem texto de Iacocca (editora Ática).

          É, sem exagero, o espetáculo infantil mais contemporâneo em cartaz atualmente, no que diz respeito à inovação de linguagem, ao uso de múltiplos recursos cênicos e audiovisuais. Não, não fuja, se você é purista e sente arrepios cada vez que ouve falar de uma peça de teatro cheia de invencionices tecnológicas. Rabisco é um espetáculo que sabe tirar o melhor proveito da tecnologia, sem ser grosseiro ou estrambótico, sem deixar de ser teatro, sem deixar de ser poético e de emocionar.

          Com esta peça, Sidnei Caria, também no palco como ator, juntou a sua companhia de pesquisas cênicas, a Maracujá Laboratório de Artes, que existe há seis anos, com a veterana e premiada Pia Fraus, já com 26 anos de atividades. Inspirando-se nos trabalhos do grupo holandês Hotel Modern, ele traz para nós a projeção de videocenários e os chamados puppet toys. No palco, uma maquete detalhadíssima de uma cidade é filmada o tempo todo, com objetos que se movem, personagens andando pelas ruas, tudo manipulado pelos atores, enquanto outro integrante do grupo percorre tudo com minicâmeras de vídeo e, assim, o resultado é projetado num enorme telão. Crianças e adultos ficam vidrados nesta ideia de “confecção ao vivo de um filme-teatro”, por assim dizer. É uma técnica que já fez parte do mais recente espetáculo adulto da Pia Fraus (Primeiras Rosas, em 2009, no Sesi) e que a Cia. Maracujá também já usou nas performances musicais da banda Dr. Morris e os Vivos.

          Toda essa aparente parafernália poderia facilmente roubar a atenção do público e seu interesse pela história, pela dramaturgia, pelo enredo. Mas aí é que entra a competência do grupo e, sobretudo da direção e concepção de Caria. A magia teatral flui com talento e ritmo, graças à força poética da história escolhida e à criatividade na mescla de linguagens: há momentos de teatro-filmado, outros de filme-teatro (!), outros só de teatro, outros só da mais fascinante animação de objetos, de teatro de sombras, de teatro físico, de interação com as crianças da plateia e, claro, outros que misturam tudo isso. É uma experiência muito dinâmica para o público. Pais não conseguem ficar sem comentar detalhes com os filhos durante o espetáculo, e vice-versa, o que, neste caso, é perfeitamente saudável. É um “outro” espetáculo, inovador, multilinguagens? Pois que seja “outra” também a plateia e rompa as barreiras do conceito tradicional de espectador.

          Essa verdadeira celebração criativa para crianças e adultos começa já no saguão do teatro, no caso, a ante-sala do Alfa B. Ali, as crianças são aguardadas pelos atores com pranchetas espalhadas literalmente pelo chão. Todos são convidados a pegar papel e lápis e rabiscar um cachorro. Esses momentos são fotografados e, bem, há uma surpresa no final.

          Ainda antes de o espetáculo começar, o grupo conversa com a plateia, sem tom professoral e por um período curto (sem a chance de virar aulinha maçante), sobre as diferenças e semelhanças entre cinema e teatro, as formas de se fazer teatro (ao ar livre na Grécia, o palco italiano, o teatro de bonecos) e sobre o que significa a palavra contemporâneo. É uma boa sacada, pois ao longo do espetáculo o público entende por que se faz essa brincadeira inicial de destrinchar a palavra comprida e complicada: é que o espetáculo é assim, contemporâneo, do nosso tempo. Nessa pertinente introdução, Caria lança mão até de uma caixa de papelão e uma lanterna e mostra para a plateia como é possível criar em casa um “brinquedo animado”, um palco de teatro de sombras.

          E eis que as cortinas se abrem e… um telão de cinema está a postos, escancarando para todos que, de forma alguma, será uma peça convencional. Cinema ao vivo? Sim, por que não? Quando o cachorro Rabisco salta do papel e começa a circular pelo palco, pronto!, a magia está definitivamente instaurada. Os olhos das crianças ficam vidrados no truque teatral. O “desenho” do cachorro consegue se mexer pelo palco graças a um simples carrinho de controle remoto que lhe serve de base. Puro encantamento, capaz de mexer, inclusive, com o saudosismo dos pais.

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          É importante registrar também: já que é uma peça sem palavras e feita com registros audiovisuais criados ao vivo, em tempo real, nada disso funcionaria se não fosse… a trilha sonora. A música caminha de mãos dadas com o espetáculo. Os atores-manipuladores agem de acordo com o que pede a trilha. Por exemplo: eles têm de mover os carros no trânsito da cidade conforme os sons barulhentos da trilha (buzinas, sirenes) vão surgindo, e assim por diante, em todas as cenas. Tudo é casado com música. E o resultado é nota dez, de uma eficiência exemplar, trazendo a assinatura de dois craques das trilhas para teatro: Daniel Maia e Dr. Morris. Nos momentos em que não há “cinema ao vivo”, eles brincam com temas como os de Scott Joplin para o filme Golpe de Mestre (The Sting) e até mesmo a conhecida Marcha Turca, de Mozart, sempre com arranjos modernos e renovados.

