MARCELO ROMAGNOLI, o papai do Espoleta

Estadão

25 de junho de 2010 | 10h50

        

O diretor e dramaturgo Marcelo Romagnoli já criou espetáculos como 'Sapecado', 'Felizardo' e, agora, 'Espoleta'

O diretor e dramaturgo Marcelo Romagnoli já criou espetáculos como 'Sapecado', 'Felizardo' e, agora, 'Espoleta'

      Marcelo Romagnoli é um dos nomes de maior destaque no atual cenário de teatro para crianças e jovens em São Paulo. Atualmente, assina texto e direção de ESPOLETA, com a Banda Mirim, em cartaz aos sábados, 11 horas, no Sesc Consolação. Veja o comentário que escrevi antes desse post no meu blog, vá descendo que você encontra (o título é “Espoleta, um arlequim apaixonante“). E agora leia também a entrevista que fiz com Romagnoli a propósito de Espoleta. Imperdíveis. A entrevista e a peça. Segue abaixo a nossa conversa: 

1) Dentro todos os espetáculos da Banda Mirim, este é o que mais os componentes da banda têm personagens completos para interpretar. Vc concorda com isso? Como isso se deu, tendo em vista que são músicos e poderiam oferecer certa resistência a interpretar como atores?

Marcelo Romagnoli – Concordo sim, Dib. A Banda Mirim é, na sua maioria, essa reunião louca de músicos que de alguma forma tiveram um pé escorregado no teatro. E isso de cada vez mais o teatro tomar espaço na Banda foi pensado desde o SAPECADO, nosso último trabalho. Acho que o que mais me instiga é fazer cada integrante do grupo disponibilizar o que tem de melhor e com o conjunto fazer o equilíbrio entre a música e a cena. Viemos tentando descobrir como a canção pode estar envolvida pela ação e vice-versa. Então as músicas precisam ter também componentes cênicos para ajudar a contar a história. Aqui no ESPOLETA, que também é um musical, todos têm um personagem com uma curva dramática muito clara. Eles tem sua historinha apresentada, misturada e resolvida. Agora, resistência, Dib, não teve nenhuma. Cada personagem foi escrito já pensando no seu intérprete, e aí foi mais fácil ajustar tudo. Todo mundo se arriscou nessa vertigem de interpretar, de se mostrar, e isso foi muito bacana.

 2) Como se deu a escolha de Cláudia Missura para fazer o protagonista, que é um menino? Que tipo de preparação ela fez para o papel e como você trabalhou com esse lance de feminino/masculino na sua forma de dirigi-la?

 Marcelo Romagnoli – Eu e a Cláudia nos entendemos muito bem quando o assunto é teatro. Ela é uma atriz rápida, espoleta, cheia de inteligência e domínio da cena. A gente tinha essa questão no início, bem no início, se era O Espoleta ou A Espoleta. E é claro que, dentro daquele contexto , só fazia sentido ser um menino, um criado esperto, coberto da malandragem que vem da Commedia Dell’Arte. Depois que a gente decidiu o gênero, menino, a Cláudia foi desenvolvendo nas improvisações, nas leituras e depois nos ensaios o jeitão meio do Bexiga – essa mistura de nordeste com Itália – que o Espoleta tem. Eu nem precisei falar muito… Acho que eu falei escrevendo. E ela entendeu fazendo.

 3) Você acha que Espoleta é o trabalho em que mais aparece seu trabalho de diretor (mais do que o de dramaturgo)? Sim, não, por quê?

