Porta dos Fundos foge da narrativa linear em sua 1ª série para a TV
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Porta dos Fundos foge da narrativa linear em sua 1ª série para a TV

Cristina Padiglione

29 Outubro 2015 | 15h45

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Pense em O Rebu, clássico de Bráulio Pedroso tratado como roteiro revolucionário em sua época, 30 anos atrás, e mesmo recentemente, ao ser refeito pela Globo, e no culto a uma narrativa não linear para uma história contada pela televisão.

Agora multiplique por cinco aquele conceito do “não linear”, com aval de quem está num canal de TV paga, pronto para dispensar o didatismo imposto por boa parte dos executivos que subestimam a plateia, acreditando que tudo tem de lhe ser servido mastigadinho.

O Grande Gonzalez, primeira série do Porta dos Fundos feita para a TV, estreia segunda-feira, na FOX, disposto a provocar o espectador e a fazê-lo pensar.

Que bom.

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Temos um mágico (Gonzalez, Luís Lobianco) que morre afogado acorrentado dentro de um tanque d’água, e o laudo da perícia acusa ali um crime, não um acidente. O palhaço da mesma festa, Fábio Porchat, extorque toda a equipe, ou assim tenta fazer, para “permitir” a presença dos colegas nos eventos. As negativas são tratadas com ameças de difamação do profissional em grupos do Facebook.

Temos os policiais, Antonio Tabet, o Kibe Loco, e João Vicente, num interrogatório que vai chamando os flashbacks para as cenas citadas, num vaivém sem aviso prévio para as passagens entre presente e futuro. Nada de imagem esfumaçada ou legendas que avisem se a cena é memória de fato ou versão de memória (há versões diversas para os mesmo relatos, como convém a um crime). Num roteiro muito bem trabalhado por Ian SBF, autor do argumento e responsável maior pelo próprio roteiro, o enredo é todo fragmentado entre tempos diferentes, com uma habilidade impressionante em se fazer entender.

O próprio elenco, ao assistir o primeiro episódio pela primeira vez, denunciou que só então, com a edição montada, conseguiu acreditar que tudo o que foi gravado faria sentido. “A gente gravava uma coisa, depois gravava outra versão praquilo, e eu perguntava; ‘mas, Ian, qual das duas versões é a minha memória mesmo e qual é mentira?'”, contou Porchat. A exibição se deu em evento fechado para imprensa e executivos da FOX, nesta quarta, 28, em um buffet infantil tipo ostentação, uma das marcas registradas do bairro de Moema, na zona sul de São Paulo.

Diretor responsável pelas produções nacionais do grupo FOX, Zico Góes havia dito ao Estado a mesma coisa, pouco antes da exibição. “Quando a gente lia o roteiro, com um vaivém de presente e passado, versões distintas relatadas para um mesmo fato entre um corte e outro, a gente pensava: ‘como esse cara vai fazer pra montar esse quebra-cabeças?’ E, no entanto, quando a gente viu a série pronta, e a gente já viu todos os episódios, é impressionante como tudo se amarra tão bem. Ian é um gênio, gênio”, Zico repetia.

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O Grande Gonzalez conta ainda com Gregório Duviver, um ilusionista rival de Gonzalez, presente na mesma festa, Totoro, um vendedor de cachorro quente, e todo o elenco do Porta dos Fundos. A série foi gravada em 7 semanas e, segundo Ian, reprisando o que ele já havia falado ao Estado na véspera da apresentação, “deu muito trabalho”. Até por isso, ele não pensa em fazer uma segunda temporada. Mas gancho para tanto há. “Vamos aguardar, vamos ver como as pessoas vão receber a série e, a resposta para uma possível segunda temporada está justamente no décimo e último episódio”, disse Porchat.

 

A série vai ao ar a partir desta segunda-feira, de segunda a sexta, na FOX.