MEU BALANÇO DO TEATRO INFANTIL EM 2010

Estadão

28 de dezembro de 2010 | 13h29

 

O alto grau de comunicação de um espetáculo com a plateia – afinal, não é isso que se persegue no fazer teatral? – teve, em 2010, quatro exemplares marcantes no horário vespertino do teatro infantil apresentado em São Paulo. Cada qual no seu estilo e na sua linguagem, os quatro se destacaram por essa eficiência em atingir em cheio o gosto do público, atiçando sua curiosidade, aflorando sua sensibilidade e garantindo empatia não só com as crianças, mas também com os adultos, ou seja, com pais e filhos.

A poesia e o encantamento milenar de uma fábula bem contada foram os trunfos de O Soldadinho e a Bailarina, de Gabriel Villela. A ousadia do experimento de linguagem cênica garantiu a força de Rabisco – Um Cachorro Perfeito, de Sidnei Caria. O contagiante humor dos clowns de Circo de Pulgas, da Cia. Circo de Bonecos , e a alegria musical arrebatadora de Parapapá, no Circo Roda Brasil, com os Parlapatões e a Banda Paralela, completam o quarteto de peças infantis mais bem sucedidas do ano – sempre no que se refere à pronta resposta do público de todas as faixas etárias.

Relembremos um pouco de cada um.

 Em O Soldadinho e a Bailarina, o premiado Villela, convidado por Luana Piovani, voltou ao gênero infantil na sua melhor forma, com um rigor profissional e criativo que fez as mães chorarem e as crianças se encantarem.  A força do simbólico arrebatou desde a primeira cena. Tudo convocava nosso imaginário. Fantasia no mais puro estado de emoção. Adaptação musical do conto O Soldadinho de Chumbo, de Andersen, assinada por Gustavo Wabner e Sergio Módena, a montagem teve ainda um trunfo deslumbrante: a singela trilha de canções, assinadas por Ernani Maletta e Victor Pozas, que acabou virando CD pela Som Livre.

Juntando os grupos Maracujá e Pia Fraus, Rabisco pode ser considerado como o infantil mais ousado no que diz respeito à inovação de recursos cênicos e audiovisuais. Na direção, Caria soube tirar o melhor proveito da tecnologia, sem ser grosseiro ou estrambótico, sem deixar de ser teatro e de emocionar. Baseado em livro sem palavras de Michele Iaccoca, o espetáculo trouxe para nós a projeção de videocenários e os chamados puppet toys. No palco, uma maquete detalhadíssima de uma cidade era filmada o tempo todo, com objetos que se moviam, personagens andando pelas ruas, tudo manipulado pelos atores, enquanto outro integrante do grupo percorria tudo com minicâmeras de vídeo e, assim, o resultado era projetado em telão. Crianças e adultos ficaram vidrados nesta ideia de “confecção ao vivo de um filme-teatro”.

Em Circo de Pulgas, os atores Claudio Saltini e Rani Guerra se superaram no humor clownesco, como há muito não se via nos palcos de São Paulo. Desde o primeiro minuto no palco, até à hilariante cena final, o público de adultos e crianças ria sem parar, numa explosão de alegria que chegava a emocionar.  São dois intérpretes expressivos, que se completam e sabem usar máscara e corpo com um resultado impecável.

O quarto destaque do ano veio do veterano grupo Parlapatões, o Parapapá! – Circo Musical, dirigido por Hugo Possolo e Henrique Stroeter (este último, também em cena).  Foi o melhor acerto até agora do grupo, no Circo Roda Brasil. Tudo estava azeitado, com uma dramaturgia que funcionava bem, agradáveis números de circo físico, de clowns e de bonecos. E a trilha também era o ponto alto, a cargo da Banda Paralela, que ficava quase o tempo todo em cena, mostrando muitas e muitas canções que têm o circo como tema, em ritmos contagiantes e arranjos de um apropriado alto-astral. Todo mundo cantava junto. A dramaturgia conseguiu  a difícil proeza de casar bem circo e teatro, o que o próprio grupo já tentou fazer muitas e muitas vezes, mas nunca com tanta harmonia. Foi um dos programões mais completos de 2010 para toda a família. Todos os saudosos artistas dos circos mambembes de antigamente  com certeza aplaudiram muito este Parapapá, em algum lugar da eternidade, em uma galáxia com cheiro de serragem. Que venha 2011 com o mesmo astral, a mesma poesia, o mesmo talento desses quatro exemplares marcantes do ano que está acabando esta semana.

