Por que Paraíso Tropical não decola?

Cristina Padiglione

21 de abril de 2007 | 14h18

A Globo antecipou a usual pesquisa de grupo de discussão, há séculos aplicada em suas novelas, para entender se haveria, em “Paraíso Tropical”, algum item (personagem, tema ou comportamento) que causasse rejeição na platéia da novela das 9.

Nada de significativo foi apontado.
Tá certo que 38 ou 40 pontos de audiência é gente à beça, mas não para o horário das 21h numa Globo. “Páginas da Vida”, que já vinha abaixo dos folhetins anteriores, esbarrava nos 42, 45. Assim, o primeiro diagnóstico para “Paraíso” foi a ressaca de “Páginas”. Mas, passado o primeiro mês de novela nova, era de se esperar que a audiência se recuperasse. Que nada.

“Paraíso Tropical” tem diálogos riquíssimos. Joga na cara do público a indignação que deveria reinar, mas que já se banalizou, diante de questões cruciais para todo mundo. Como o duelo entre o mocinho Fábio Assunção e o bandido Wagner Moura sobre os custos-benefícios da terceirização no tal hotel do Tony Ramos. A sobreposição dos resultados econômicos em detrimento dos resultados e valores pessoais, humanos.
Ou a arrogância do almofadinha bem-nascido, Paulo Vilhena, diante da experiência profissional do modesto Daniel Dantas. O almofadinha rende outra representação de valores bacanas estampada pela novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares: enfim uma gatinha assediada por um milionário enxerga mais prazer nos bares e na freqüência da Lapa do que nos restaurantes cinco estrelas onde ele arrota discursos de pretenso enólogo _ e olhe que ele não é um traste, digo, fisicamente.

Confesso certa agonia pela falta de interesse da massa por “Paraíso”. Fico a me questionar se essa coisa de prostituta e cafetão, com toda a maestria ali desfilada por Camila Pitanga e Chico Diaz, cheira tão mal assim aos olhos da audiência.

Ou, pior, se a exposição ao ridículo desenhada para aquele monte de gente medíocre espalhada por todos os núcleos da história não acaba por se tornar um espelho insuportável para boa parte da sociedade.