Saruê não nasceu Odorico, mas até Cajazeiras lhe arrumaram

Saruê não nasceu Odorico, mas até Cajazeiras lhe arrumaram

Cristina Padiglione

03 de maio de 2016 | 02h26

cajazeiras

Há quem considere uma blasfêmia comparar o Saruê de Antonio Fagundes ao Odorico Paraguaçu de Paulo Gracindo.

É evidente que não há, por parte dos criadores de Velho Chico nem por parte do Fagundes, o esforço em imitar Paulo Gracindo e sua genial personificação da criatura de Dias Gomes, mas é certo que esse coronel Afrânio remete à imagem mais fiel da cafonice expressada pelo coronelismo, instituição bastante presente naquele Congresso Nacional que pudemos ver em forma de doloroso desfile, por ocasião da votação do impeachment da presidente Dilma.

odorico

A tradução daquele Odorico, muito mais atual do que gostaríamos de apontar num quadro de avanços que pensamos ter ocorrido no País, é latente neste Saruê do Fagundes, como não era no ainda recém-convertido Saruê de Rodrigo Santoro, no mau gosto do penteado acaju, na esdrúxula composição de cores do vestuário pesado e na fanfarronice do modo de falar.

A gente gosta mais do Saruê do Rodrigo, e quando digo ‘a gente’, atesto que ainda não encontrei telespectador que me diga o contrário. Diferentemente do Fagundes, Santoro nunca foi coronelzinho, e esse frescor para o papel também pesa. Fagundes, afinal, está no seu terceiro fazendeiro rico, todos da obra de Benedito Ruy Barbosa, e o modo de mastigar as palavras, como quem mastiga fumo no cenário rural, denuncia ali o DNA de Bruno Mezenga, não há como evitar a comparação. Mas eles são bem diferentes em todo o resto e não cabe aqui discutir o empenho de Fagundes no novo coronel. Só a ideia de a gente buscar na memória a figura de Odorico já é louvável. De cabelos também pintados, práticas canalhas e vocabulário folclórico, de tão equivocado, o prefeito de Sucupira é um daqueles personagens que ajudam a contar a história de um país, e isso não é de todo ruim. É saudável que a gente exponha nossos maus espelhos na vitrine para que todos se constranjam por ele. Quando um deputado frauda o INSS ou a merenda das crianças, o cidadão comum tem duas escolhas: o ‘todo mundo rouba e eu também vou roubar’, ou ‘que vergonha, não quero virar isso que aí está’.

A ficção, em geral, desperta no ser humano o segundo caminho, ou, ao menos, torço por isso, confesso.

Toda essa volta para dizer que não é ruim o Afrânio de Fagundes. O grande ruído é saber que ele não se comunica, mas nem com 30 anos de distância, com aquele Saruê do Santoro. Por mais que o então recém-formado estudante de Direito em Salvador, libertário no contexto da Tropicália, tenha se endurecido com o passar dos anos e vestido a carapaça (para usar um termo do diretor Luiz Fernando Carvalho) de latifundiário cruel, que abusa do agrotóxico nas suas plantações, não há elo algum entre o passado e o presente deste personagem. Quando Santoro abandonou seu coronel à deriva da passagem de tempo cumprida pelo folhetim, ainda ostentava os caracóis inspirados por Caetano, ainda vestia ternos de tecido cru, clarinhos, ainda falava baixinho quando mandava matar ou quando mandava a mãe aos infernos. Por que não tivemos ao menos um sinal de que ele caminhava para cores tão fortes, cabelos alisados e pintados, timbres mais graves? Em que momento a sua canalhice deixou de ser algo mais Corleone para se tornar Odorico? Falta diálogo entre Afrânio jovem e Afrânio maduro.

Seja lá como for, Afrânio de Fagundes, independentemente do Afrânio de Santoro, é, sim, um delicioso tributo a Odorico. Pois não é que hoje, até a presença das três cajazeiras se evidenciou em cena? As senhorinhas que paparicam o coronel já haviam aparecido de forma menos referencial em outras festas promovidas pelo Saruê, como no centenário da adorável e ranzinza Encarnação (Selma Egrei, magnífica). No capítulo desta segunda, a remissão foi ainda mais forte. Elas escorregam as mãos pelo peito do coronel, elogiam a pavorosa gravata azul usada por ele e são menosprezadas, de longe, pela amada Iolanda (Christiane Torloni).

Noves fora, a novela continua a me encantar permanentemente com cada plano. É verdade que já cansei daquela tomada que apresenta a grande propriedade dos Sá Ribeiro pela perspectiva do rio, com coqueiros espetados na margem. Mas discordo da acusação de ritmo lento. Com raríssimas exceções, todo capítulo contém um acontecimento que faz a história andar. A trilha sonora é a melhor dos últimos 20 anos na TV e não há diálogo espaventado pela janela. Tudo tem uma razão de ser, toda fala encontra um eco ali adiante. As tomadas fogem da obviedade, dos enquadramentos chapados, e torço para que a massa apure seu olhar diante da imagem fora do comum.

afranios

O grande senão, de novo, e lamento muito por isso, é a falta de conexão entre os Afrânios. Pode haver por trás dessa caracterização do Saruê de Fagundes as melhores intenções. Mas, quando as intenções da produção não alcançam a compreensão do espectador, a comunicação entre história e plateia se perde. De que adianta o recado ser bom, se ele não chega ao seu destino?