COMO CONVOCAR O IMAGINÁRIO DAS CRIANÇAS

Estadão

26 de abril de 2010 | 20h09

Uma crítica longa e detalhada ao espetáculo

O Soldadinho e a Bailarina, de Gabriel Villela 

 

 

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 Não deixe de ver também cenas da peça no endereço: 

   http://www.youtube.com/watch?v=TfZBkXtDb00

Minha crítica:

Gabriel Villela tem algumas poucas e boas incursões pelo teatro infantil. Ele próprio começou como ator amador, no elenco de uma montagem mineira de Pluft, o Fantasminha. Quando, anos mais tarde, já consagrado na direção, se debruçou sobre a obra dramatúrgica de Chico Buarque, montando Gota D´Água e Ópera do Malandro, caiu de amores também por Os Saltimbancos, que foi um sucesso retumbante no TBC e depois ganhou remontagem em Portugal, com Villela à frente da Seiva Trupe, da cidade do Porto. Agora, convidado por Luana Piovani, voltou ao gênero infantil na sua melhor forma. E, o que é melhor, mais uma vez faz teatro para todos, capaz de igualmente encantar os pequenos e arrebatar os adultos, com um rigor profissional e criativo que nos serve de exemplo. Nada é entregue de bandeja, nada é facilitado. A força do simbólico encanta desde a primeira cena. Tudo é sugerido, nada é explicitado. Tudo convoca nosso imaginário, nada é realista. Fantasia no mais puro estado de emoção.

 

elenco no ensaio da cena inicial

elenco no ensaio da cena inicial

Luana acertou em cheio na escolha do diretor e do texto. Sua inteligência de produtora reverteu em benefício artístico para o aprimoramento da atriz. O Soldadinho e a Bailarina, adaptação musical do conto O Soldadinho de Chumbo, de Hans Christian Andersen (1805-1875), assinada por Gustavo Wabner e Sergio Módena, tem uma estrutura coletiva, muito bem trabalhada pelo diretor, que faz Luana abandonar o protagonismo sem deixar de ser estrela. Nos seus espetáculos anteriores, Alice no País das Maravilhas e O Pequeno Príncipe, a estrutura dramatúrgica das adaptações fazia todos os personagens desfilarem/ gravitarem em torno das ações e reações de Luana-Alice e de Luana-Príncipe. É assim, aliás, nos livros de Lewis Carroll e de Saint-Exupéry. Cada personagem secundário tinha sua vez de surgir no palco e sempre contracenar com a protagonista. Isso exigia que Luana ficasse o tempo todo presente e jogava nela todas as forças dos dois espetáculos, o que resultava um tanto irregular.

 Agora, na adaptação de Wabner/Módena, os personagens secundários de Andersen existem em pé de igualdade com a bailarina de Luana, daí o grande acerto. Apesar do encantamento de princesa que a personagem tem (e como nos encanta!), ela é mais um dos brinquedos no quarto abandonado de um menino chamado Euclides. Villela, com sua reconhecida tarimba na direção de atores, apagou de Luana todo o bem-intencionado ímpeto de ser, em cena, mais uma “rainha dos baixinhos”. Fez com que atuasse sem arroubos, sem infantilismos, fez com que esquecesse o equivocado tom tatibitate de quem pensa que atuar para criança exige fazer concessões de linguagem. Luana só tem a ganhar, assim como o espetáculo como um todo, se, durante a temporada (quando o olhar do diretor, por força de outros compromissos, fica menos frequente), ela não cair na tentação de voltar atrás e transformar sua meiga bailarina em princesinha idiotizada, mesmo que seja em nome do carinho especial que ela inegavelmente demonstra ter pelo público mirim.

 

Gabriel Villela: diretor, cenógrafo e figurinista do espetáculo

Gabriel Villela: diretor, cenógrafo e figurinista do espetáculo

 

O fato de ser um musical faz desse O Soldadinho e a Bailarina uma pérola antológica. Villela importou de Minas o mestre Ernani Maletta (arranjos vocais, preparação e regência de coro) e o uniu ao jovem compositor carioca Victor Pozas, fazendo-os assinar juntos a direção musical. O resultado: a trilha ficou tão especial que será em breve vendida no saguão como CD. São singelos e contagiantes os arranjos para as canções de domínio público, como Roda Margarida, Marcha Soldado e Moreninha, se eu te pedisse, com as letras adaptadas por Sergio Módena. E combinam muito bem com as composições que foram criadas especialmente para esta peça, como a deliciosa Valsa da Bailarina ou a divertidíssima Cabaré Deliré. Entre as pesquisas de sons interioranos, serviu de perfeita inspiração o trabalho musical dos Meninos do Araçuaí, de Minas Gerais.

