Supermax: Globo reconhece necessidade de motivar novas gerações

Supermax: Globo reconhece necessidade de motivar novas gerações

Cristina Padiglione

01 Julho 2016 | 14h47

Autores e diretores, no presídio de segurança máxima cenográfico: claustrofóbico.

O cineasta José Eduardo Belmonte (primeiro, da esquerda para a direita) se faz acompanhar de Raphael Montes, Marçal Aquino, José Alvarenga Jr., Carolina Kotscho, Bráulio Mantovani e Fernando Bonassi na escadaria do aterrorizante cenário construído para as gravações de Supermax, nova série da Globo, sobre um fictício reality show em uma prisão de segurança máxima, no coração da floresta Amazônica. Antes de desmontar o ambiente, a Globo convidou um grupo de jornalistas a conhecer o set, que serviu também para a gravação de uma versão hispânica do enredo, sob direção do cineasta Daniel Burman.

Lá fomos nós.

Sabe aquela necessidade que novela tem de repetir três ou quatro vezes a mesma informação, para não correr o risco de o público se perder? Premissa quase obrigatória da dramaturgia de televisão aberta, essa concepção não tem lugar em Supermax, série da Globo que sai bem fora da casinha, desde a criação aos efeitos especiais trabalhados na pós-edição. A ousadia, explica o diretor-geral da série, José Alvarenga Jr., endossado pelos roteiristas que o acompanham,  tem lá seus propósitos. Além de valorizar a relevância de cada chave capaz de desamarrar os nós do suspense embutido no enredo, é um meio de ir introduzindo um novo repertório a um público que já não se permite seduzir pela linguagem de folhetim, algo quase viciante na cartilha dos dramaturgos de TV no Brasil.

Isso diz respeito especialmente aos mais jovens, nicho que vai abandonando o hábito de ver TV linear e a quem a televisão brasileira precisa urgentemente conquistar. As novas gerações só dependem de uma boa banda larga para se encantarem e consumirem seu tempo muito mais diante das séries americanas do que na frente da novela das 9. A aposta da Globo é calçada no acesso cada vez mais fácil às plataformas sob demanda, não só essas que abrem caminho para enredos e produções muito elaboradas e longe das redundâncias – Supermax promete ser -, mas também onde se enquadra a GloboPlay, serviço da emissora via streaming, que pode resgatar cenas não vistas ou não compreendidas pelos telespectadores que perderam o bonde.

Criação de Alvarenga com os escritores Fernando Bonassi e Marçal Aquino (o trio assinou as séries Força Tarefa e O Caçador), Supermax é fruto de um processo inédito de criação, em esquema que se conceituou chamar de “writting room”, com mais cinco profissionais gabaritados. É literalmente uma sala de escritores a trabalhar conjuntamente o desenvolvimento do roteiro final.  O enredo reza que um grupo de doze pessoas foi confinada em um presídio de segurança máxima que nunca teve seu funcionamento permitido pela Justiça – em comum, todos os candidatos, que concorrem a um prêmio de R$ 2 milhões, já enfrentaram problemas com a Justiça. Todos serão submetidos ao limite de suas capacidades físicas e psicológicas. Seus fantasmas vêm à tona, enquanto a convivência, nessas circunstâncias, motiva uma luta pela sobrevivência em cenário tão distante e inatingível.

Horror e terror dominam um primeiro trailer editado pela direção para anunciar a obra. Mas Alvarenga jura que a produção mescla sarcasmo e romance a esses elementos. Não é possível notar neste curto material promocional, no entanto, nada que não seja oriundo do Sobrenatural. Alguns poucos minutos de cenas apontam para sangue subindo pelos pés descalços de um detento, criaturinhas demoníacas com efeitos especiais de pós-produção, pavor e mistério, ameaças de morte, com trilha sonora incidental à altura. Sobrenatural na veia. Mas não tem mula sem cabeça, avisa o diretor.

É curioso notar que enquanto Multishow e o próprio GNT, canais pagos do grupo Globo, têm se esforçado para abraçar interesses e gostos de uma média da população, em busca da audiência e daquele telespectador viciado em TV aberta, a Globo vai no caminho contrário. Aposta que a criação de novos repertórios ainda pode lhe trazer de volta o público perdido não para outros canais, mas para outras plataformas.

Os personagens, de um elenco quase todo formado por atores desconhecidos da TV  – exceção feita a Mariana Ximenes e Cleo Pires – são recepcionados no reality pelo próprio Pedro Bial, que repete o papel de mestre de cerimônias do BBB, em um primeiro momento, mas, sugerem os autores, terá outras funções a seguir.

Autor dos maiores sucessos do cinema nacional, Cidade de Deus e Tropa de Elite, Bráulio Mantovani conta que a sala de escritores era “quase uma molecagem”, em que cada um ia sugerindo o que fazer a seguir, sem necessariamente ter sua sugestão aceita. “Molecagem que eu digo, como o dia em que alguém diz: ‘e se o Pedro Bial pudesse fazer o apresentador do reality show?’ E aí todo mundo diz: ‘ah, não, não deixariam, ele não viria, sei lá o que mais, até que alguém diz: ‘vou ligar pra ele’, sabe? E o cara topa!”

Novato na TV, Raphael Montes, escritor policial, fascinado em dividir a sala de criação com alguns de seus grandes ídolos, admite: “às vezes eu via as coisas que a gente ia escrevendo e dizia; ‘não vão aceitar isso na TV aberta’, e tudo foi acontecendo”, diz. “As boas histórias são todas universais, me interessava muito que a gente pudesse fazer coisas de Gênero, terror, policial, porque tudo no Brasil acaba virando novela. A gente queria fazer terror de verdade.”

Independentemente de terror e horror, Carol Kotscho enfatiza que o ponto de partida são sempre personagens verdadeiros, reconhecíveis.

Belmonte cita True Detective como fonte de interesse para incrementar a linguagem da TV, Alvarenga fala em “ambiente claustrofóbico” para definir a atmosfera vigente de suspense e Aquino usa o termo série “transgênera”, dada a proposta de mesclar gêneros. A sala de escritores contou ainda com Raphael Dracon, Dennison Ramalho e Juia Rojas, cada um expert em uma área.

“A empresa comprou a nossa proposta”, diz Alvarenga.

“Se não tiver verdade nos efeitos, caga tudo”: Bonassi, sobre os efeitos especiais.

“Eu já fiz muito cinema no Brasil e é difícil realizar tudo o que se põe no papel, é sempre uma luta com o orçamento. No final, em vez de créditos, sobem débitos. E há coisas que você só consegue no Brasil se for na Globo, onde só a estrutura da Globo permite que se faça.” idem.

Os efeitos têm custado bastante prazo da equipe responsável pela pós-produção. São situações que, no ar, duram poucos segundos, mas não podem ter erro, diz um dos diretores. Na ocasião, a equipe apresentou aos jornalistas o “Demoninho”, uma criatura virtual, em 3D, controlada por movimentos humanos. Coisa do outro mundo.

Aguardemos.