ÂNGELO BRANDINI: talento raro de adaptador de clássicos

Estadão

01 de julho de 2010 | 16h46

 

Ângelo Brandini: um diretor e adaptador premiado

Ângelo Brandini: um diretor e adaptador premiado

Ângelo Brandini é um craque na arte de adaptar obras clássicas para o teatro infantil. Por essa difícil e nobre função, já ganhou prêmios APCA e Femsa. Está em cartaz atualmente o seu O Bobo do Rei, que nada mais é do que o Rei Lear, de Shakespeare. Coragem, não? Pois Brandini já fez coisa mais difícil. O ciumento Othelo, também de Shakespeare, que acaba por matar sua inocente amada Desdêmona, também virou peça infantil, Othelito. E Molière também já esteve sob a mira do adaptador, que fez um divertido Doente Imaginário, com trilha sonora inesquecível. Fiz abaixo cinco perguntas para Ângelo Brandini.

 

1) Qual a maior dificuldade na adaptação do Rei Lear para crianças?

 A maior dificuldade foi manter a esência do texto e ao mesmo tempo torná-lo acessível às crianças. Rei Lear é uma tragédia, uma história bastante complexa, na verdade são duas histórias que se entrelaçam e podem ser lidas separadamente, mas o desenvolvimento das duas usam artifícios dramáticos que podem ser complementares. Me ative à história principal misturando os artifícios que julguei interessante de ambas.

 

2) Você já fez também Othelo e Doente Imaginário. Qual das três foi mais difícil de virar peça infantil e por quê?

 A mais difícil foi a primeira, Othelo. Porque precisei descobrir quais mecanismos poderia usar para transformar uma tragédia em comédia sem cair no lugar comum da sátira pura e simples. A saída foi usar a linguagem da Commedia Del’Arte, traçando um paralelo entre os personagens originais e os arquétipos da Commedia Del’Arte. Isso me ajudou a encontrar uma forma, mas me obrigou a inventar  motivações de ações diferentes do original,  já que todo o raciocínio agora era determinado pelos personagens da Commedia e , de novo, a essência precisava ser mantida.

 3) Achei que a opção por valorizar o Bobo, o Clown, foi o maior acerto de O Bobo do Rei. Conte como fez essa escolha.

Sou um apaixonado pela figura e sabedoria do Bobo e vi no Bobo de Lear um ótima oportunidade para explorar poeticamente a relação entre o velho e a criança. O Bobo e seu descendente, o Palhaço, olham a realidade com o mesmo olhar da criança, sem julgamentos e sem se preocupar com a lógica e a razão que guiam os adultos. Acredito que a velhice nos aproxima desse olhar como se um círculo se fechasse. E se, velhinhos, nos permitirmos a convivência franca com as crianças, com toda a certeza fecharemos este círculo de uma forma a dar sentido ao tempo que nos foi dado viver sobre a terra.

 

Brandini: dezesseis anos de trabalho como Palhaço nos Doutores da Alegria

Brandini: dezesseis anos de trabalho como Palhaço nos Doutores da Alegria

4) O que há, na personagem do Bobo, que seja de sua experência pessoal como clown e palhaço dos Doutores da Alegria?

 Tudo. Em dezesseis  anos de trabalho como Palhaço nos Doutores da Alegria, pude constatar a força transformadora que esse arquétipo exerce sobre um lugar, uma situação ou uma pessoa. Ao mesmo tempo, venho de uma formação teatral clássica e sempre acreditei que era possível juntar as duas vertentes e é neste momento que me encontro agora.

 5) Quais as próximas adaptações que pretende fazer?

 Pretendo me aprofundar mais em Shakespeare. Como gosto muito dos Bobos, ainda pretendo fazer uma adaptação de Hamlet sobre o ponto de vista de Yorik, o Bobo morto, que só aparece em forma de caveira numa cova. Veja que interessante, mesmo depois de morto ele ainda provoca toda uma reflexão sobre a vida, numa das cenas mais lindas, ao meu ver, da obra de Shakespeare. Além disso ainda quero explorar Molière e alguns clássicos da literatura como Gabriel García Márquez, entre outros.

O elenco da peça: uma das filhas do Rei Lear se disfarça do Bobo do Rei

O elenco da peça: uma das filhas do Rei Lear se disfarça do Bobo do Rei

SERVIÇO DA PEÇA:

O BOBO DO REI. Com a Cia. Vagalum Tum Tum. 60 min. Recomendação da produção: acima de 6 anos. Teatro Alfa – Sala B. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel. 5693-4000. Sábados e domingos às 17h30. Ingressos a  R$ 24 (inteira). Até 11 de julho.