20 DE MARÇO, DIA DO TEATRO FEITO PARA CRIANÇAS E JOVENS

Estadão

20 de março de 2010 | 01h41

Hoje é Dia Mundial do Teatro para Infância e a Juventude. Dia 20 de março. Separei para vocês alguns depoimentos de quem atua na área.  Gente muito talentosa, que não só faz mas pensa o teatro para crianças.

 

Lizette Negreiros, atriz, atualmente no Grupo Ventoforte: “Trabalhamos a favor da matéria prima mais complexa e difícil, mais sincera e desprotegida, mais necessitada do saber e do prazer: a criança e o adolescente. Usamos a alma para fazer teatro e para manter o teatro vivo.”

Gabriel Villela, diretor premiado por Os Saltimbancos, em 2001, peça que também montou duas vezes em Portugal, com a Seiva Trupe, e atualmente ensaiando O Soldadinho e a Bailarina: “Nós, artistas de teatro, temos a síndrome de Sherazade: contamos histórias para não morrer. E como criança não tem regras, ela faz como ninguém o trânsito saudável entre real e imaginário. Bombardear Bagdá é como bombardear a fábula, as 1.001 noites. O islamismo radical, as guerras santas, os ataques terroristas, a intransigência dos americanos, tudo isso faz o adulto viver uma fase descompensada, um pessimismo tenso. Mas a criança, na minha visão, está salva disso, porque usa seu estado pleno de sonho para ficar imune. Elas, as crianças, é que vão nos salvar, com sua capacidade de fabular sempre. Por isso é que eu arrisco dizer que, no mundo atual, é mais urgente montar Irmãos Grimm do que Shakespeare.”

Osvaldo Gabrieli, diretor do grupo XPTO e de espetáculos infantis como O Pequeno Mago e O Enigma do Minotauro: “Quando escolho um tema para uma peça infantil, penso muito nos temas que motivavam meus sonhos infantis. Fui uma criança cheia de fantasias, minhas brincadeiras criavam mundos e engenhocas. Quando um autor envolve a obra com depoimentos poéticos de sua vida, falando sobre seus sonhos, seus medos, suas verdades, suas dificuldades e conquistas, começa a criar um nível maior de interesse e traz humanidade ao espetáculo.”

Alexandra Golik, atriz e diretora do grupo Le Plat Du Jour e de espetáculos como Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos: “Querer ensinar no teatro é chato. A mensagem, a boa intenção, o melhor caminho, a honestidade, o caráter e tantas outras coisas mais passam para a criança por osmose, não precisa do teatro para isso. Criança é um ser extremamente sensível, que absorve por todos os poros. Se você apresenta uma peça de qualidade, não precisa apresentar serviço. A lição de moral é conseqüência.”

Vladimir Capella, premiado autor e diretor de peças como Miranda, Maria Borralheira e O Colecionador de Crepúsculos: “Um autor de teatro precisa levar em conta o ser humano, ajudá-lo a encontrar significados para a vida, trabalhar com as questões essenciais que o atormentam, fornecer subsídios para que ele possa identificar-se, projetar-se, rir, chorar, reflexionar e construir sua história. E isso pode ser feito com uma linguagem ultramoderna ou clássica, assim como um diretor pode conceber um espetáculo cibernético ou com velhas caixas de papelão.”

Jacqueline Obrigon, atriz premiada por Assembléia dos Bichos: “Sempre acreditei que a arte é transformadora, o mundo se abriu pra mim quando assisti a O Rapto das Cebolinhas, peça infantil de Maria Clara Machado, eu era uma criança com todas as minhas angústias na decada de 70, e essa epifania marcou a minha vida a ponto de definir o meu futuro profissional.Durante muitos anos ouvi artistas falando que teatro infantil era uma outra categoria de arte, como se não fosse teatro .E me pergunto que artistas somos nós que não respeitamos o que temos de mais genuíno, as crianças. Nosso público mais sincero e fiel.”