MAIS UMA DÚZIA DE DESTAQUES DE 2010:

1)   Para o público de adolescentes, MÚSICA PARA CORTAR OS PULSOS, com texto e direção de Rafael Gomes. Bom gosto, emoção, empatia com os teens como raramente se vê.

2)   A melhor adaptação dos contos infantis de Clarice Lispector já vista nos palcos vespertinos nos últimos anos: A MULHER QUE MATOU OS PEIXES … E OUTROS BICHOS, espetáculo carioca que fez temporada no Sesc no início do ano, com direção de Cristina Moura e adaptação de Isabel Muniz.

3)   O premiado Ângelo Brandini adaptou mais um Shakespeare para crianças. Rei Lear virou O BOBO DO REI, com um elenco perfeito e harmonioso da Cia. Vagalum Tum Tum, que abocanhou o troféu de elenco da APCA.

4)   A estreia do cantor Zeca Baleiro na dramaturgia para crianças foi muito bem-sucedida. QUEM TEM MEDO DE CURUPIRA?, com direção de Débora Dubois, arrasou nas música, na caracterização dos personagens e nas interpretações, sem esquecer que uma história tem de ser sempre bem contada.

5)  Mais uma deliciosa adaptação da Cia. Paideia foi NA ARCA ÀS OITO, texto alemão dirigido com mão firme e criatividade por um diretor que avança em talento a cada novo espetáculo, Amauri Falsetti.

6)   Carlos Palma deu um show de alegorias e adereços em BIG BIG-BANG BOOM!, falando de ciência em clima totalmente carnavalesco.

7)   Um musical vindo da Broadway, MEU AMIGO, CHARLIE BROWN,  foi refeito e readaptado com muita garra e uma belíssima produção de Ricco Antony. O elenco se destacou com graça e desenvoltura para musicais.

8 –   CURUMIM DISSE SIM E CURUMINHA DISSE NÃO, de Paulo Ribeiro, embora irregular, valeu muito pela deslumbrante cena inicial: a voz marcante e inesquecível de Nábia Villela abria o espetáculo numa canção de arrebatar. Lindo.

9)   O veteraníssimo Vladimir Capella veio com uma forte adaptação de sua escritora favorita, Lygia Bojunga, O MEU AMIGO PINTOR. Com coragem, mais uma vez Capella tratou de morte. O resultado foi lindo e muito competente, como em tudo o que Capella põe a mão, e a plateia era quase em sua totalidade formada por adultos. O maior destaque ficou para o ator protagonista, um grande achado: o garoto Pedro Inoue transpirava emoção e carisma, naquele que talvez seja o grande momento interpretativo de 2010 no teatro infanto-juvenil. Parabéns, Pedro.

10)  As pulgas voltaram ao teatro em 2010. Três ótimos espetáculos usaram os antigos circos de pulgas como tema e todos conseguiram ser bons: CIRCO DE PULGAS, com a Cia. Circo de Bonecos, O MAIOR MENOR ESPETÁCULO DA TERRA, delicada montagem com o grupo carioca Centro Teatral e Etc e Tal, e CADÊ O MEU NARIZ?, de Rodrigo Andrade e Fábio Supérbi, com o ótimo Nico Serrano e a Cia. O Que De Que. Foi o ano das pulgas!

11)  A  cultura italiana rendeu um delicioso espetáculo, AS AVENTURAS DE PEPINO, com direção de Ednaldo Freire . O grande destaque foi a sacada da contribuição à iniciação musical das crianças, com instrumentos raros e muita percussão.

12)  O engraçado tributo à ópera da Banda Mirim rendeu o competente espetáculo ESPOLETA. Mas também não foi só ópera: não se pode esquecer do samba inédito de Zeca Baleiro na voz irrepreensível de Rubi.

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