Pára tudo: Capitu pede silêncio na sala

Pára tudo: Capitu pede silêncio na sala

Cristina Padiglione

25 Novembro 2008 | 18h11

Fui assistir ao primeiro episódio de “Capitu”, a leitura (e não versão) em 5 capítulos que Luiz Fernando Carvalho prepara para o mais machadiano dos Machados de Assis, “Dom Casmurro”, na tela da Globo.

Fiquei (muito) bem impressionada. É programa que vale esforço para silenciar ruídos externos de toda espécie. Peça aos não interessados na cena que se retirem da sala. Mande instalar janelas anti-ruídos. Desligue telefones e interfones. Sente-se diante da TV como quem estivesse no cinema.

Ok, é elementar que a maioria das pessoas não vê TV assim. E isso é um pecado para a exibição de “Capitu”. Para atender à minha solicitação de assistir a uma prévia da série, o pessoal da Globo me preparou uma sala especial: tela bacana, fone de ouvido e até um púlpito (a despeito da falta de vocação eclesiástica de Bentinho) para que a poltrona ficasse na altura da tela, fixada à parede. Mas, em casa, com bebê de 1 ano que pede troca de fraldas, mamadeira e outras manhas, diminui drasticamente minha chance de ver “Capitu” com toda a concentração que ela merece.

Quando disse “leitura”, e não versão, entenda: a narrativa da série segue fielmente as letras de Machado, na mesma ordem cronológica, íntegra respeitadíssima, como poucas vezes se viu na transposição de uma obra literária para a tela.
E quando digo “concentração”, não pense que a “Capitu” de LF exigirá do telespectador a mesma dose de raciocínio reclamada em “A Pedra do Reino”, sua última produção para a TV. A própria história de Suassuna, a contar das páginas impressas, demanda mais suor de cérebro que a linear saga de Bentinho. Mas LF ousa inserir mais uma dose de didatismo, sem cair na síndrome sorvete-na-testa que abala a maioria dos diretores televisivos. Fincada em cenário único, o que, aliás, ele já tinha feito em “Hoje é Dia de Maria”, a narrativa é entrecortada por vinhetas (com pinta de outdoor e locução radiofônica) que apresentam situações e personagens ao espectador. São termos como “Do livro”, a encher a tela – neste caso, o “outdoor” precede o argumento de Bentinho para o título “Dom Casmurro”. Ou “O Agregado”, que apresenta o perfil de José Dias. E seguem-se outros tantos.

Maquiagem e figurino também remetem a “Hoje É Dia de Maria”, com tintas que só o teatro se permite carregar e closes que só a TV pode aplicar.

A trilha sonora, excelente, joga a favor da série. A boa música, afinal, sempre é capaz de calar aquele sujeito incoveniente que, diante da TV, há de lhe pedir a colher do açúcar bem na hora em que o mocinho profere o maior segredo da história. Que venha “Capitu”. Estréia dia 9.


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