 

O cartaz O Soldadinho e a Bailarina no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico

O cartaz O Soldadinho e a Bailarina no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico

A exemplo do filme Toy Story, que também foi beber na fantasiosa fonte de Andersen, inteligentemente a adaptação de Wabner/Módena se firmou no foco dos brinquedos desprezados, que procuram alguém que ainda os queira, mesmo depois de velhos, gastos, ultrapassados. A dor nas costas da bailarina Sofia (dor sempre sugerida por Luana com gestos curtos e brincalhões, nada naturalistas) confere a ela uma fragilidade que é tocante e a humaniza. Como o soldadinho Perneta, Pablo Áscoli – vergando uma impecável jaqueta de couro customizada – transita bem entre o ideal do amor romântico e a fragilidade sugerida por um personagem que é marginal e diferente, e sofre toda sorte de preconceitos ­­– temática cara a Andersen e que faz esse soldadinho Perneta ser irmão de alma do Patinho Feio (uma aproximação que parece ter sido bem compreendida por diretor e ator). 

 

Outro maravilhoso achado dos adaptadores é o personagem da Harpa desafinada, que a direção soube valorizar com lances brilhantes: seja nos números rápidos de canto lírico, seja no figurino cru imitando as cordas do instrumento, tudo é de uma simplicidade funcional e deslumbrante. Nesse papel da Harpa, Janaina Azevedo arrebata o público com sua voz potente.

 

O cenário criado por Gabriel Villela

O cenário criado por Gabriel Villela

Coadjuvante também carismático é o paulista Ando Camargo (prêmio APCA de melhor ator por Era Uma Vez Um Rio), que dá a medida certa de humor ao seu Prestimoso, ursinho que não consegue mais soltar música quando aperta a própria barriga, mas solta outra coisa, pum!, e cativa as crianças, sobretudo as menores. É outra das interpretações do espetáculo que, se feita com peso maior, pode correr o risco de virar chanchada durante a temporada e até cair nas facilidades do humor de mau gosto. Não se pode esquecer também de outra ideia luminosa entre os coadjuvantes: o personagem Edegás (vivido por outro paulista, Marcello Boffat). Ele é um pintor divertido, numa referência a Degas, sem que isso vire aquele tipo de aula didática das produções infantis mais equivocadas.

Há cenas de um poder de síntese incrível, o que, com certeza, intriga a garotada (e como isso é saudável!). Por exemplo: como encher o palco com 25 soldadinhos de chumbo, como está descrito no conto original? Villela faz um único ator (Jaderson Fialho) girar em torno de si e ir respondendo a uma chamada oral da Harpa (cena que remete de forma lúdica ao universo escolar das crianças): ele responde por Chumbovaldo, depois o Chumbrésio, o Chumbento, o Chumbernildo, o Chumbrósio e assim por diante. Pronto, o exército de soldadinhos, criado pelos adaptadores com todos esses nomes de trocadilhos brincalhões, surge completo na imaginação de cada um de nós na plateia.

Criaram-se, também, marcações de uma beleza plástica calculada, para encher nossos olhos de fantasia, como a bailarina andando no fio de equilibrista ou o carrossel humano que os atores formam em determinado momento, nos transportando aos velhos parques de diversão de antigamente. Para tudo isso, Gabriel Villela contou com os auxílios luxuosos do iluminador Domingos Quintiliano, da coreógrafa e preparadora corporal Kika Freire e da fonoaudióloga e preparadora vocal de texto Babaya. Com essa equipe forte, o diretor buscou elementos de Commedia dell’Arte, do teatro itinerante, da poeira da estrada, da serragem do circo-teatro, recriando tudo com uma incrível leveza e, ao mesmo tempo, comprovando o grande esteta da brasilidade que ele é, mais especificamente, dos arroubos barrocos mineiros.

 O visual milimetricamente pensado, sobretudo em cada palmo de tecido bordado, trabalha em contraste com a leveza das cenas e o desenho delicado da trama. E, como Villela nos ensina a cada espetáculo, o que mais é o barroco, senão esse exercício sábio de iluminar contrastes? Há também referências sutis e subliminares à cultura czarista dos balés e à disciplina de caserna dos soldadinhos.

 

Os atores Pablo Áscoli (o soldadinho Perneta) e Luana Piovani (a bailarina Sofia)

Os atores Pablo Áscoli (o soldadinho Perneta) e Luana Piovani (a bailarina Sofia)

  

 Esta nova peça, que vai a São Paulo no segundo semestre,  lembra Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu e Concílio do Amor, ambas do início da carreira do diretor, mas sobretudo é uma volta de Villela ao seu internacional Romeu e Julieta, feito para o Grupo Galpão, de Minas, e que acabou encenado na Inglaterra, entre outros países, além de, até hoje, ser citado pela especialista em Shakespeare, Barbara Heliodora, como a melhor e mais fiel montagem já feita no Brasil de um texto shakespeariano.

