“Viver a Vida” é um show estético. E só

Cristina Padiglione

16 de setembro de 2009 | 17h45

Quem desembarcou segunda-feira no horário nobre da Globo, procedente da Índia do Projac, claro, teve um choque cultural ao dar de cara com a nova novela das 9. Da Kjara re (para não mencionar aqui o hit de dona Norminha) à bossa nova que comparece a toda novela de Manoel Carlos, vai uma distância que não abre brecha para comparações. Mas, are baba, a estreia de “Viver a Vida” esbanjou estética e economizou comoção. Faltou emoção, faltou provocação, faltou instigar alguma reação que não fosse a indiferença cardíaca num espectador que até dois dias antes vinha se jogando aos pés de Tony Ramos, Laura Cardoso e Lima Duarte. E, com todo o respeito ao belíssimo elenco que ali desfila, apenas Lília Cabral mostra condições de salvar a cena em curto prazo.
Não que mais ninguém do resto do elenco saiba se garantir além dos generosos closes de Jayme Monjardim, e, justiça seja feita, bem que o diretor deu preferência a planos abertos no primeiro capítulo. Bárbara Paz é outra que mostra disposição em mexer com a audiência, protagonista que é de um dos merchandisings sociais da trama, a anorexia alcoólica.
Causa desconforto ver Alinne Moraes, mais uma vez, no papel da filhinha abastada mimada, e José Mayer, pela enésima novela de Maneco, no papel do sedutor maduro. Assim como há a categoria Helena, nome que invariavelmente batiza as heroínas do autor, há a categoria José Mayer. O problema é que, diferentemente do leque de Helenas viáveis, não sobrou outro ator maduro com chance de abalar as Helenas ou suas coadjuvantes, sejam elas mocinhas de 20, como Débora Secco em “Laços de Família”, de 45, então Vera Fischer na mesma novela e Christiane Torloni em “Mulheres Apaixonadas”, ou de 50, como Regina Duarte em “História de Amor” e em “Páginas da Vida”, ou de 30, caso da atual, Taís Araújo.
Iluminação, fotografia, figurinos e cenários são de uma perfeição tão latente, que cabe perguntar: alguém vive ali? Alguém mora entre aquelas paredes, ou é tudo obra da Casa Cor? As personagens, e não só as modelos da história, chegaram à Casa Cor diretamente vindas de um SPA. Igualmente perfeitas, exibem elegância fora do comum, pele e cabelos impecáveis, assim como as roupas e acessórios nelas penduradas.
Falta gente como a gente. Por isso foi tão evidente quando a ficção acabou e deu-se início ao primeiro dos depoimentos reais diários gravados para encerrar cada capítulo desta novela, assim como o autor fez em “Páginas da Vida”. Não há risco de o público confundir o testemunho dos anônimos com os personagens emoldurados da trama. A bandeira a ser defendida, agora, é a superação, e é esse o tema que motiva as histórias de verdade contadas no encerramento de cada episódio. Daí a esperança de que em algum momento “Viver a Vida” possa comover, verbo que o autor normalmente conjuga com maestria.

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