Tudo como dantes no reino dos “noticiários” policialescos

Cristina Padiglione

02 de novembro de 2008 | 11h42

Feito para o Caderno de Esportes do Estadão, que na ocasião revelava, em entrevista do jogador Lugano, uruguaio, o temor que sua mulher tinha em sair de casa por causa da TV, o texto abaixo foi publicado em 28 de março de 2003. E não é que o prazo de validade do dito está em dia? Mudam os títulos (a Record não tem mais “Cidade Alerta”, mas aquele “Balanço Geral”, na faixa das 13h, supera, e muito, o nome extinto; e a RedeTV! já não tem seu “Repórter Cidadão”, o que não significa que outros elementos na grade não estejam prontos para fazer esse papel).
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CRISTINA PADIGLIONE
Assistir a um dos programas ditos “jornalísticos” na faixa das 17 às 19
horas, na nossa TV aberta, é experimentar muito mais o efeito provocado pela dramaturgia do que pela vida real. A não ser que o sujeito esteja drogado, ninguém sai às ruas com aquele olhar frenético adotado pelas câmeras desses policialescos. Nem conversa com as pessoas naquele tom indignado, repleto de interjeições, usado por seus apresentadores e repórteres. E, mesmo quem testemunha um crime ao vivo, por maior que seja seu estado de choque, não terá direito às trilhas sonoras de suspense que embalam o Repórter Cidadão, na RedeTV!, o Cidade Alerta, na Record, e o Brasil Urgente, da Band.
A vida enfocada nesses programas não é bem como ela é; é dramatizada como nos melodramas, sempre a pedir uma lente de aumento, uma caricatura da realidade. Não que os casos ali apresentados não tenham de fato ocorrido, mas o número de desgraças por segundo exibidas em todos esses produtos e a forma como são relatadas na tela só dão ao telespectador a sensação de que é ele quem está sob ameaça de prisão, em cárcere privado.
De acordo com o Ibope, o Cidade Alerta e o Brasil Urgente têm, cada um,
média de audiência em torno de 6 pontos na Grande São Paulo. O programa de Marcelo Rezende na RedeTV! vem registrando média de 4.
Ao todo, representam uma platéia que alcança 776 mil domicílios só nessa região. Para esses canais, é uma quantidade significativa. Em termos qualitativos, nem tanto: não são bem vistos pelo mercado de anunciantes e, daí, não atraem o faturamento que os números sugerem. Mas é fato que todos acabam alavancando o ibope dos programas que os sucedem – ou porque o telespectador embarca na atração seguinte ou porque fica tomado mesmo pelo medo de levantar do sofá.

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