CONVERSANDO COM A BRUXINHA

Estadão

10 de junho de 2010 | 16h40

 A atriz Luah Guimarãez, que faz a Bruxinha Atrapalhada, no Sesc Santana, só até o dia 20 e sempre aos domingos, respondeu a umas perguntas minhas, especialmente para este blog. Não percam (nem o espetáculo nem a entrevista). É uma peça premiada, sucesso de público e crítica, encantadora e muito bem produzida. E Luah foi ótima nas respostas, nos ensinando muito sobre seu trabalho numa peça que não tem palavras. Obrigado, Luah.

Luah em cena:

Luah em cena: "Eu chamo a Bruxinha de haicai da minha história em teatro físico." Crédito da foto: João Caldas/Divulgação

 

1 )   Que preparação você teve para fazer uma bruxinha que não fala?

LUAH GUIMARÃEZ  – Dib, eu chamo a “Bruxinha” de haicai da minha história em teatro físico. A “Bruxinha” nasce de uma porção de experiências minhas. Minha primeira cena autoral na UNICAMP foi para o Luís Otávio Burnier e eu não usava a palavra, me lembrei agora. Sou uma atriz que acumula memória corporal e ao mesmo tempo gosto de trabalhar com pessoas diferentes e me lançar em mãos novas. Entre 2006 e 2007, eu fiquei um ano trabalhando com Francisco Medeiros e o Núcleo Argonautas, num projeto chamado Terra Sem Lei. Neste projeto, eu queria retomar o trabalho sem palavras, e como preparador e intérprete estava o Thiago Antunes que faz o gato no espetáculo. A Márcia Abujamra acompanhou esta pesquisa de perto, e quando ela encontrou o livro da Eva, ela me perguntou: “O que você acha de fazer “A Bruxinha Atrapalhada” sem palavras?”. Eu disse “Eu topo!” A Marcia me perguntou quem faria o Gato, eu contei a ela do trabalho do Thiago, das suas experiências e pesquisas com o kenpô indiano, convidamos o Thiago.  A Marcia sempre trabalha com Vivien, eu sempre tive vontade de me encontrar com Vivien e a Marcia queria conhecer uma pessoa nova, então Thiago falou do trabalho do Alex. Decidimos dividir o trabalho de corpo entre Vivien Buckup e Alex Ratton. Mas toda esta pesquisa sob o olhar e batuta da Marcia. Marcia propôs o roteiro-dramaturgia depois de cinco encontros entre Marcia, Thiago, Marco Lima e eu. Então quando começamos os ensaios diários, sabíamos o roteiro dramatúrgico das cenas. Neste trabalho em especial começamos com Alex Ratton, que trouxe muito jogo entre a Bruxinha e o Gato, coluna, respiração, improvisação, planos, rolamentos e também um pouco da experiência dele com clown. Trabalhamos com sutileza, com permeabilidade. Depois veio a Vivien Buckup que trouxe desenho de movimento. Por exemplo na Cena do Jardim, foi muito importante colocarmos ponto final em cada “quadrinho-cena”. Como se fossem quadrinhos. Por exemplo: O gato entra usando óculos de sol. O gato dormiu tomando sol. A Bruxinha chega, viu o gato, e decide tomar sol junto com o gato. Entra na cena-quadrinho um passarinho. O Gato e Bruxinha ouvem um passarinho e procuram. O Gato vê. A Bruxinha continua procurando. O passarinho vai embora. Este é apenas o começo da Cena do Jardim. É dramaturgia pura, você não acha? Só que em forma de rubricas e a Vivien foi fundamental para que colocássemos ponto final em cada desenho de movimento. Como se estivéssemos mudando de quadrinho, ou virando uma página.

 

2)      O que mais você apurou e aguçou na sua interpretação, para compensar a falta de palavras? O olhar? O sorriso? Expressões coreográficas?

