Um dia no set de ‘Ligações perigosas’, clássico que vira minissérie na Globo

Um dia no set de ‘Ligações perigosas’, clássico que vira minissérie na Globo

Cristina Padiglione

25 Outubro 2015 | 19h29

Cenas 16, 16A e 16B

Cenas 16, 16A e 16B

 

Originalmente criado em 1782, o enredo de Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, será transportado para os anos 1920 em uma cidade portuária do Sudeste brasileiro para abrigar a minissérie que abrirá o calendário de 2016 da Globo. Poderia ser Santos? Poderia. Mas Manuela Dias, autora da adaptação, prefere não marcar local certo para sua narrativa e dispensa fidelidade absoluta à época. Quer evitar os vigilantes de dramaturgia de plantão, gente que há de encontrar equívocos na cor do bonde da cidade ou defeito nos penteados da época.

“Essa história é muito indoor, de muita intimidade, a gente poderia adaptar em muitos lugares, porque a grande força dela não está na época, está muito mais na relação entre as pessoas, na intimidade das relações”, conta Manuela. O Estado visitou um set da série, a garçonière de Augusto, personagem de Selton Mello, montada no Palacete Modesto Leal, em Laranjeiras, no Rio.

Foi Vinícius Coimbra, diretor-geral da série, quem sugeriu a Manuela, com quem tem longa parceria, inclusive no cinema, a possibilidade de Ligações Perigosas render uma série. Ela leu o original, releu, esmiuçou cada linha e fatiou em dez capítulos. Com o projeto em mãos, levou à direção da Globo, que não só topou como escolheu o título para uma vaga de grandes apostas: a mesma que foi de Amores Roubados e de Felizes Para Sempre?, nas duas primeiras semanas do ano. A estreia está prevista para 4 de janeiro.

Ligações será a estreia de Manuela como titular de uma produção na Globo. Formada em Jornalismo e Cinema, filha de produtora teatral e de arquiteto e cenógrafo, a moça acumula boa carga de repertório aos 38 anos. Tem quatro filmes no currículo, três peças encenadas, mais duas a caminho e 20 anos de Globo, inclusive como colaboradora de outras produções, como Cordel Encantado e  Joia Rara.

Apaixonada pela etimologia das palavras, estuda grego arcaico desde os 16 anos. E se pede ao elenco que não altere o texto dito em cena sem falar com ela, não é por vaidade. “Combinei com os atores: ‘se vocês tiverem sugestões, estou aqui. Sou a autora viva, para o que isso tem de bom e de ruim. Então, me escrevam, me liguem a qualquer hora, tenho todos os capítulos salvos no telefone, sábados, domingos, feriados. Quero trocar, não me poupem a chance de crescer, mas não quero que mudem sem falar comigo’, porque é uma série de época e gosto de escrever na camada quase genética da palavra.”
No estúdio, Selton Mello e Patrícia Pillar repetem à exaustão uma cena de Augusto e Isabel. Ela, viúva do Marquês D’Ávila de Alencar (Mário José Paz); rica, amoral e manipuladora, amante de Heitor Damasceno (Leopoldo Pacheco). Ele, amigo íntimo dela e sobrinho de Consuelo (Aracy Balabanian), é um bon vivant e conquistador que se envolve com Cecília (Alice Wegmann) e Mariana (Marjorie Estiano).

Vinicius Coimbra , Denise Saraceni e Manuela Dias

Vinicius Coimbra , Denise Saraceni e Manuela Dias

Há fumaça no set, luz muito baixa, penumbra. Em Lado a Lado, novela que ganhou um Emmy Internacional, o diretor Vinícius Coimbra já tinha adotado tal recurso. “Não é para parecer que tem fumaça, é para parecer que tem ar, como se fosse uma poeira no ar”, ele explica. “Esse é um ambiente do Augusto, ele vive com isso fechado, é como se fosse um vampiro, a gente não percebe quando é dia e quando é noite no cenário dele.”

Diretor do premiado filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Coimbra enumera os vários cuidados que distanciam o expediente de uma série do ritmo industrial exigido pela TV. Se uma novela pede algo em torno de 40 cenas gravadas por dia, uma série como essa pode se dar ao luxo de realizar de quatro a seis cenas em um dia. O texto foi trabalhado e retrabalhado, em intermináveis reuniões entre autora e diretores. Os atores podem ensaiar e estudar seus papéis por um mês inteiro, com preparador de elenco e preparadora física.

Foi a obra do fotógrafo Jacques Henri Lartigue que inspirou Coimbra a buscar os anos 1920 do século passado como referência. Mas, sem fiel reprodução estética da época, figurinos e cenários encontram mais liberdade de criação. Os cabelos não serão tão armados como os daquele tempo. Os cenários incluem “praticamente lofts nova-iorquinos, sem nenhum compartimento”, explica o diretor. O cenário de Patrícia Pillar será um salão de 14 metros. “São coisas que não são exatamente realistas. Essa história tem a característica de um clássico que pode ocorrer em qualquer lugar.”

Mas, assim como o livro original precede a Revolução Francesa, os anos 1920 também representam uma ruptura, lembra Manuela. São anos anteriores a um reposicionamento social, especialmente para a mulher, e à quebra da Bolsa de 29. “Esse momento de ruptura de costumes é muito bom para a dramaturgia, porque consigo colocar os personagens mais reacionários, como a Iolanda, de um lado, e os personagens mais avantgarde de outro, como o Augusto, a Isabel.”

Diretora de Núcleo, Denise Saraceni acompanha as gravações com entusiasmo. “Essa narrativa é um clássico da literatura universal, já foi feita e refeita, inclusive contemporaneamente. A gente está dando uma leitura respeitando o livro, a nossa base é a literatura”, endossa. E se o título já teve várias versões, convém considerar que uma série em dez capítulos oferece a oportunidade de explorar todos os detalhes do original, o que não é possível condensar em um filme de duas horas.

 

 

Fotos: João Cotta/Doivulgaçãoi TV Globo