Marcelo Romagnoli –  Aparece mais do que nas outras peças, sim. Mas não sei se “mais” do que o de dramaturgo, porque considero esse texto mais redondo que os outros, na forma e na psicologia dos personagens. O enredo é mais rebuscado, ele é conciso e por isso deve ser muito mais preciso. Não tenho tempo de desenvolver conversa mole ou desnecessária em cena. Então acho que isso de escrever e dirigir os próprios textos acaba criando uma fusão interessante. Eu considero que já estava dirigindo desde quando estava esboçando o argumento. Com os outros trabalhos da Banda eu vim conhecendo melhor o elenco, sabendo de suas possibilidades. Escrever pra eles já foi um empurrão facilitador. Com o texto, a encenação veio nítida desde o primeiro ensaio: todos em cena, o jogo visível, o metateatro, a música sustentando o drama e o drama fazendo a escada pra música. Por isso acho que o trabalho de dramaturgia e direção vieram fortemente juntos e essa massa só precisou do fermento da Banda pra cozinhar.

 4) Que tipo de pesquisa você fez para criar o texto? Partiu de um tema, de um gênero, de uma linguagem?

Marcelo Romagnoli – Eu não lembro. Não lembro mesmo de onde saiu a ideia. Mas não fiz pesquisa nenhuma. Especificamente, nenhuma. Acho que já eram temas que eu queria trabalhar há muito tempo. Sempre gostei dessa poesia que as encenações meio toscas têm. O circo-teatro parece que é uma ideia sustentada pela precariedade e ao mesmo tempo pode ter todo o peso sentimental que uma ópera de Puccini tem. E embaralhando as épocas, a Commedia Dell’Arte, pra mim, é o nosso reisado ou pastoril primitivo sofisticado pela Renascença. Então misturar tudo aqui foi fácil. O que eu sabia é que queria escrever uma peça com atos e cenas, quase clássica na sua forma, com muitas tranças, com um tema que se desenrolasse através da palavra, ou seja, onde o texto pudesse ser capaz de envolver e contar, apresentar e resolver. E seria uma comédia. E, claro, musical. E tinha que ter onze personagens. E 12 ou 13 músicas. E 70 minutos. E atingir crianças e todas as idades. E ser fácil de carregar. E ser acessível aos atores-músicos da Banda Mirim. E, se possível, nos divertir nos ensaios. Deu no que deu.

 5) Conte um pouco do retorno que tem recebido/ouvido da plateia de crianças nesta primeira temporada da peça. (que venham muitas!) Já há outras temporadas engatilhadas?

Marcelo Romagnoli – Eu tinha uma pulga: será que criança vai acompanhar essa história? Na estreia eu vi aquela animação toda, o “Começa! Começa!” (aliás, não sei quem inventou isso!!!) e pensei lá na cabine de luz: “Pronto, ninguém segura!” Mas foi. Parece que envolveu e a plateia acompanhou as tramoias do Espoleta durante os 70 minutos. Depois do Sesc Consolação vamos para o Sesc Santana, aos domingos, entre agosto e setembro. E em outubro queremos fazer o repertório todo das peças da Banda Mirim.

 6) A trilha acaba de sair em CD. Você participou de que forma? As letras das músicas são suas ou você entregou o texto da peça e a Banda criou letra e música? Você vetou alguma canção, sugeriu outras, como se deu esse processo da composição da trilha?

Marcelo Romagnoli – Algumas letras escrevemos, outras já estavam prontas, como a da velhice. Mas no próprio texto eu já mostrava algumas, completas ou parciais e sugeria gêneros musicais. Mas foi a sensibilidade da compositora Tata Fernandes, nas nossas conversas de cozinha e depois no processo de criação, que definiu muitas linhas sonoras da peça. E dessa vez a banda toda foi convocada e invocada a compor. Eu acompanhei bem de perto todo o processo do Cd. E estava presente em todas as etapas da gravação. Isso pra mim foi um curso avançado de música. Hoje eu até sei a diferença entre mixagem e masterização…

 

Alguns dos deliciosos personagens da peça 'Espoleta'

Alguns dos deliciosos personagens da peça 'Espoleta'

Tudo o que sabemos sobre:

Banda MirimEspoletaMarcelo Romagnoli

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.