Os 10 males de Avenida Brasil, das cédulas à foto digital

Os 10 males de Avenida Brasil, das cédulas à foto digital

Cristina Padiglione

27 de setembro de 2012 | 15h57

Raphael Dias/Divulgação
                       

Tudo bem, ficção é ficção, a vida real nem sempre é coerente, reconhecemos, mas uma novela que se vende como contemporânea e realista há que endossar sua maestria. Como já disse, só me incomodo com um enredo que aplaudo, e bato palmas para o João Emanuel Carneiro e seus personagens, daí minha recusa em aceitar os mexicanismos que justificam os fins, ultimamente presentes na história.

Leitores da coluna Sem Intervalo no Caderno 2 endossam esse discurso, e, sem querer ser o chato que rebate até sotaque de novela, pelamor, vamos às 10 falhas nos (des)Mandamentos de Avenida Brasil:

 

1) Se o dinheiro que Carminha plantou na mala de Nina foi o dinheiro roubado do barco de Max, fruto do assalto àquela Nina que saía do banco com as cédulas referentes a sua herança, por que havia notas do sequestro de Carminha no meio das cédulas apreendidas pela Polícia Federal? Max não havia torrado qualquer resquício (que já era bem menos do que ele ambicionava) do sequestro? As notas que ficaram com Nina não foram torradas no barco? Quando Nilo bateu o barco num banco de areia, Max não foi choramingar mais dinheiro a Nina? Logo, não poderia haver nota do resgate do sequestro na armação de Carminha.

2) Nina não guardou as fotos num e-mail, ninguém se conforma. Agora vamos a um flaschback: as fotos foram tiradas de uma máquina fotográfica, não do celular, e ela entregou o cartão de memória na loja onde fez as cópias em papel, pouco antes de quase ser enterrrada viva, mas também tinha as fotos no celular, como mostrou para Jorginho. Em algum momento, portanto, essas fotos foram salvas em algum computador para serem transferidas para o celular. O celular foi roubado, mas e o cartão de memória da máquina fotográfica? E a mensagem que permitiu a transferência para o celular, cadê?

3) Tufão e Leleco saem de casa com Zezé a caminho da favela onde moram os sequestradores. Zezé sabe o caminho de casa, queremos crer que não tenha se perdido. Minutos depois, Carminha se esparrama no sofá da sala, ouve a história da sogra, a  equivocada Muricy, convoca Max para o escritório, discute toda a vida dos dois, entrega-lhe 100 mil para subornar os sequestradores, e Max vai até a favela, chegando lá antes de Tufão, Leleco e Zezé. Foi de helicóptero?

4) Como Carminha sabe que Nina não possui mais nenhuma cópia das fotos? Não bastasse a improvável hipótese de a mocinha não ter guardado nada em arquivo digital, a outra se vale de uma certeza absoluta quando, ao botar as mãos nas cópias que julga ser as últimas provas, irrompe a porta da casa de Tufão despejando a bomba do namoro do filho com a cozinheira e da informação de que Nina é Rita.

5) Por que Carminha cutucaria a onça com vara tão curta, sabendo que um reles exame de DNA vale ainda mais para sua adversária do que as fotos que trata como prova final?

6) Por que, não custa lembrar, Nina sairia do banco caregando 1 milhão, depois de guardar na memória, desde a infância, a história do pai, que quase foi vítima do mesmo golpe, ponto de partida para o seu fim, e de “seu” Tufão, também assaltado por dois garotos numa moto? 

7) Por que a super-mega-blaster inteligente Nina, uma semana depois de ter sido assaltada por sair do banco a pé, sabendo que a megera está no seu encalço, sai de novo a pé do banco, com um envelopinho guardado numa bolsinha que mais parecia obra de lixo reciclado, frágil, com as últimas cópias de sua prova?

8) Como Carminha, que consegue manter seus segredos há 12 anos, mantém também seus amantes numa chácara da família, onde Tufão, Leleco ou Ivana podem chegar a qualquer momento?

9) Por que a gente perde tempo discutindo tudo isso, como se estivéssemos tratando dos passos, incoerências e suspeitas em torno dos candidatos à prefeitura da nossa cidade? Porque é mais aprazível bater boca sobre gente que não existe, mas habita o nosso imaginário, amém.

10) E por que a gente deveria cobrar tanta coerência das personagens da ficção, se as personagens da vida real nem sempre primam pela lógica?

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.