Pois está tudo aqui de volta, em O Soldadinho e a Bailarina. Não falta nem mesmo a cena do balcão, em que, como os amantes de Verona, os dois brinquedos apaixonados também refletem sobre o amor com base nas inconstâncias da Lua. Sim, a Lua. Ela está mais uma vez irradiando toda sua simbologia em outro espetáculo do mineiríssimo Villela, como ocorreu no recente Calígula, em que a bela Lua cobiçada pelo imperador ganhou uma impressionante interpretação visual negra e espelhada.

Ah, e tem as sombrinhas, ou os guarda-chuvas estampados pelo diretor, que também assina os figurinos e a cenografia (esta quase toda criada com papel-arroz). São um show à parte. As águas-vivas do fundo do mar são sombrinhas encapadas com plástico-bolha, num efeito mágico deslumbrante. O balcão, por exemplo, da cena shakespeariana, é representado por outra imensa sombrinha que se interpõe como uma barreira entre os dois apaixonados. E mais: o leque de uma das baratas logo vira a barbatana do peixe que engole o soldadinho. O papel-bolha do corpo do peixe vira mar por onde navega o barquinho de papel, que depois vira chapéu na viagem de volta para casa do soldadinho Perneta. É emocionante ver tudo isso se transfigurar em cena, porque são improvisos lúdicos que toda criança de imaginação saudável tem de saber criar, mesmo que viva num quarto abarrotado de brinquedos eletrônicos de última geração.

O figurinista Villela, de criatividade ilimitada e sem fronteiras, trouxe do Leste Europeu os tecidos de linho (húngaros) para o vestido da bailarina, entre outras peças inesquecíveis, recriadas por ele e bordadas por Giovanna Villela com o auxílio da aderecista Veluma Soárry e da costureira Aldecy Santos. Um achado é, ainda, a roupa de franjas vermelhas do vilão (o Boneco de Molas, feito com graça por Maurício Souza Lima), que, ninguém imagina, logo depois vira a fogueira repleta de labaredas onde ardem os dois namorados, num final infeliz que a peça fez questão de manter – mas manteve de uma forma poética, que nos arranca lágrimas não pela pieguice, mas pela delicadeza de sua concepção.

Já que se falou do final do espetáculo, impossível esquecer da criatividade de seu início. É um belo tributo a Andersen, que escreveu esse conto aos 33 anos, em 1838. Todo o elenco entra em cena com as cabeças cobertas por papéis sulfites, em que se desenharam rostos de crianças, num traço primário que cada um da plateia pode tranquilamente identificar como o seu próprio jeito de desenhar na infância. E eis que a atriz Germana Guilhermme, como se fosse o próprio Andersen, em apenas dois minutos resume todo o conto original, inclusive narrando o final infeliz e anunciando que uma versão da história está prestes a começar. É uma reverência respeitosa a um gênio da literatura universal, um jeito bonito de valorizar a origem da fábula e, ao mesmo tempo, ajudar a perpetuá-la ainda mais, num recurso esperto da direção que, já de saída, nos antecipa toda a competência que se desfilará a seguir.

 

 

CLIQUE E ASSISTA:  “Reportagem do VideoShow, da Globo”

 

FICHA TÉCNICA:

 “O Soldadinho e a bailarina”

Da obra de Hans Christian Andersen

Livre adaptação: Sergio Módena e Gustavo Wabner

Direção: Gabriel Villela

Elenco: Luana Piovani, Pablo Áscoli, Maurício Souza Lima, Janaína Azevedo, Germana Guilhermme, Marcello Boffat, Pedro Lima,  Ando Camargo, Letícia Medella, Érika Riba, Jaderson Fialho, Carolina Henriques, Gabriel Mesquita.

Música: Victor Pozas / Letras: Sergio Módena

Direção musical: Victor Pozas e Ernani Maletta

Direção vocal: Babaya

Coreografia: Kika Freire

Cenários e figurinos: Gabriel Villela

Iluminação: Domingos Quintiliano

Produção executiva: Paula Salles, Gabriela Mendonça e Aline Rapadura

Direção de produção: Maria Siman

Realização: Luana Piovani Produções e Primeira Página Produções

Patrocínio: Guaraná Caçulinha – Antarctica, Biscoitos Passatempo Nestlé, Johnson’s Baby, Oi Telecomunicações.

 Temporada: até 25 de julho no RIO DE JANEIRO

Espaço Tom Jobim – Jardim Botânico

Rua Jardim Botânico, 1008 – Jardim Botânico

Sábados e domingos, às 17h

Ingressos a R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)

Vendas: www.ingresso.com

Duração: 55 min

Classificação etária: livre

Lotação da casa: 450 lugares

Estacionamento no local

Tel: (0–21) 2274-7012

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