O dia em que o Manga me ligou

O dia em que o Manga me ligou

Cristina Padiglione

18 Setembro 2015 | 11h17

manga

“Você mente! Eu sou Carlos Manga, eu sou do Brasil, meu amor, ninguém pode me repreender!”

Esse foi o telefonema que recebi do Manga, numa tarde de quarta-feira, meio de semana. Era 29 de outubro de 1997. Diretor do Domingão do Faustão na época, ele era também responsável pelo sushi erótico, episódio ocorrido no domingo anterior e que veio a se tornar uma referência do que não deveria jamais voltar a acontecer na guerra de audiência. Entrou para a história como o maior escândalo do programa. Deu-se que no meio da tarde de domingo, botaram lá uma moça deitada numa mesa, moça bonita, coberta só por sushis, sashimis e afins, enquanto Marcio Garcia, Oscar Magrini e Matheus Rocha, um jovem ator, degustavam das iguarias, “descobrindo” o corpo da modelo e tecendo comentários de ruborizar os espectadores das chanchadas da Atlântida.

A repercussão foi a pior possível. Eram tempos de concorrência desmedida, irracional. Gugu tinha a tal da banheira, com boazudas metidas em biquínis mínimos,  que eram bolinadas à vontade por convidados que disputavam sabonetes debaixo d’água com elas. Globo e SBT se estapeavam por pontos no Ibope, trocavam ameaças na indústria fonográfica – artista que ia a um programa estava vetado no outro, etc.

No oba-oba da concorrência, veio a ideia do sushi, cena que, na tela da Globo, chocou a audiência habituada ao padrão de qualidade.

Boni, ainda big boss, chamou Manga às falas e eu publiquei uma nota sobre o encontro, na Folha de S.Paulo, onde trabalhava, na época.

Eis a nota:

“Diretor de Faustão é repreendido pela Globo

A direção da Globo avaliou o circo que se montou em sua tela no último “Domingão do Faustão” como uma desobediência de Carlos Manga, diretor de núcleo do programa, ao padrão de qualidade estabelecido pela emissora.
Embora o diretor tenha sido repreendido -até pelos tantos telefonemas de telespectadores chocados com o tal “sushi erótico”-, a cúpula da Globo decidiu mantê-lo à frente do “Domingão”.
Contribuiu, para tanto, o fato de o próprio Manga reconhecer que extrapolou os limites do bom gosto. A empresa voltou a endossar que prefere perder no Ibope, a apelar para cenas como as do último domingo.”

Manga me ligou abalado, chateado, revoltado, dizendo que eu era uma mentirosa.

Seria sua primeira e última manifestação sobre o caso. Publicamos a conversa no dia seguinte, sem poupar o desdém dele à minha informação. Disse ele que o Boni o chamou para almoçar, com um “vinho maravilhoso”, e não houve nada daquilo.

Eu desliguei o telefone, satisfeita com o retorno dele. Afinal, tínhamos uma palavra de quem deveria falar e até então não havia se manifestado. Dizer que eu era mentirosa só reforçava a crise gerada pelo sushi.

Avisei meu editor, na época Sérgio Dávila, que abriu espaço de urgência no caderno Cotidiano, para publicarmos a conversa. Foi um sucesso.

Manga passa para a história com mil feitos geniais, é bom enfatizar, o que justifica sua ira com o escorregão da vez. Todo mundo erra, até o “Carlos Manga do Brasil”.

Pra mim, de verdade, foi uma honra receber um telefonema seu, ainda que fosse para me desmentir numa história verdadeira.

Pouco tempo depois, o Manga deixou o comando do Domingão.