          Na trama visual criada pelo livro de Michele Iacocca, Rabisco é um cãozinho feio, feito de papel, rejeitado pelo menino que o desenhou. Ele então foge do papel, em aventuras pela cidade, enfrentando cães mais ferozes, o trânsito, a carrocinha, os meninos de rua – tudo para conseguir achar um outro desenhista, que faça um cachorro mais bonito, para que ele, Rabisco, possa presentear o seu dono e, assim, tentar conquistar o amor de seu criador.

         

          O mendigo que Rabisco encontra na rua, interpretado por Sidnei Caria, é antológico: dá vontade de trazer para casa. Caria também presta uma tocante homenagem ao autor do livro, o italiano Iacocca, ao interpretar o desenhista emitindo sons que lembram  o idioma italiano. É um belo e reverente tributo ao criador de tão forte fábula visual.

          Para terminar este comentário crítico, aqui vão várias respostas certas para uma só pergunta que você pode se fazer: Que tipo de criança levar ao teatro Alfa para ver um espetáculo tão inovador quanto Rabisco – Um Cachorro Perfeito?

1)   Sabe aquelas crianças que adoram entender os mecanismos das coisas e que se ligam em laboratórios da escola ou em aulas práticas de “como fazer”? Pois essas vão vibrar com o espetáculo.

2)   Sabe aquelas crianças ainda bem pequenas, de no máximo 5 anos, que se ligam apenas no visual colorido dos figurinos, na descoberta dos sons da trilha sonora, ou nas brincadeiras mais físicas entre os atores, como os números de clowns? Pois essas vão vibrar com o espetáculo.

3)   Sabe aquelas crianças que adoram livros e ficam estimuladas para ler-ver a obra na qual a peça se baseou, para ficar se lembrando das cenas por dias e dias? Pois essas vão vibrar com o espetáculo.

4)   Sabe aquelas crianças que nasceram com o dom de desenhar, não resistem a uma caixa de lápis de cor e se interessam pelo visual dos personagens de cartuns? Pois essas vão vibrar com o espetáculo.

5)   Sabe aquelas crianças que simplesmente adoram cachorros? Pois essas mais ainda vão vibrar com o espetáculo. (No dia em que eu fui ver a peça, quando chegou a hora da cena final, em que Rabisco quase vai embora, depois de presentear seu dono com o desenho de um cachorro mais bonito, mas aí resolve voltar e acaba ganhando um abração do menino que o rejeitara – pois nesta cena, eu vi uma menina da plateia, de no máximo 5 anos de idade, literalmente pular de sua poltrona, ficar de pé para se aproximar mais da cena. E ela encheu os olhos de água quando Rabisco voltou, e seu sorriso era amplo, largo, o sorriso de uma criança feliz. Desnecessário dizer, mas digo, que meus olhos também pingaram ao ver a menina em tão verdadeiro momento de empatia com a peça.)  

6)   E, por fim, sabe aquelas crianças de 20, 30, 40… 80 anos, que nunca deixaram de ser crianças e adoram a fantasia da imaginação e a certeza de um teatro bem feito, sem importar a faixa etária para a qual ele é destinado? Pois saiba que essas também vão vibrar com o espetáculo.

        Que tal ir com a família inteira?

 VEJA CENAS NO YOUTUBE, ACESSANDO O ENDEREÇO: http://www.youtube.com/watch?v=Gndv1BZ6BsE

FICHA TÉCNICA
AUTOR: Michele Iacocca
CONCEPÇÃO E DIREÇÃO: Sidnei Caria
ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: Camila Ivo e Lucas Luciano
ELENCO: Sidnei Caria, Lucas Luciano, Camila Ivo e Eder dos Anjos.
DIREÇÃO DE ARTE E FIGURINOS: Sidnei Caria
CRIAÇÃO DE CENOGRAFIA E BONECOS: Sidnei Caria, Silas Caria, Lucas Luciano e João Caria.
MÚSICA ORIGINAL E TRILHA SONORA: Dr Morris e Daniel Maia
ILUMINAÇÃO: Camila Ivo, Lucas Luciano e Sidnei Caria.
CONFECÇÃO DE CENOGRAFIA, BONECOS E ADEREÇOS: Maracujá Laboratório de Artes (Sidnei Caria, Silas Caria, João Caria, Lucas Luciano e Tetê Ribeiro).
SOLUÇÕES TÉCNICAS AUDIOVISUAIS: Sidnei Caria, Lucas Luciano, João Caria, Silas Caria e Camila Ivo.
CONFECÇÃO DE LANTERNAS (TEATRO DE SOMBRAS): Randolfo Neto
ADMINISTRAÇÃO: Jackson Íris
PRODUÇÃO: Pia Fraus e Maracujá Laboratório de Artes

SERVIÇO:

Em cartaz até 20 de junho/2010
Sábados e Domingos às 16 horas
Local: Teatro Alfa – Sala B (200 lug.)
Rua Bento Branco de Andrade – 722, Santo Amaro, tel. 5693-4000

R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia)

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