Zeca Camargo comete gafe ao se desculpar por crônica sobre ‘Cristiano Ronaldo’

Zeca Camargo comete gafe ao se desculpar por crônica sobre ‘Cristiano Ronaldo’

Cristina Padiglione

29 de junho de 2015 | 15h58

zeca

 

O meio sertanejo pragueja em coro contra Zeca Camargo pela crônica escrita e lida por ele no Jornal das Dez desse domingo, 28, na GloboNews. O foco foi a cobertura jornalística e a comoção nacional pela morte de Cristiano Araújo, ocorrida na última quarta-feira. Artistas do chamado gênero “universitário” ou de raiz, de ontem e de hoje, planejam um boicote em massa ao novo programa da Globo, É de Casa, que terá o jornalista entre os apresentadores, nas manhãs de sábado. Pode ser que até agosto, quando o programa estreia, os ânimos se arrefeçam, mas, a julgar pelos humores de hoje, é grande e relevante a lista de artistas que se solidarizam com Cristiano e não querem ver Zeca pintado nem em livro para colorir – outro alvo de sua crítica.

No Jornal das Dez, Zeca reconheceu a pluralidade artística que às vezes faz com que uma parte do País conheça e idolatre determinado talento, sem que outros tantos milhões não conheçam esse mesmo ídolo. Mas, no decorrer do texto, acaba duvidando da meritocracia do cantor para tamanha comoção nacional e o compara ao vazio cultural de outro fenômeno popular: os livros para colorir.

Diante da má repercussão do texto, Zeca foi chamado pelo diretor Boninho, chefe de núcleo do novo programa, para se desculpar ao vivo no Vídeo Show, também comandado pelo núcleo de Boninho. E assim o fez, só que não. Ao pronunciar o nome do cantor, falou Cristiano “Ronaldo”, em vez de Cristiano “Araújo”, gafe que Fátima Bernardes já cometeu no dia da morte do ídolo, desculpando-se logo em seguida. Além disso, seu pedido de desculpas veio com um inadequado “talvez”.

“Acabei sendo talvez mal interpretado pelas pessoas. Eu, imagina, tenho a maior admiração por qualquer artista, sobretudo o Cristiano RONALDO, que não tá mais com a gente, que começou de uma maneira tão simples, tão honesta, tão bonita, e estourou e virou esse artista que o Brasil inteiro chorou nessa morte. Então, eu queria TALVEZ me desculpar com quem TALVEZ tenha entendido mal esse texto”.

O vídeo com o erro no Vídeo Show foi publicado no perfil do Instagram de Hugo Gloss

cristiano

 

 

Eis o que ele disse no Jornal das Dez e que gerou imediatos protestos nas redes sociais, levando a Globo a expandir o caso para o Vídeo Show, numa emenda pior que o soneto.

“(…) A surpresa maior não é o fato de ele ser tão famoso e ao mesmo tempo tão desconhecido. O Brasil, felizmente, tem um punhado de artistas que não passam pelo radar da grande mídia nem são um consenso popular, mas que levam multidões para seus shows. Essa é uma consequência natural para o talento que nós temos para a música, cruzado com o tamanho e a diversidade do nosso território.

O que realmente surpreende nesse evento foi a comoção nacional. De uma hora pra outra, fãs e pessoas que não faziam ideia de quem era Cristiano Araújo partiram para o abraço coletivo, como se todos nós estivéssemos desejando uma catarse assim.  Um evento maior, que nos unisse pela emoção Nós sempre precisamos disso, grandes funerais públicos vêm em ciclos, expurgar nossas dores, como se tivessem uma capacidade purificadora.”  Zeca cita então despedidas de comoção nacional ou mundial, como Cazuza, Kurt Colbain, Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, Princesa Diana, Michael Jackson.

“Mas, Cristiano Araújo?” “Uma figura relativamente desconhecida?” “Como então fomos capazes de seduzir emocionalmente por uma figura relativamente desconhecida”

E relaciona o caso aos livros para colorir, que destacam “a pobreza da atual alma cultural brasileira”.

“Eles vêm bem a calhar para que a gente faça um paralelo com a ausência de fortes referências culturais que experimentamos no momento. A morte de Cristiano Araújo e a quase insana cobertura de sua despedida vestiu a carapuça de um contorno de linhas pretas num papel branco, só esperando a tinta da emoção das pessoas para ganhar tons e, quem sabe, um significado. Como robôs coloristas, preenchemos aqueles desenhos, na ilusão de que estamos criando alguma coisa. Assim como ao nos mostrarmos abalados com a ausência de Cristiano, acreditamos estar de fato comovidos com a perda de um grande ídolo. Todos sabemos que não é bem assim.

O cantor talvez tenha morrido cedo demais para provar que tinha potencial para se tornar uma paixão nacional, como tantos casos recentes. Nossa canção popular é hoje dominada por revelações de uma música só que se entregam a uma alucinada agenda de shows para gerar um bom dinheiro antes que a faísca desse sucesso singular apague sem deixar uma chama mais duradoura. E nesse cenário, qualquer um pode, ainda que por um dia, ser uma estrela maior. Teria sido esse o caso de Cristiano Araújo?

O mais inquietante de tudo isso é que nosso pop não precisa ser assim. Nossa história musical, e mesmo o passado recente, prova que temos tudo para adorarmos ídolos de verdade. E para chorar de verdade, seja pela presença deles no palco, ou na saudade da perda.  Mas, agora, olhando em volta, parece que não vemos nada disso. Não precisa ser assim. Contradizendo o famoso refrão de Tina Turner, ‘We do need another heroe’, precisamos sim de um outro herói, de mais heróis, mas está todo mundo ocupado, pintando jardins secretos”.

Abaixo, o link da crônica:

Jornal das Dez