Por que a Globo reprimiria as manifestações de seus artistas?

Por que a Globo reprimiria as manifestações de seus artistas?

Cristina Padiglione

25 de abril de 2016 | 10h39

Otaviano Costa e Monica Iozzi

Ainda que muita coisa tenha mudado de Roberto Marinho para a atual geração de comandantes do Grupo Globo, que já conta com alguns netos do homenzinho que criou a Rede Globo de Televisão, lá em 1965, por que a atual direção repreenderia seus artistas sob alegações ideológicas?

Roberto Marinho, afinal, era o autor da célebre frase: “Deixe que dos meus comunistas cuido eu”, que ele dizia aos militares perdigueiros que viravam a Globo do avesso em busca dos opositores ao regime da ditadura. Não que “doutor” Roberto tenha enfrentado os milicos, longe disso. Era conhecida sua disposição em adular seus principais líderes. Mandou Dias Gomes passar a tesoura no Pagador de Promessas, cortando quatro capítulos da minissérie, e controlava o Jornalismo com mão de ferro. Mas muito do que os seus noticiários não podiam fazer, ele endossava na seara artística. Vide O Bem Amado, uma sátira ao coronelismo vigente no País. Em defesa da obra do mesmo Dias Gomes, repudiou a censura a Roque Santeiro com editorial no Globo, em 1975, quando a novela foi suspensa quase de véspera.

Na frase “dos meus comunistas cuido eu”, está embutida a ideia de que se alguém tiver que censurar ou enaltecer um produto nascido dos seus funcionários, sob seus investimentos, que seja só pelas mãos de quem está dentro de casa.

Daí a certeza de que não haverá rede social capaz de ditar as regras do que a Globo deve ou não fazer com os artistas da casa que contrariam, ou aparentemente contrariam, suas posições políticas. Tenho acompanhado, aqui e ali, rumores de que Mônica Iozzi, recém-contratada pela casa, estaria desagradando a direção da emissora, pelo nobre fato de ter uma opinião e fazer observações ao próprio jornalismo da casa. Nesse contexto, sou forçada a me lembrar de outra frase famosa de magnata das comunicações, dessa vez Assis Chateubriand, que costumava dizer aos seus jornalistas: “quem quiser ter opinião, que compre seu próprio jornal”.

Hoje, todo mundo tem seu próprio jornal, estampa suas posições em Facebook, Twitter, Instagram, etc. Ao que consta, a direção da Globo não repreende, nem tem como repreender, no universo artístico, as manifestações de seus contratados. No Jornalismo, claro, são outros quinhentos. Prevalece, lá na Globo, como na maior parte dos grandes veículos noticiosos, o esforço em informar, mais do que opinar. Verdade que muitos opinam, e o próprio público espera de alguns jornalistas que eles se posicionem em determinadas situações, de preferência com muitos elementos argumentativos, o que é muito saudável. Mas, torcidas ideológicas são manifestações a serem contidas no Jornalismo da TV Globo, o que não ocorre na área artística. Muito pelo contrário.

A repreensão a Mônica Iozzi, nesse momento, vem muito mais de fora do que de dentro da casa. É como se o fato de ter chegado agora a proíba de ter um lugar à janelinha para opinar sobre a paisagem, e cause indignação em quem nunca conseguiu um bom lugar nesse bonde, por falta de competência, ou por medo de “desagradar” a chefia. Mônica não achincalhou o Jornalismo da Globo, lamentou apenas que muita gente se informe pelo Jornal Nacional, o que, de fato, não é bom negócio. Os jornalistas que fazem o JN sabem disso. Eles não se informam por um único veículo, e sim por um mix de páginas e especialistas com posições divergentes. Por mais que eles quisessem, não seria possível expressar e resumir essa pluralidade em meia hora de noticiário diário. É preciso, é saudável, é prudente buscar mais de uma fonte de informação. Que mal há nesse diagnóstico? Não consta que a diretoria da Globo, na sua essência, discorde disso ou veja aí uma crítica à casa.  E, salve, que bom contar com pessoas que têm o que dizer e não sejam apenas “um rostinho bonito”, como tantos outros que a televisão foi acusada  de abrigar e alimentar, sem cérebro.

Só para recapitular: Osmar Prado, José de Abreu, Paulo Betti, Letícia Sabatella, Wagner Moura, muita gente fez campanhas por governos de esquerda, sem conduto perder espaço na tela. Prado, Abreu e Tonico Pereira manifestaram-se amplamente por PT, Dilma, Lula e afins, mesmo estando em evidência na tela. E, supondo que se a Globo tivesse que se desfazer de quem apoia governos diferentes dos que ela gostaria de ter, como rezam tais conspirações, seria forçada a buscar atores no México ou a formar um elenco medíocre, composto por gente que não tem opinião nem posição, só para não chatear o patrão.

A quem sabe opinar e se manifestar com bom senso, e tem um talento inconteste a oferecer, sempre haverá espaço para se manifestar com mais franqueza – entre o pessoal da área artística, volto a ressaltar.

P.S. Este post não foi motivado, ao contrário do que possa parecer, pela participação de Zé de Abreu no Domingão do Faustão, palco onde explicou o que se passou antes de cuspir em um casal em um restaurante japonês na Vila Nova Conceição, em São Paulo. O texto foi feito antes que eu visse a cena do Zé e nasceu, como eu disse, da pressão que só sinto de fora sobre dona Iozzi. Mas a despedida do ator do palco do Faustão acabou por endossar o que cá foi dito: muita gente manda e-mail à Globo pedindo que ele seja demitido, e a resposta sempre crava que a emissora não interfere no posicionamento de seus contratados.