Oito motivos para ver esta peça

Estadão

07 de março de 2010 | 19h10

Dalton Valério/Divulgação

Dalton Valério/Divulgação

A MULHER QUE MATOU OS PEIXES E OUTROS BICHOS.

No Sesc Paulista, Av. Paulista, 119, tel. (11) 3179-3700. Sábados e domingos, às 16 horas. Até 28 de março. R$ 12,00 (adultos), R$ 6,00 (meia) e grátis para crianças até 3 anos.


1)      A diretora Cristina Moura instaurou em cena um tal clima de brincadeiras que é contagiante, do primeiro ao último minuto. Os personagens brincam de tudo: de dançar, de apostar corrida, de adivinhações, de imitações, até de dormir e, sobretudo, de contar histórias. E não pense que fica um ranço retrô de quintal de antigamente, não. É uma linguagem moderna, com DJs, guitarras, bateria, telões, uma iluminação impactante (assinada por Enrique Diaz).
2)      A adaptação dos contos infantis de Clarice Lispector, com dramaturgia assinada por Isabel Muniz, além desse alto astral citado no item acima, é de uma delicadeza emocionante, principalmente quando os bichos da história morrem. Falar de morte para crianças sempre foi um tabu. Aqui, o tema flui sem pieguismo nem grosserias, de forma cuidadosa.  Tudo isso sem abandonar trechos literais do livro de Clarice, ou seja, numa reverência à grande autora que não prejudica a modernidade da montagem.
3)      O cenário é de um branco forte, que estoura na nossa cara desde que a gente entra na plateia.  Há dois níveis, basicamente, isto é, dois andares.  Mari Stockler, a cenógrafa e diretora de arte, deixou a cor viesse nos figurinos, nos acessórios. Decisão acertada.
4)      As projeções nos telões são muito bem usadas ,nunca gratuitas ou apenas decorativas, ao contrário. O peixe projetado na roupa da atriz depois que ela conta que engoliu o bichinho do aquário é o ponto alto de integração e criatividade. Mas tem também uma galinha voando pela cidade grande, a multiplicação de baratas, balões, as nuvens quando os cães Max e Bruno se encontram no céu. Tudo nota dez, com vídeos criados por Paola Barreto e Andrea Capella.
5)      O figurino de Marcelo Olinto é lúdico e brincalhão. Casa muito coerentemente com a proposta do espetáculo. Parece que estamos no quarto de umas crianças, um cômodo desajeitado, bagunçado, e que as crianças brincam de se vestir com o que há no armário dos adultos – algo assim. São peças superpostas no corpo de cada ator: saias, calças, fusôs, bermudões, camisetas, tudo um por cima do outro, com cara de brincadeira colorida.
6)      Além da cena do peixe projetado na roupa da atriz, há outras que são antológicas. Como as meninas disputando quem é a princesa mais bela, mais rica, mais poderosa, relembrando todas as princesas famosas dos contos de fadas. É de um potencial de empatia com a garotada da plateia que nos faz arrepiar, nós, adultos. Outra cena, logo no início, de uma inteligência sutil, é quando a atriz delineia a fachada de uma casa no chão do palco, com fita crepe colorida, e deixa por último a porta. Só quando ela faz (deseha)  a porta é que o espetáculo começa. Um convite (de uma sutileza criativa  inacreditável) pra gente entrar na casa com eles. Arrepia também.
7)      A trilha é agradável, com canções singelas e também muito lúdicas, que têm força até para sobreviver fora do espetáculo. A canção para a macaca Lisette, que acaba de morrer, é muito boa como retrato de um amor entre gente e bicho, como alento pra dor de perder uma amiga legal. A direção musical de Lucas Marcier, Fabiano Krieger e Felipe Rocha acertou também na decisão de usar a música já para recepcionar a plateia na entrada.
8      Coroando isso tudo, o trio de atores – Mariana Lima, Renato Linhares e Luciana Fróes – dá conta do recado com muita propriedade, frescor e cara de novidade. Não caem na linguagem tatibitate, mas são crianças quando é pra ser criança e muito adultos na hora de ser Clarice Lispector. O que não é pouco.