Paraíso Tropical assopra e acende

Cristina Padiglione

05 Março 2007 | 23h05

Em tempos de discussão sobre classificação indicativa e o que é ou não adequado para cada horário, vamos combinar que Gilberto Braga, Ricardo Linhares e Dennis Carvalho são bem abusados em botar a Camila Pitanga a se enroscar numa barrinha cilíndrica de bordel, enquanto os babões da platéia lhe enfiam notas de dinheiro na calcinha. Aqui e ali, um tapinha não dói.

A moça sai do palquinho, garante a atenção de um cliente e cata outro, some de cena com ele. Recado dado? Não para novela da Globo, que supõe não haver bons entendedores do lado de cá da tela. Então, na seqüência, lá vai Camila Pitanga dar expediente na cama. A câmera a mostra de costas, a desabotoar o sutiã e depois lhe dá close no rosto, indicando que a moça gosta do que faz. Melhor assim.

Antes que comecem as acusações de que a Globo está promovendo a prostituição, pano rápido para a mocinha da história, Paula (Alessandra Negrini), que questiona a mãe, comandante do bordel, sobre os benefícios da profissão. Paula evita que uma mocinha de 16 anos seja incorporada ao time do bordel. Verdade, concorda a mãe, Suzana Vieira, “isso não é idade para essa profissão”. “Isso não é profissão pra idade nenhuma, mãe”, responde a garota. E dá-lhe dona Suzana a fazer uma bela defesa da dignidade das putas, sim, por que não? Ao que a mocinha retruca, dizendo que há outros empregos pra quem tem disposição em batalhar. E lá vai ela, Paulinha, salvar a candidata de 16 anos dos cafetões do cais.

Parêntese: se é verdade que as boas ações são compensadas pelos céus, Paula endossa a tese, ao “pescar” Fábio Assunção, pouco depois, enquanto atravessava, de lancha, um mar furioso.

E foi assim que “Paraísto Tropical” acendeu e assoprou no seu capítulo de estréia. Não deixa de ser engraçado ver aquele ritmo slow motion que movia a novela do Manoel Carlos pela orla carioca ser agora substituído por uma narrativa acelerada, em que as ações quase se atropelam e, com todo o respeito às peculiaridades de Copacabana, em cenário não muito distante do Leblon. Ressalve-se que, a exemplo de “Celebridade”, o script promove golpes com nível de dificuldade de dar inveja ao Pica-Pau. Já na estréia, o pérfido Wagner Moura furta uma foto que compromete seu rival e consegue sua publicação numa revista. Simples assim.

Só para não perder a oportunidade: alguém precisa avisar autor de novela que não há tantos fotógrafos, cinegrafistas e repórteres dispostos a se debruçar sobre manifestações que nem chegam a ser, digamos, populares, mas de grupos específicos. Oxalá houvesse na nossa profissão tantos empregos como indicam as novelas. Cada ação merece uma movimentação de imprensa que só presidente da República e Copa do Mundo têm na vida real.

Noves fora, adorei os novos personagens e a chance de ver o Tony Ramos de canalha. Disputa com Wagner Moura o troféu Felipe Barreto da vez.