LUAH GUIMARÃEZ  – O maior aprendizado tem sido a simplicidade de deixar os espectadores completarem a história, ou seja, não preciso dar tudo. Marcia me ajudou muito a compreender essa sutileza, além da  doçura e a leveza dos movimentos. E também a calma de trabalhar uma ação de cada vez. Como se fosse uma frase. É delicado, são segundos, mas tem diferença por exemplo: “Antes de a Bruxinha ter uma idéia, ela precisa experimentar o  vazio. Aí ela tem a idéia, o olho brilha, depois ela coloca a língua para fora. Ela pega a varinha, e faz a mágica.” Outra coisa que eu adorei também descobrir é onde começa e onde termina uma ação, de novo os pontos finais. Então por exemplo quando precisamos voltar uma cena durante o ensaio, eu sei exatamente de onde eu preciso retomar aquele momento, mesmo sem palavras, e chegar até onde finaliza aquela cena. Neste caso, achei engraçado porque continuo a trabalhar quase como se fosse um teatro com texto, ações, vontade e contra-vontade. O texto do espetáculo é uma partitura de quatro intérpretes: a Bruxinha, o Gato, e os Manipuladores: a Alba Brito e o Falcon.

 

Cenário encantador de Marco Lima e Márcia Abujamra, premiado com o Femsa:

Cenário encantador de Marco Lima e Márcia Abujamra, premiado com o Femsa: "Nem todas as bruxas sãopoderosas ou infalíveis", diz Luah. Crédito da foto: João Caldas/Divulgação

 

 

3)      A música foi bastante premiada. Comente o diálogo de sua atuação com a trilha.

LUAH GUIMARÃEZ  – A relação com a música do André Abujamra está sendo um aprendizado até agora. Aprender a ouvir a música e a dialogar com ela. Eu precisei apurar o meu ouvido. E o André mandou muito bem, hoje eu sei onde entra a harpa, o violino, o fagote e a explosão do prato. Até hoje coloco a trilha no trânsito por exemplo e vou retomando o espetáculo. Tudo é muito marcado no espetáculo e há também momentos de improviso, de descobertas até agora. Eu gosto de pensar de que a música e o silêncio também são os protagonistas deste trabalho. O começo do nosso espetáculo já estava pronto, filmamos a cena num ensaio junto com André, ele sentiu o clima e devolveu logo depois com uma espécie de trilha de cinema animado do leste europeu e colocamos nossa partitura corporal dentro desta sequência de abertura criada pelo André. Depois ele foi mandando para nós cada composição e era uma felicidade quando chegava. Os efeitos todos foram criados pela Aline Meyer… a varinha, o passarinho, o chapéu, as asas do chapéu, o sapo, o macaco, a galinha…

4)      Você deve ouvir comentários do público, em cena aberta. Isso é muito comum em teatro infantil. Conte coisas legais/diferentes/engraçadas/estimulantes que lembre de ter ouvido na temporada da Bruxinha.

LUAH GUIMARÃEZ  – Dib, a gente escuta muitas coisas gostosas e ao mesmo tempo, é engraçado, porque em Brasília e agora aqui em São Paulo nas sessões fechadas para escolas, as crianças chegam eufóricas ao teatro, depois que começa o espetáculo e elas se dão conta de que não há palavras, acontece uma magia… Geralmente instala-se em primeiro lugar o silêncio e só depois é que as crianças começam a se soltar… e a comentar para valer. O Fernando Bonassi disse que pra ele o espetáculo educa pelo silêncio, acho que ele tem razão. A relação com as crianças se esquenta mesmo durante  a Cena dos Bonecos. Amo quando as crianças gritam nesta cena, “olha atrás de você, tem uma Bruxinha igual a você!”, de alguma maneira elas querem ajudar a promover o encontro entre a Bruxinha e o Gato e a Bruxinha boneca e o Gato boneco. Durante a Cena Pirulito, em que a Bruxinha toca violino para o Gato, para ganhar pelo menos uma lambidinha no pirulito dele, ouvi várias vezes….”Está desafinado! Afina o violino! Ihh ela não toca nada.” Ou então, eu amo quando escuto um suspiro da plateia inteira , “Ah!!!!” quando a Bruxinha pega o Passarinho no colo, na Cena do Jardim. E o suspiro se repete quando a Bruxinha transforma o Chapéu novamente em Passarinho e o Passarinho vai para o colo dela, aí de novo eu escuto “Ah!”. Ou  “Olha, a calcinha da Bruxinha!” E na Cena Final, depois de fazer a mágica da cascata de lenços, o último lencinho é o pequenininho branco, amo quando eu aceno dando um tchau com o lencinho e eu ouço um “Ah! Que pena!”, elas compreendem que a Bruxinha está começando a se despedir.

