Uma mão lava a outra

Cristina Padiglione

09 Maio 2007 | 10h55

O encontro realizado ontem em Brasília era para discutir liberdade de imprensa, mas por que não aproveitar para encampar todas as queixas de quem se sente perseguido pelo tal “cerceamento à liberdade de expressão”? Pois foi o que se deu: oportunamente, pegaram carona na discussão os queixosos irados com as novas regras da classificação indicativa de TV e até aqueles que não se conformam com as novas restrições à propaganda de cerveja.

A classificação indicativa tem sido aplicada há 7 anos sem esse escarcéu (corrigido pela leitora simpática logo abaixo) todo de “liberdade de expressão”: a ira dos radiodifusores é respeitar fuso horário local, mais nada. Valendo-se desse item, as TVs, com aval do STJ, resolveram derrubar a conquista feita até aqui, de vincular horários a conteúdos. Era o mínimo para se tentar respeitar na TV, que tanto ganha com esse nicho, o Estatuto da Criança e do Adolescente. Ou por que o Estatuto haveria de merecer menos respeito que a liberdade de expressão? Constituição por Constituição, está tudo na mesma Carta.

De mais a mais, não se pode confundir liberdade de imprensa, o mote do encontro de ontem, com classificação indicativa, até porque a classificação indicativa não engloba qualquer programa de caráter jornalístico, nem aqui nem nos países que aplicam a classificação indicativa com muito mais rigor que o Brasil e onde ninguém se vale desse nosso complexo de censura.

A quem interessar possa, Estados Unidos, Alemanha e França, só para citar 3 nações onde a liberdade de imprensa é aplaudida pelo mundo todo, dispõem de uma classificação indicativa com rigores muito maiores que o Brasil, por comissões escolhidas por seus governos, com aprovação de seus senados. Aliás, o controle sobre a publicidade nesses três países também é bem maior que aqui, com mil restrições a bebidas alcoólicas e à propaganda infantil.