A ‘menina’ Tatiana Belinky agora é da Academia

Estadão

15 de abril de 2010 | 17h18

Valéria Gonçalvez/AE

Valéria Gonçalvez/AE

Conto para vocês que hoje, quinta, dia 15 de abril, nossa querida escritora, tradutora, ensaísta,  dramaturga e poeta Tatiana Belinky toma posse na cadeira de número 25 da Academia Paulista de Letras. A cerimônia estava marcada para 18h30 no Salão Nobre do Colégio Dante Alighieri e deve ter sido muuuuito emocionante.  Fui convidado, mas fiquei preso no jornal. Ela merece todas as honras e homenagens que tem recebido em vida. Sua obra para crianças é fundamental. Em homenagem a ela, recupero um texto que escrevi para uma dessas homenagens, a que ela recebeu do Prêmio Femsa de Teatro Infantil e Jovem.  Lá vai o texto, querida Tatiana. E obrigado por existir.  

“Quando eu era menina, na Rússia, eu sempre dizia que queria ser uma bruxa. Uma bruxa?, me perguntavam os adultos, com surpresa. E eu respondia: É, uma bruxa. Bruxa é bonita e tem poderes… Fadas são umas chatinhas, sempre muuuuito certinhas… Aí, quando eu cheguei ao Brasil e conheci a Emília do Monteiro Lobato, eu pensei assim: Não, não quero mais ser bruxa, eu quero ser a Emília.”
Tatiana Belinky, menina russa de São Petersburgo, veio para o Brasil com 10 anos de idade e nunca mais parou de ser Emília. Naquele momento, pode até ter abdicado de ser bruxa, mas jamais deixou de ter poderes. Poder de nos enredar com suas histórias muito bem contadas. Poder de fantasiar sem limites e, dentro deste mundo de fantasia, ensinar os mais nobres conceitos de cidadania. Poder de fazer rir, de fazer chorar. Poder até de amedrontar, por que não? Poder de fazer poesia, de fazer teatro, de escrever livros infantis. Poder de traduzir contos russos para os leitores do Brasil. Poder de instaurar o brilho nos olhos de uma criança. Poder de devolver o brilho aos olhos de um adulto e fazê-lo voltar a ser criança.
Ao lado do médico e educador Júlio Gouveia, com quem se casou e teve dois filhos, Tatiana escreveu para a televisão a primeira adaptação do Sítio do Pica-pau Amarelo. O casal trabalhou dentro de casa. E foi um sucesso retumbante, que abriu a mente engessada dos adultos, dirigentes de emissoras, para a importância de se usar a televisão como veículo de arte e educação para as crianças. Tatiana não só se tornou Emília, por paixão e identificação pela boneca de pano mais falante e intrometida do mundo, como proporcionou que muitas e muitas outras gerações de meninas também tivessem vontade de ser a Emília do Lobato.
A obra infanto-juvenil de Tatiana Belinky, para teatro, para literatura, para televisão, tem algo para amar, algo para detestar, tem algo para torcer, algo para desprezar. Tem algo que encanta e algo que espanta, algo que incomoda e faz pensar – e algo que cativa e faz brincar. Ela nunca tem pressa de terminar uma história, e mantem o ritmo certo de uma narrativa sem se importar com a agilidade de internet das crianças de hoje. Tatiana está mais preocupada em preservar o encantamento. Se os pais se aproximam de Tatiana e lhe tascam sua lamúria preferida: “Eu mando meu filho ler e ele não lê. O que é que faço?“ Tatiana responde, com gosto: “Comece por não mandar. Livro não é castigo, não é tarefa, não é chateação.”
Em tudo o que Tatiana faz, fica patente: criança é uma delícia. Ela diz: “Criança é um público maravilhoso, interessado. Nunca se deve subestimar a inteligência de uma criança. Fazem perguntas que precisamos estar prontos para responder ou ser honestos o suficiente para dizer ‘não sei’”. Em tudo o que Tatiana faz, ficava patente: Tatiana é que é uma delícia. Nos últimos tempos, vive com o corpo fragilizado de uma senhorinha distinta, mas mantem, como sempre quis, a cuca fresca e a língua destravada de sua querida boneca Emília. Sua frase preferida, ela sempre conta, é de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” Mas também adora contar a história daquele bilhete que ela escrevera para um amigo havia mais de 50 anos e que, muito recentemente, alguém escreveu para ela, o mesmo texto, sem saber que era a própria Tatiana a autora da frase. “Mas isso fui eu quem escreveu, há mais de 50 anos!”, exclamou ao ler. “Voltou pra mim, voltou pra mim”, comemora a menina sapeca que ela ainda é, com muito orgulho. O que estava escrito no bilhete de Tatiana? Uma trova singela sobre o valor da amizade. “Ouça amigo esta verdade, lembre dela aonde for, nem sempre amor é amizade, mas toda amizade é amor.”

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