A preciosa aula do Boni

Cristina Padiglione

27 de setembro de 2009 | 16h25

Reproduzo abaixo, devidamente creditado, e porque é muito bom, o post mais recente de Mr. Bonifácio de Oliveira Sobrinho, José, o Boni, escrito por ele em seu blog (http://bloglog.globo.com/boni/#), dentro do bem elencado Bloglog pilotado por seu filho Diogo.
É favor a quem ainda tiver alguma sensibilidade nessas esferas televisivas atuais, que a aula a seguir seja reproduzida como recado em folders gigantes a serem pregados por corredores de produtoras e emissoras, ao alcance dos olhos de tantos executivos agora mais ocupados e preocupados com a fórmula do que com o conteúdo.

FAZER TELEVISÃO É FÁCIL. COMUNICAR É DIFíCIL.

Criar cenários, iluminar, cortar, gravar, editar, etc…etc são funções artísticas importantes e fundamentais na produção de um programa de televisão. Mas todas elas, mesmo executadas com perfeição, não fazem necessariamente um bom programa. Uma boa produção é indispensável, mas não é tudo. Julio Gouveia, o pioneiro produtor de televisão, dizia com propriedade que se um livro fosse muito interessante ele resistiria a uma boa leitura frente as câmeras, sem um corte sequer, sem qualquer produção. Bastaria um narrador competente. Infelizmente os recursos de produção fazem alguns profissionais acreditarem que forma é mais importante do que conteúdo. O espectador não é bobo. Não adianta apostar em móveis, cadeiras, escadas, elevador que não vai a lugar algum, carros, barcos, novidades tecnológicas, cenários mirabolantes,cidades fantásticas, desertos, rios e montanhas. Também não adianta berrar com quem está em casa porque se baixa o volume, muda de canal ou, simplesmente, desliga. Nem gritos, nem sussurros. E é bom lembrar que bater palmas para o próprio umbigo é tão ridículo como uma “merchandising” mal feita. O que importa é a capacidade de comunicar. É não ser egoísta pensando no produto apenas como mais um produto. É fundamental pensar em quem está do outro lado, em casa, com o controle remoto na mão. Não basta um produto bem realizado. É preciso que ele seja realizado para quem vai ver. Que interesse e… muito. E que seja capaz de prender o interesse. Que tenha potencial para durar o tempo para o qual foi projetado, para não encher linguiça. Minutos, horas, meses ou anos. O Max Nunes quando lhe apresentavam um novo programa, sapecava: Me conta como vai ser o décimo segundo. Um programa bom pode resistir ao tempo, mas não pode ser como um restaurante velho “sob nova direção”. Ou aquele sabão de sempre “agora em nova embalagem”. Uma novidade formal é bem vinda, mas não pode ser anunciada, promovida e alardeada como se fosse a descoberta da pólvora. Basta que seja percebida. Só vale a pena botar a boca no mundo e dar tiro de canhão se a novidade for de conteúdo. Nereu Bastos, na velha TV Tupi, quando algum produtor exagerava nos pedidos de materiais, costumava retrucar: Pergunta na sua casa se alguém já ligou a TV para ver o sarrafo da TV Rio, o pano da Tv Excelsior ou a mesa da Globo? Um exagero do Nereu, mas com um fundo de verdade. O que se quer ver mesmo é alguma coisa que atravesse a tela do televisor e mexa com a gente. Fazer televisão é fácil. Comunicar é difícil.

Boni

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