Para elenco de ‘Dez Mandamentos’, campanha da Igreja Universal pelo filme “é natural”

Para elenco de ‘Dez Mandamentos’, campanha da Igreja Universal pelo filme “é natural”

Cristina Padiglione

27 de janeiro de 2016 | 02h30

10Mandamentos

 

Se a Igreja Universal incentivou, por meio dos cultos em suas unidades, que os fiéis corram ao cinema para ver Os Dez Mandamentos, primeiro filme longa-metragem da Record, “qual é o problema?”, questiona Sérgio Marone, o Faraó Ramsés, antagonista do enredo de Vivian OLiveira, baseado na história bíblica. O ator conversou com o Estado logo após a exibição da sessão de pré-estreia do filme, na noite desta terça-feira, no Shopping JK, em São Paulo. O filme entra em cartaz a partir desta quinta, dia 28, em mais de 1000 salas por todo o País, acumulando já mais de 2,5 milhões de ingressos vendidos em sistema de pré-venda.

“Acho incrível. Qual é o problema de fazer isso?”, reforça Marone. “É um produto da casa e a casa está incentivando que isso seja consumido. A TV Globo ou a Revista Veja também não mandam a gente comprar produtos embutidos com essas marcas todas? Isso é muito mais grave do que convidar as pessoas a verem um produto da casa. Qualquer meio de comunicação acaba fazendo isso e incentiva a algumas coisas muito ruins, como comer enlatados, produtos embutidos, tantos apresentadores e tanta gente famosa incentivam tanta gente a comer. O que é pior? A Globo também vende os produtos dela.”

Conversei ainda com Denise Del Vecchio, Paulo Figueiredo e Sidney Sampaio, o Josué, protagonista da continuação da história – A Terra Prometida, programada para estrear após uma breve segunda fase de Os Dez Mandamentos, prometida para março.

Nenhum deles acha plausível atribuir o sucesso das pré-vendas à campanha da Universal ou à audiência meramente evangélica.

“Meu porteiro é um padre, de tão católico, e adorava ver a novela”, conta Denise.

“Independentemente da religião, é uma grande história”, emenda Sidney. “A obra tem uma grande qualidade, promover o filme dentro do grupo é o que todo mundo faz, a propaganda é a alma do negócio”.

“O que eu acho bom mencionar como algo que transcende isso tudo é a qualidade técnica e artística desse trabalho, que é monumental”, fala Figueiredo. “Além do fato das pessoas que têm alguma tendência religiosa, as pessoas vão ver. E é uma maneira de as pessoas entenderem a Bíblia, antes de ler a Bíblia.”

 

Ao gravar um depoimento para as redes sociais da Record, convidando a plateia a ver o filme, Marone cometeu ato falho ao agradecer “aos deuses”. Vai na contramão de toda a mensagem transmitida pelo enredo de Moisés, endossado pela crença de Edir Macedo, de que só um Deus deve ser venerado e respeitado.  E quem vai contra Ele, só há de se dar muito mal. “Eu sou egípcio até o final”, brincou Marone, reforçando a trajetória de seu Ramsés, personagem que nega a soberania divina única na qual acreditam os hebreus.

“O sucesso da pré-venda superou todas as expectativas, assim como o sucesso da novela também superou todas as expectativas”, diagnostica o ator.

O filme buscou uma narração exclusiva de Josué para emendar determinados trechos que ficariam sem sentido na edição de tantas horas condensadas em apenas 120 minutos. A exibição em tela grande só enalteceu a primazia dos efeitos especiais e o HD não fez feio – ao contrário – na ampliação das imagens, submetidas a um processo de remasterização. Tecnicamente, em termos de imagens, a produção tem seu valor e justifica seu sucesso. Já o enredo, seguindo à risca o maniqueísmo de um Deus que castiga a todos que negam sua soberania, flerta um bocado com o didatismo, sem brechas para a incompreensão do espectador. Afinal, se o título atingir de fato os evangélicos mais fervorosos, estaremos falando de um público que, em geral, não é de frequentar os cinemas, e não vai aí nenhum preconceito meu – esta declaração me foi feita por um dos altos chefões da Record, sempre solicitando anonimato.

Ao mesmo tempo, convém lembrar que o esmero em enredos de fácil compreensão para fisgar grandes bilheterias também não é exclusividade das produções bíblicas interessadas em fiéis. A Globo Filmes, afinal, capricha nas comédias rasgadas para produzir aqueles robustos números de bilheterias. E funciona.

Tudo o que sabemos sobre:

BíbliaDez MandamentosRecordSérgio Marone

Tendências: