‘Tá no Ar’ avança na acidez do humor

‘Tá no Ar’ avança na acidez do humor

Cristina Padiglione

13 de fevereiro de 2015 | 09h33

“Mas é realmente necessário lembrar ao público que a festa que a gente promove há décadas é bancada pela contravenção?”
Essa seria a pergunta que Marcius Melhem, Marcelo Adnet e Maurício Farias ouviriam, poucos anos atrás, de algum grande diretor da Globo, sobre o clipe que encerrou o episódio de estreia da 2ª temporada do humorístico ‘Tá No Ar’, nessa quinta-feira.
Jamais se viu crítica tão contundente à indústria carnavalesca que sustenta Sapucaí e Anhembi, na tela da Globo, em produção digna de padrão Globo, do figurino e maquiagem à qualidade de áudio. Adnet puxa o samba-enredo ‘Amarelo e Cinza’, obra superior a muito exemplar desse repertório desfilado por essas plagas. É demais para quem acostumou-se a ver a Globo com um filtro politicamente correto.

Se o programa foi comparado ao ‘TV Pirata’ no ano passado, quando surgiu, pode apostar que nem aquele ‘TV Pirata’ dos primórdios ousou cutucar a própria casa tão de perto. O paralelo vale mais para a paródia de filmes publicitários, quesito que a antiga direção da Globo foi anulando da pauta do velho ‘Casseta & Planeta’, e agora ressurge, em exemplos revigorados, no ‘Tá no Ar’.
Teve até o “Cereal Killer”, piada com Bruno Gagliasso, que reencarna seu papel da série ‘Dupla Identidade’ e atira cruelmente no tigre fofo da Kellog’s.

Viva o oxigênio dos novos tempos.

Autocrítica, aliás, abriu e fechou o episódio de estreia desta temporada. Adnet e Melhem pegaram carona no BBB, em cena gravada no quarto do líder, com direito a poema ao modo Pedro Bial, com quem interagiram por meio do monitor da casa dos brothers, como se estivessem no reality show. E não foi necessário qualquer retoque de maquiagem para explicitar a imitação ao mestre de cerimônias do BBB. Bastaram o ritmo e o conteúdo da declamação. “Pode sair daí, vai pra casa descansar, Pedro Bial, porque acabou o BBB”. O anúncio se emendou a um quadro que explorou o drama dos ex-BBBs, uma analogia à cracolândia, de candidatos esquecidos pela mídia, após adquirirem o “vício da fama”.

De novo, não houve, nem fora da Globo, crítica que expusesse de modo mais eficaz a praga do BBB.
E daí? O reality vai se desgastar por isso? Nem de longe. O que os humoristas fazem, com aval da emissora, é honrar o senso de oportunidade: se tanta gente adora odiar o BBB, nada mais rentável do que se valer desse discurso, por meio do humor.

O crítico da Rede Globo, militante nordestino vivido por Adnet, está mais inquieto que nunca. Encarregou-se de bater no esquete que poderia render protestos da militância negra – um comercial do século retrasado que, ao modo Casas Bahia, vendia escravos em ritmo de grande liquidação. “Esse processo de michaeljackzação da TV brasileira… ” “Por que Escrava Isaura era branca? Pra que Lucélia, se nós tínhamos Zezé Motta?” Numa segunda aparição, o crítico militante misturou FHC, Bill Clinton, Mujica e William Waack na mesma panela, ao falar sobre o “cigarrinho” que fumam lá pelas bandas de Jacarepaguá, não por acaso, onde está o Projac. Como de praxe, ele surge na tela nervoso, num vídeo caseiro, cheio de chuviscos, como se impusesse um recado pirata, e nunca consegue concluir o que quer dizer.

Também de volta, tivemos o ‘Jardim Urgente’, paródia aos Cidades Alertas e Datenas da vida, em que o apresentador, na pele de Welder Rodrigues, destrói o discurso sensacionalista por meio de personagens infantis. “Foca em Mim!”, pede ao câmera, que atira uma foca em sua direção.
E o ótimo ‘Balada Vip’, deboche sem filtro da elite de São Paulo, de uma maneira que só alguém de fora de São Paulo poderia fazer. Sim, paulistanos sempre ofendidos com as provocações cariocas, aquele personagem existe na vida real e está personificado em Amaury Jr., assim como seu entrevistado, Tony Karlakian, que promove “o carnaval mais diferenciado do País”, antes do carnaval, pra poder ir a Aspen no feriado.
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Entre as novas esquetes, ponto para Vingança dos Famosos, quando Regina Duarte, numa inversão de papéis, aborda um tabelião durante o almoço dele com a família num restaurante.
Tá no Ar
Na nova temporada, o Tá no Ar está ainda mais frenético na edição do efeito zapping, cortes curtos que dão ao espectador a sensação de quem passeia por 100 canais, sem dar à maioria das emissoras mais que dois segundos de chance de ser vista.

Quando se pensa que o programa acabou, vem o ponto mais alto, o tal samba-enredo.
Afinado e afiado, Adnet endossa a capacidade, da qual tanto duvidaram quando veio da MTV, de fazer bom uso de seu cérebro na estrutura monumental do Projac.

Diz a letra do samba:
“Veio da esquina, do dinheiro da contravenção / Qual foi o bicho que deu / Explode caça-níquel de emoção / Um grito se espalha pelo ar, num enredo patrocinado / Close na bunda e replay pra disfarçar / Que o dinheiro não foi declarado / E o tráfico de armas vai bancando o abre alas / E o carro dos felinos vem do bingo clandestino (…) E a comissão de frente é pura purpurina e pó / Nosso patrono não veio por motivos de força maior / Alô, Bangu 3 (…) / Deixou no lugar o seu primo, laranja que segura o B.O. / E o Rio, de preços divinais, superfatura nossos carnavais / E a pseudocelebridade, fazendo juras de amor à comunidade / Festa da hipocrisia / Camarote lado a lado / O político e o bicheiro /celebrando abraçados / Tem quizumba na bunfunfa, mulata fenomenal, incentivando o turismo sexual (…)”

É o que há.

Confira o clipe do sambão.

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