5)      O que uma personagem como a Bruxinha estimula nas crianças, na sua opinião?

LUAH GUIMARÃEZ  – Gosto de pensar que é através dos erros e dos acertos também. O fato de ela ter encontrado uma varinha mágica de fada e não de bruxa, ou seja, que ela precisa aprender a usar, faz dela uma Bruxinha Atrapalhada. Gosto muito de ser atrapalhada! O mundo exige muito das crianças de hoje para que elas aprendam o “certo” logo. Outro aspecto é que o espetáculo estimula as crianças a completarem as histórias da forma como elas quiserem usando cada um sua imaginação. Pensando sob estes dois pontos de vista, acho que dialogamos muito bem com o livro da Eva. No livro completamos as histórias do jeito que quisermos e Eva humanizou a Bruxinha colocando-a como atrapalhada. E é interessante porque há uma contradição nessa Bruxinha! E para crianças, o que já dá um dado de relatividade e de possibilidade…Nem todas as bruxas são tão poderosas ou infalíveis assim…

 

Luah:

Luah: "Eu quase chorei quando fui apresentada à Bruxinha-boneca, fiquei responsável por dar vida a ela. Me senti tão responsável como quando vi o livro da Eva Furnari." Crédito da foto: João Caldas/Divulgação

 

 

6)      Qual o momento que você mais gosta de fazer na peça?

LUAH GUIMARÃEZ  – Amo a Cena dos Bonecos!!! Eu chamo carinhosamente de o coração da peça. Primeiro porque todos os intérpretes contracenam juntos. Acontece um frisson, um frenesi dentro da gente quando a porta começa a se abrir… e a música do André ! E nem Bruxinha e nem Gato sabem o que tem lá dentro. Então vem a curiosidade. Segundo, porque eu acho que exploramos e desvendamos o cenário diante das crianças e o mistério que está lá dentro. Como se o cenário fosse vivo. Então, para mim acontece um diálogo vivo neste momento do espetáculo entre nós e as crianças, porque elas querem nos ajudar a desvendar o mistério. E terceiro, é só uma brincadeira, não há explicação… não precisamos ficar explicando nada, podemos só nos divertir e querer o encontro com o outro, que por um acaso é uma outra bruxinha boneca e um outro gato boneco. Este é o quarto motivo: Marcia sempre quis brincar com proporção no espetáculo. E é o máximo porque o Marco Lima fotografou Thiago e eu e criou os bonecos primeiro. Eu quase chorei quando fui apresentada à Bruxinha boneca, fiquei responsável por dar vida a ela. Me senti tão responsável como quando vi o livro da Eva Furnari.

7)      Tem planos de fazer mais peças para o público infantil e jovem?

LUAH GUIMARÃEZ  – Tenho sim Dib! Estou muito feliz com “A Bruxinha Atrapalhada”, me sinto fazendo teatro popular, comunicando pra valer!!! É um grande prazer. Quero ficar mais em cartaz com a Bruxinha a partir de agosto deste ano, temos o sonho de fazer durante a semana para escolas. Estou pesquisando outros textos, sou viciada em livros infantis, se deixar gasto todo meu dinheirinho em livros, gosto de ler para os meus filhos. Ainda estou sob os efeitos tanto da Bruxinha quanto de O Idiota, então neste ano vou ficar por conta dos dois projetos. Mas já estou na busca do novo (ela faz a peça O Idiota, de Dostoievski, com direção de Cibelle Forjaz). Gostaria de explorar mais o “sem palavras”, tem algumas ideias indo e vindo… mas ainda é cedo para falar. Eu fiz um pacto comigo mesma, fazer um infantil de dois em dois anos.

 

 SERVIÇO DA PEÇA:

A BRUXINHA ATRAPALHADA.  Baseado no livro de Eva Furnari. Direção de Márcia Abujamra. Com Luah Guimarãez e Thiago Antunes. Duração: 50 minutos. Censura Livre. Sesc Santana (teatr0). Av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, tel. 2971-8700. SOMENTE AOS DOMINGOS, ÀS 15H30. ATÉ O DIA 20/6.

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